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Nuremberg: A história real por trás dos julgamentos dos nazistas

Nuremberg, filme de James Vanderbilt que conta a história dos Julgamentos de Nuremberg, chega aos cinemas brasileiros na próxima semana

Cena de Nuremberg - Divulgação: Diamond Films Brasil

Com o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa — após a derrota das potências do Eixo e o suicídio de Adolf Hitler —, os Aliados viviam um dilema: o que fariam com os membros nazistas que foram capturados?

O primeiro-ministro britânico Winston Churchill foi frio e calculista: o melhor seria executá-los a sangue-frio; já o soviético Josef Stalin queria um julgamento de fachada, com a intenção de dar-lhes o mesmo fim.

Enquanto isso, o recém-empossado presidente dos EUA, Harry S. Truman, insistia em um julgamento real para levá-los à Justiça.

A saída foi tão sem precedentes quanto os próprios crimes: realizar um tribunal internacional em Nuremberg. A cidade tinha um significado especial: era o palco da ascensão do Terceiro Reich.

Os Julgamentos de Nuremberg, como o episódio ficou conhecido, foram liderados pelo juiz associado da Suprema Corte dos Estados Unidos, Robert H. Jackson. Faltava aos Aliados estabelecerem a estrutura para o julgamento.

Neste contexto surge o tenente-coronel Douglas Kelley, um psiquiatra do Exército dos EUA que assumiu uma árdua missão: sondar a mente dos líderes nazistas capturados — alguns dos homens mais cruéis da humanidade — para entender suas decisões, que devastaram continentes e aniquilaram milhões.

Os Aliados entendiam que a justiça em Nuremberg não seria medida apenas por vereditos e sentenças, mas por um acerto de contas mais profundo com as raízes do próprio mal.

Afinal, seria a monstruosidade do regime nazista produto de mentes singularmente perturbadas, ou poderiam homens comuns ser seduzidos pela ideologia e pela ambição a cometer atos impensáveis? O mundo precisava de respostas.

Este é o pano de fundo de Nuremberg, filme que chega aos cinemas brasileiros no próximo dia 26 de março. O longa, dirigido por James Vanderbilt e distribuído pela Diamond Films Brasil, é baseado no livro ‘O Nazista e o Psiquiatra’ (Ed. Planeta), de Jack El-Hai.

A Justiça pela Guerra

Nuremberg começa com a rendição e a prisão de Hermann Göring (interpretado por Russell Crowe), o membro de mais alta patente da liderança nazista ainda vivo, pelo exército norte-americano em maio de 1945.

Sucessor de Hitler, Göring era o segundo político mais poderoso do Terceiro Reich, encarregado de supervisionar a Força Aérea Alemã e a criação da Gestapo (a polícia secreta nazista).

Apesar de ele ter caído em desgraça com o decorrer da Segunda Guerra Mundial, os suicídios de Hitler, Heinrich Himmler, Joseph Goebbels e outros líderes alemães colocaram o Reichsmarshall (uma patente militar criada especificamente para Göring) como a figura emblemática mais visível do regime nazista.

Paralelamente à sua prisão, a primeira parte do longa apresenta o juiz da Suprema Corte Robert H. Jackson (Michael Shannon) em busca de apoio para os julgamentos públicos. Enquanto Churchill e Stalin queriam seguir por caminhos mais diretos, foi Jackson quem pressionou por uma audiência que combinasse os procedimentos soviéticos, o direito consuetudinário britânico, o Código Napoleônico francês e o direito constitucional americano.

Jackson insistiu que mesmo os responsáveis pelos piores crimes da Segunda Guerra Mundial mereciam um processo legal justo, em vez de execução sumária, estabelecendo o que se tornaria a base para o direito internacional moderno.

Assim, cada uma das quatro potências dos Aliados forneceria uma equipe de promotores e um juiz para condenar os réus. Era necessário que a maioria dos juízes concordasse com os vereditos e as sentenças.

