Matérias / Nazismo

Os horrores e o humor ácido da 2ª Guerra pelos olhos de Lee Miller

Do icônico registro na banheira de Hitler à conversa com Pablo Picasso após a libertação de Paris, as fotografias de Lee Miller capturaram os momentos finais da 2ª Guerra

A página da esquerda contém uma foto de Lee Miller com Pablo Picasso, enquanto a da direita traz uma versão alternativa nunca antes vista da famosa foto de Miller nas Bodleian Libraries da banheira de Hitler - Crédito: Bibliotecas Bodleian

Em 30 de abril de 1945, o mesmo dia em que Adolf Hitler tirou a própria vida, a fotógrafa Lee Miller protagonizou uma das imagens mais simbólicas do fim da guerra na Europa: ela foi fotografada tomando banho na banheira do ditador. Ao lado de seu companheiro, o também correspondente de guerra David Scherman, Miller entrou no apartamento abandonado de Hitler em Munique. Eles montaram a cena, colocando um retrato do Führer ao fundo, e Scherman registrou o momento.

Horas antes, Miller havia visitado o recém-libertado campo de concentração de Dachau. Suas botas, ainda sujas da lama do local, aparecem na fotografia. O detalhe, é claro, não é desprovido de significado. Como declarou Antony Penrose, filho da fotógrafa, desta maneira “ela estava dizendo que era a vencedora.”

A imagem se tornou um ícone do desfecho da Segunda Guerra Mundial na Europa e ajudou a consolidar a reputação multifacetada de Miller, que, à época, trabalhava como correspondente da edição britânica da Vogue. Além disso, ela transitava entre diferentes papéis: além de artista surrealista, era modelo e uma figura provocadora.

Décadas mais tarde, um álbum de recortes contendo fotografias inéditas de Miller — além de imagens do fotógrafo Cecil Beaton — veio à tona a partir de uma coleção particular na Inglaterra. Conforme destacou uma matéria da revista Smithsonian, o material foi reunido por Roland Haupt, que atuou como assistente de laboratório da Vogue entre 1943 e 1949, e permaneceu em mãos privadas por mais de 75 anos até ser adquirido pelas Bibliotecas Bodleian da Universidade de Oxford.

Fotos de soldados soviéticos e americanos – Crédito: Bibliotecas Bodleian

Importância do álbum

Para Haupt, o álbum tinha valor pessoal — ele o apresentou como uma homenagem à sua fotógrafa favorita. Já para historiadores e especialistas, trata-se de um documento de grande relevância, uma vez que reúne imagens impactantes de campos de extermínio nazistas, retratos de celebridades e até uma segunda versão da famosa foto na banheira.

“Há muitas fotos que eu nunca vi antes”, diz o negociante de fotografia Michael Hoppen, que intermediou a venda, em entrevista ao London Times. “Há fotos dos campos de concentração que eu fico feliz por não lembrar e outras de execuções nas quais se tem a sequência completa de fotos. É claramente um álbum muito pessoal.”

Sobre Lee

Nascida em 1907, em Poughkeepsie, Nova York, Miller iniciou sua carreira como modelo e chegou à capa da Vogue após conhecer a editora Condé Nast. Mais tarde, ao se mudar para Paris, mergulhou no movimento do Surrealismo, colaborando com o artista Man Ray, que a retratou em diversas obras. Nesse período, ela também desenvolveu sua própria linguagem fotográfica.

Ao longo dos anos, Miller viveu e trabalhou em cidades como Nova York, Cairo e Londres. Em 1940, começou a colaborar com a Vogue britânica e, dois anos depois, tornou-se correspondente de guerra credenciada do exército dos Estados Unidos. Sua abordagem artística singular se manteve mesmo em cenários de conflito, produzindo imagens únicas, como a fotografia que exibe uma enfermeira em meio a dois varais dos quais pendem luvas como “mãos desencarnadas”.

No canto inferior esquerdo há um retrato encenado de um homem deitado na cama de Eva Braun, lendo Mein Kampf – Crédito: Bodleian Libraries

Figuras notáveis

O álbum também inclui registros de encontros notáveis, como uma fotografia de Miller conversando com Pablo Picasso em seu estúdio em Paris, logo após a libertação da cidade. “Eu estive com as primeiras tropas americanas na libertação de Paris e a primeira coisa que fiz foi ir ver meu velho amigo Picasso”, recordaria ela mais tarde. “Picasso sempre dizia que eu era o primeiro soldado americano que ele viu”, contou.

Embora muitas imagens presentes no álbum sejam sensíveis e incluam execuções e prisioneiros de guerra, ele também reúne retratos de figuras icônicas como Marlene Dietrich, Fred Astaire e Bob Hope. Vale destacar também a existência de uma composição provocativa, na qual um homem aparece deitado na cama da esposa de Hitler lendo Mein Kampf.

O redescobrimento do álbum faz parte de um renovado interesse pela obra de Miller. Em 2023, Kate Winslet a interpretou no filme “Lee” e exposições recentes em instituições como o Museu Dalí e a Tate Britain ajudaram a resgatar seu legado.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.