Matérias / Segunda Guerra

O trem de Hitler: Da Rota da Seda até Berlim

O projeto do Reichskommissariat Turkestan: a tentativa de Hitler e Rosenberg de controlar a Ásia Central através de uma ferrovia épica

Adolf Hitler discursando em 1934 - Getty Images

O pouco transcendido do país na época da Segunda Guerra Mundial destaca que o Turcomenistão estava nos planos expansionistas do nazismo.

O Terceiro Reich chegou a considerar a possibilidade de criar, aí, seu Reichskommissariat Turkestan para estabelecer controle sobre a Ásia Central e a antiga “rota da seda” que atravessa sua geografia.

A ideia não era apenas uma ocupação militar, mas a criação de uma zona de influência que servisse como barreira contra o avanço das potências asiáticas e como um entreposto de recursos naturais vitais para o esforço de guerra alemão.

A estratégia nazista para a região envolvia a manipulação das identidades étnicas locais. Esperava-se que os povos turcomanos, sob a promessa de uma suposta libertação do jugo soviético, pudessem colaborar com a administração alemã.

No entanto, por trás dessa “libertação”, escondia-se um projeto de exploração colonial profunda, onde as matérias-primas do Turcomenistão, como o algodão e potenciais reservas minerais, seriam drenadas para sustentar a economia do império europeu de Adolf Hitler.

++ Madagascar: A curiosa “Terra Prometida” imaginada pelos nazistas

Ideólogos do Reich

Se bem que as fantasias de Hitler, às vezes, queriam emular Alexandre, o Grande, que havia conquistado esse território em 329 a.C., a verdade é que o ideólogo dessa concepção foi o político e escritor nazista Alfred Rosenberg.

Para muitos, — com Dietrich Eckart — Rosenberg foi a mente mais diabólica por trás do Führer e também o principal ideólogo promotor do antibolchevismo e do antijudaísmo nazista.

Rosenberg, nascido na Estônia do Império Russo, tinha uma obsessão particular pelo Leste e pela reorganização racial da Eurasia.

Alfred Rosenberg via a Ásia Central como um tabuleiro de xadrez onde o sangue “ariano” deveria prevalecer sobre as influências eslavas e semitas. Ele acreditava que o controle do Turcomenistão era o passo final para desmantelar definitivamente a União Soviética.

Sua influência era tamanha que ele foi nomeado Ministro dos Territórios Ocupados do Leste, cargo que utilizou para planejar a partilha sistemática das repúblicas soviéticas. Contudo, seu destino foi selado pelo fracasso militar: Rosenberg foi condenado por crimes de guerra nos Julgamentos de Nuremberg e executado em 1946.

Nomes e Projetos

Segundo o historiador soviético Lev Bezymenski, os nomes de Panturkestan (Panturquestão), Großturkestan (Grande Turquestão) e Mohammed-Reich (Império Mohammed) foram avaliados para batizar esse território uma vez que fosse ocupada a União Soviética pelos nazistas.

A escolha desses nomes refletia a tentativa de Alfred Rosenberg em cooptar a população muçulmana da região para uma guerra santa contra o comunismo, embora o ateísmo prático do nazismo visse qualquer religião apenas como uma ferramenta política temporária.

Até uma Breitspurbahn — rede ferroviária de bitola larga — foi planejada para unir a região, de Asgabate a Berlim. Os 4.333 km existentes em linha reta se uniriam em 40 horas, com paradas em Kiev e Varsóvia, entre outras cidades menores.

Este trem colossal, com vagões de dois andares e luxos inimagináveis, seria o símbolo da supremacia técnica alemã, cruzando as estepes e montanhas para conectar o coração da Europa ao extremo da Ásia Central, transportando tanto as riquezas pilhadas quanto os novos colonos alemães.

Prioridades do Führer

Essa proposta foi desativada por ordem do próprio Hitler, “pelo menos para o futuro imediato”, porque o esforço deveria ser “focado nas partes europeias da nova URSS” naquele momento.

A Operação Barbarossa, iniciada em 1941, exigia uma concentração de recursos que tornava a administração de territórios tão distantes como o Turcomenistão um pesadilo logístico prematuro.

Adolf Hitler priorizava os recursos agrícolas da Ucrânia e o petróleo do Cáucaso antes de avançar para as areias do Turcomenistão.

Fontes históricas e documentos analisados por Lev Bezymenski sugerem que a resistência feroz do Exército Vermelho em Stalingrado foi o golpe final nas pretensões de Alfred Rosenberg para o Reichskommissariat Turkestan.

Sem o controle total das margens do Volga e do Mar Cáspio, o trem de Hitler nunca passaria de um desenho técnico nos arquivos de Berlim.

O Turcomenistão, portanto, permaneceu fora do alcance das botas da Wehrmacht, mantendo sua geografia livre da arquitetura totalitária que os ideólogos nazistas sonharam em impor à histórica Rota da Seda.


++ Mais detalhes destas histórias estão na coleção que Aventuras na História apresenta, denominada “A Guerra de Todos”. Dividido em oito livros, escrito pelo jornalista Edgardo Martolio, a coleção ajuda a entender a magnitude do conflito e também conta tudo aquilo que ainda pouco conhecemos da Segunda Guerra Mundial. 

O primeiro livro da coleção “A Guerra de Todos”, que possui o título de “O Eixo: Agressores, Iludidos e Anexados” já está em pré-venda. Saiba mais detalhes clicando aqui!