Robert Jackson basicamente inventou o tribunal penal internacional”, observa Vanderbilt, em material compartilhado pela Diamond Films com a equipe do Aventuras.

A psiquiatria em Nuremberg

Em Nuremberg, Kelley (Rami Malek) chega ao local com pouca dimensão da tarefa que teria de realizar. Então com 32 anos, o psiquiatra já havia tratado milhares de soldados com traumas de guerra.

Mas tudo se tornou muito maior quando descobriu que o Exército queria que ele avaliasse os réus e julgasse se eles estavam aptos a serem julgados do ponto de vista psicológico.

Afinal, os nazistas sabiam diferenciar o certo do errado? Eles tinham controle sobre seus atos?

Rami Malek em Nuremberg – Diamond Films Brasil

Uma das figuras mais controversas deste período é Rudolf Hess, o antigo vice-Führer (não confundir com Rudolf Höss, o comandante de Auschwitz), que alternava entre relatos de amnésia e a suspeita de uma perda de memória seletiva.

Se considerarmos a rua como a sanidade e a calçada como a insanidade, então Hess passou a maior parte do tempo na sarjeta”, escreveria Kelley mais tarde.

Tanto Kelley quanto Gustave Gilbert (Colin Hanks), psicólogo contratado alguns meses depois para dar uma segunda opinião sobre os réus, viam na oportunidade uma chance de responder a uma questão central da natureza humana.

“Precisamos entender o porquê do sucesso nazista para que possamos tomar medidas para evitar a repetição de tal maldade”, escreveu Kelley no manuscrito de seu livro de 1947 sobre os julgamentos, 22 Células em Nuremberg.

Na mente dos nazistas

Contando com a ajuda de tradutores, como o refugiado judeu-alemão Howie Triest (Leo Woodall), os médicos aplicaram testes de Rorschach aos nazistas. Os psiquiatras também passaram horas conversando sobre suas motivações ou indagando questões centrais para entender suas respectivas saúdes mentais.

Além de Göring e Hess, os prisioneiros incluíam Robert Ley (chefe da Frente Alemã do Trabalho), Julius Streicher (editor-chefe do jornal antissemita Der Stürmer) e Albert Speer (arquiteto nazista).

Kelley desenvolveu uma relação particular com Göring, descrevendo-o como um “indivíduo agressivo e narcisista”.

Havia pessoas e coisas de que ele gostava — sua família, seus amigos e animais — e, para eles, nada era bom demais. Por outro lado, ele tinha um completo e total desinteresse por qualquer ser vivo que não se enquadrasse em um desses grupos.”

Cena de Nuremberg – Diamond Films Brasil

Para se aproximar cada vez mais de Göring, o psiquiatra chegou a quebrar algumas regras do Exército, como estabelecer uma relação com a esposa e a filha do nazista.

Aprisionados

Aprisionados, os réus nazistas viviam sob duras condições impostas pelo coronel Burton C. Andrus (John Slattery). Constantemente, tinham seus escassos pertences revirados, uma forma de prevenir qualquer objeto que pudessem usar para tirar a própria vida.

Suas celas também eram iluminadas com lanternas à noite para garantir o cumprimento da regra de que a cabeça e as mãos dos prisioneiros deviam estar sempre visíveis, mesmo enquanto dormiam.

Mesmo assim, Robert Ley conseguiu improvisar uma corda com uma toalha para se estrangular enquanto estava sentado no vaso sanitário.

Uma morte assim é lenta e dolorosa”, escreveu Kelley. “Ela demonstra a violenta vontade de morrer de Ley.”

Apesar de Göring considerar o suicídio uma escolha lógica quando não tivesse mais honra e dignidade, o líder nazista não pretendia se matar antes de aproveitar a oportunidade para se defender no cenário mundial.

É bem verdade que ele sequer chegou a admitir suas culpas durante as sessões com Kelley. Muito pelo contrário: sustentava que os Julgamentos de Nuremberg eram apenas o resultado da derrota alemã, colocando em xeque a moralidade norte-americana e dos Aliados, que também ceifaram vidas inocentes sem nenhum ressentimento.

