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A princesa que lutou pelo direito ao voto feminino na Inglaterra

Herdeira do Império Sikh e afilhada da rainha Vitória, Sophia Duleep Singh transformou a vida aristocrata em ativismo pelo direito ao voto

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A princesa Sophia Duleep Singh (à dir.), com as irmãs Bamba (ao centro) e Catherine (à esq.) - Divulgação/Peter Bance Collection

Em novembro de 1910, uma princesa marchou rumo ao Parlamento britânico em defesa de um direito que ainda era negado à metade da população: o voto feminino. A cena, por si só, já carregava um forte peso simbólico. Mas a figura no centro daquela mobilização tornava o episódio ainda mais emblemático. Tratava-se de Sophia Duleep Singh, filha do último marajá do Império Sikh, herdeira de uma linhagem diretamente marcada pela expansão colonial britânica e afilhada da própria rainha Vitória.

Nascida em 1876, Sophia cresceu entre os salões aristocráticos da Inglaterra, cercada por privilégios que lhe foram garantidos pela proximidade da família com a monarquia. Seu pai, Duleep Singh, havia sido deposto ainda criança após a anexação do Punjab pela Companhia das Índias Orientais, em 1849, quando o domínio britânico sobre a região foi consolidado. Como parte do processo de submissão política, ele foi obrigado a ceder o famoso diamante Koh-i-Noor à Coroa britânica, hoje um dos maiores símbolos das disputas sobre o legado colonial do império.

A trajetória de Sophia, porém, não permaneceu restrita ao papel decorativo reservado à aristocracia feminina de sua época. Se a infância foi marcada pelo conforto e pela vida palaciana, a maturidade a transformou em uma das vozes mais combativas do movimento sufragista no Reino Unido.

Ativismo pelo voto feminino

Sua virada política está intimamente ligada à redescoberta de suas origens e à compreensão do destino de sua família dentro da lógica imperial britânica. Ao tomar contato mais direto com a história da deposição do pai e da perda do reino ancestral, Sophia passou a desenvolver uma postura crítica em relação ao imperialismo. Essa consciência histórica atravessou sua atuação pública e redefiniu sua identidade: de princesa integrada à elite britânica a figura de resistência.

Entre 1906 e 1914, ela se engajou ativamente na campanha sufragista, ao lado da Women’s Social and Political Union (WSPU), grupo liderado por Emmeline Pankhurst. Sophia participou de manifestações, protestos e ações diretas que buscavam pressionar o governo britânico a reconhecer o direito das mulheres ao voto.

Um dos episódios mais marcantes ocorreu no chamado “Black Friday”, em 18 de novembro de 1910, quando cerca de 300 mulheres marcharam ao Parlamento e foram brutalmente reprimidas pela polícia. Muitas sofreram agressões físicas e violência sexual. Sophia estava entre as manifestantes detidas naquele dia, o que reforçou sua projeção pública como uma das principais figuras do movimento.

Sua condição de princesa, longe de funcionar como blindagem, tornou sua presença ainda mais poderosa politicamente. A imagem de uma afilhada da rainha Vitória enfrentando a própria estrutura do Estado britânico condensava as contradições do império. Sophia chegou a vender exemplares do jornal The Suffragette nas ruas e adotou uma postura abertamente desafiadora diante das autoridades. Em determinado momento, recusou-se a pagar impostos sob o lema que se tornaria célebre: sem representação política, não deveria haver tributação.

Durante a Primeira Guerra Mundial, sua atuação assumiu novos contornos. Sophia trabalhou como enfermeira voluntária e participou de iniciativas de apoio a soldados feridos, incluindo combatentes indianos enviados para lutar pelo Império Britânico. Essa dimensão humanitária seria retomada anos depois, durante a Segunda Guerra Mundial, quando integrantes de sua família se envolveram no acolhimento de refugiados que fugiam da perseguição nazista. A história recente recuperada por exposições e pesquisas históricas destaca especialmente a rede de solidariedade articulada ao redor de Sophia e de sua irmã Catherine Duleep Singh, que ajudou judeus a escapar do regime de Adolf Hitler.

Hoje, sua história volta ao centro do debate graças à exposição The Last Princesses of Punjab, no Palácio de Kensington, que resgata a trajetória da princesa em meio às tensões entre herança imperial e ativismo.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.