Os relatos gráficos

Seis meses depois do fim da Segunda Guerra na Europa, o primeiro julgamento de Nuremberg começou em 20 de novembro de 1945.

O Tribunal Militar dos Aliados colocou 22 nazistas no banco dos réus por quatro crimes: conspiração, crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

“Os erros que buscamos condenar e punir foram tão calculados, tão malignos e tão devastadores que a civilização não pode tolerar que sejam ignorados, porque não pode sobreviver à sua repetição”, disse Jackson em sua declaração inicial.

“[Os nazistas são] os primeiros líderes de guerra de uma nação derrotada a serem processados em nome da lei, [mas] também os primeiros a terem a chance de defender suas vidas em nome da lei”, completou, oferecendo aos réus a oportunidade que os seis milhões de judeus exterminados durante o Holocausto jamais tiveram.

Um dos momentos cruciais do julgamento ocorreu durante sua segunda semana, em 29 de novembro, quando os promotores mostraram imagens inéditas das tropas aliadas libertando campos de concentração.

Vale ressaltar que, naquela época, a maioria do público tinha entendimento da brutalidade cometida pelos nazistas, mas o conhecimento era apenas escrito e oral. As imagens de sobreviventes esqueléticos e pilhas de cadáveres nus chocaram o mundo.

Albert Göring (Russell Crowe) no Julgamento de Nuremberg – Diamond Films Brasil

Ao vê-las, Göring tossiu nervosamente e “cobriu o rosto com o braço direito”, escreveu El-Hai; enquanto vários outros choraram ou desviaram o olhar.

A imprensa de todo o mundo registrou o momento. “Todos os réus estavam visivelmente afetados, e a maioria sentiu profunda vergonha pelo que perceberam ser a desgraça da Alemanha perante o mundo”, diziam os veículos de comunicação.

Nuremberg recria essa cena, exibindo as imagens históricas reais sob a perspectiva dos personagens do filme. O diretor James Vanderbilt sabia que a importância de mostrar as imagens não poderia ser ignorada.

Todo o filme é construído para o momento em que se chega às filmagens dos campos de concentração”, diz ele. “Sempre foi importante para mim que o filme fosse envolvente e que o motor da história envolvesse você o suficiente para aproveitar a jornada. Mas então essas filmagens servem como um golpe inesperado, como deveriam.”

O choque de Kelley

Durante a exibição das imagens, o filme mostra Kelley como o personagem mais afetado. Após ver as cenas, ele sai abruptamente do tribunal e confronta Göring sobre seu papel nos campos de concentração.

Uma discussão acalorada entre os dois enterra qualquer pretensão de amizade de ambas as partes. Após trocas de acusações de hipocrisia, Kelley — embriagado — fica tão transtornado que revela segredos do julgamento a uma repórter e é sumariamente expulso do Exército.

Conforme relata a Smithsonian Magazine, porém, as circunstâncias da saída de Kelley de Nuremberg foram menos dramáticas. Após três anos longe da esposa, ele estava ansioso para voltar aos Estados Unidos.

O psiquiatra também pretendia escrever um livro sobre sua experiência — embora ele e Gilbert tivessem inicialmente concordado em coescrever um volume sobre os réus de Nuremberg, Kelley voltou atrás.

Os prisioneiros nazistas teriam expressado gratidão pela forma como o psiquiatra os tratou, devido aos seus cuidados e profissionalismo. El-Hai escreveu em ‘O Nazista e o Psiquiatra’ que Göring teria “desabado em lágrimas” ao saber que Kelley estava deixando a prisão.

O ponto alto de Nuremberg

O clímax de Nuremberg ocorre durante o interrogatório de Göring por Jackson, em março de 1946. No filme, porém, isso ocorre após a dispensa de Kelley, quando Jackson confronta Göring com um documento assinado por ele como prova de que autorizou pessoalmente a Solução Final.

Em sua defesa, o líder alemão aponta que o documento foi traduzido equivocadamente, quando, “na verdade”, ele dizia: “por uma solução total”, deixando Jackson sem palavras.

A situação só muda quando o promotor britânico David Maxwell Fyfe (Richard E. Grant) consegue induzir Göring a dizer que ainda seguiria Hitler apesar do que sabia agora, impedindo assim que o julgamento se tornasse uma plataforma pessoal do Reichsmarshall para propaganda nazista.

“Ao contrário da mitologia, não foi Jackson, cuja declaração de abertura ficou marcada como um dos épicos históricos da justiça humana. Foi o promotor britânico que pegou Göring precisamente com esse tipo de informação vazada”, observa Michael Berenbaum, acadêmico que atuou como consultor histórico do filme.

O resultado

Em 30 de setembro e 1º de outubro de 1946, o Tribunal Militar Internacional condenou 12 réus (incluindo Göring) à morte por enforcamento, 3 à prisão perpétua e 4 a longas penas de prisão. Apenas três foram considerados inocentes.

Göring clamou para ser fuzilado, mas teve seu pedido negado. Poucas horas antes de ser executado na forca, ele se envenenou com uma cápsula de cianeto — cuja origem ainda é controversa.

À imprensa mundial, Jackson criticou o suicídio de Göring como “covarde”, dizendo: “Ao tirar a própria vida, ele destruiu o mito da bravura, do estoicismo e da profunda convicção nazistas”.

Já em seu livro, Kelley se mostrou mais compreensivo: “Seu suicídio, envolto em mistério e enfatizando a impotência dos guardas americanos, foi um toque final habilidoso, até mesmo brilhante”.

O destino de Kelley

Ao tentar encontrar uma resposta para como o mal cria raízes, Kelley se tonou não apenas um ato de avaliação médica, mas um capítulo crucial na tentativa da humanidade de compreender a si mesma.

Sua conclusão era clara: os líderes nazistas, incluindo Göring, não eram psicopatas clínicos ou monstros em qualquer sentido médico. Pelo contrário, eram homens perturbadoramente comuns — astutos, ambiciosos e plenamente racionais, mas capazes de orquestrar crimes indescritíveis sob as condições certas.

Nos Julgamentos de Nuremberg, ele acabou substituído por Gilbert, que concluiu que os líderes nazistas exibiam profundos déficits morais e emocionais — qualidades que ele considerava patológicas e emblemáticas de uma capacidade inata para o mal. 

Enquanto o mundo buscava lidar com o legado de Nuremberg, foram os retratos psicológicos condenatórios de Gilbert que capturaram a atenção do público e, por fim, moldaram a narrativa predominante. 

A perspectiva de Gilbert ressoou com um público ávido por fronteiras morais claras, e seus escritos subsequentes, particularmente seus diários detalhados, tornaram-se referências para a compreensão da psique nazista.

Kelley apresentou suas descobertas em janeiro de 1947, em um livro voltado para o público em geral. No entanto, ‘22 Celulas em Nuremberg’ foi um fracasso de vendas — com leitores americanos se opondo às tentativas do psiquiatra de traçar paralelos entre a Alemanha e seu próprio país.

As experiências de Kelley em Nuremberg o deixaram cético quanto ao valor da psiquiatria. Sua descrença acabou no dia de Ano Novo de 1958. 

Após queimar a mão enquanto cozinhava, ele correu para seu escritório e voltou para a sala de estar para se reunir com sua família. Kelley tinha algo escondido na mão: uma cápsula de cianeto. 

Ao gritos de que não aguentava mais, ingeriu o veneno no meio de todos. Ele foi delcarado morto aos 45 anos, ao chegar ao hospital para receber socorro. 

“Ninguém escapa da guerra sem ser afetado”, finaliza Vanderbilt. “Você não pode ignorar o que aconteceu com Douglas Kelley no fim de sua vida. É algo tão deliberado que é difícil não ver algum tipo de simbolismo no que aconteceu com ele”.

Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!