Madagascar: A curiosa “Terra Prometida” imaginada pelos nazistas
Plano Madagascar, o projeto de Adolf Eichmann e Franz Rademacher que pretendia deportar judeus europeus para a África

Em 1940, apenas a Alemanha ocupou a França, a cúpula nazista cogitou a possibilidade de deportar todos os judeus da Europa para Madagascar como “a solução para a questão judaica pelo governo da Alemanha” (ou em alemão “zur Endlösung der Judenfrage”), segundo palavras de um de seus ideólogos, Adolf Eichmann.
Este conceito de “solução final” ainda não havia se transformado no método de extermínio industrial em massa que viria a ser implementado posteriormente nos campos de extermínio da Polônia ocupada.
A proposta baseava-se na premissa de que a França, derrotada em seis semanas, entregaria o controle de sua colônia africana como parte dos termos de rendição. A ilha de Madagascar, então sob domínio francês, seria convertida em um mandato sob supervisão da SS, funcionando essencialmente como um gueto gigante em alto-mar.
++ Segunda Guerra: O ‘suplente’ de Churchill não era britânico?
Mentores do Projeto
Esse projeto, chamado “Plano Madagascar”, foi proposto formalmente a Hitler, em 1938, pelo outro mentor do plano, Franz Rademacher, responsável pelo departamento de assuntos judaicos (Referat DIII ou Judenreferat) do Ministério das Relações Exteriores do Terceiro Reich.
Rademacher argumentava que a transferência de milhões de pessoas para uma ilha tropical serviria para isolar os judeus e usá-los como reféns para garantir o “bom comportamento” de seus familiares ou correligionários nos Estados Unidos.
Embora pareça uma alternativa menos violenta que as câmaras de gás, historiadores como Christopher Browning ressaltam que o plano era, na prática, uma sentença de morte por negligência e doenças tropicais.
A logística envolvia a criação de um banco gerido pelos nazistas que confiscaria todas as propriedades judias na Europa para financiar a operação.
A marinha mercante britânica, uma vez derrotada, seria utilizada para o transporte de quatro milhões de judeus ao longo de quatro anos.
Obstáculos e Impedimentos
A ideia nunca foi concretizada por uma variedade de razões, sendo a principal que os Aliados ocuparam a ilha em 1942; mas por que os nazistas não começaram essa migração judia em 1940, após tomarem a França?
O principal entrave logístico foi a incapacidade da Luftwaffe de derrotar a Força Aérea Real britânica na Batalha da Inglaterra. Sem a supremacia naval e aérea no Canal da Mancha e no Atlântico, o transporte seguro de prisioneiros pelo oceano era impossível sob o bloqueio da Marinha Real Britânica.
Além disso, a burocracia nazista enfrentava conflitos internos de autoridade. Enquanto Franz Rademacher tentava manter o controle do plano através do Ministério das Relações Exteriores, a RSHA (Escritório Central de Segurança do Reich), liderada por Reinhard Heydrich, buscava centralizar todas as operações referentes aos judeus sob o comando direto das forças policiais e militares.
Vontade de Extermínio
Segundo o diário pessoal do Gruppenführer Reinhard Heydrich, um dos arquitetos do Holocausto, a hesitação também ocorria “porque Hitler queria o extermínio, e não o afastamento geográfico dos sionistas”.
Documentos históricos indicam que, embora o Führer tenha dado luz verde inicial para os estudos de Madagascar, seu interesse em soluções territoriais diminuiu à medida que a radicalização da ideologia nazista apontava para o assassinato sistemático.
Historiadores afirmam que o Plano Madagascar serviu como um “elo psicológico” que preparou a burocracia alemã para a logística de deportações em massa. Se os funcionários do governo já estavam planejando como mover milhões de pessoas para a África, o passo seguinte — movê-las para campos no leste europeu — tornou-se tecnicamente mais simples de conceber e executar.
Destino no Leste
Não obstante, os ideólogos Eichmann e Rademacher sustentaram que seu plano estava vigente, só que o Führer tinha trocado Madagascar pelo leste da Rússia, ideia que se executaria quando a Alemanha tomasse a União Soviética, o que não foi possível.
Com o início da Operação Barbarossa em 1941, a prioridade máxima passou a ser a destruição do bolchevismo. Os judeus, que antes seriam “exportados”, passaram a ser eliminados pelas Einsatzgruppen (esquadrões da morte) logo atrás das linhas de frente.
A invasão britânica de Madagascar em maio de 1942, conhecida como Operação Ironclad, encerrou definitivamente qualquer discussão sobre o uso da ilha.
O fracasso militar na frente russa e a impossibilidade de usar o mar forçaram a cúpula nazista a formalizar a aniquilação física durante a Conferência de Wannsee, onde Heydrich e Eichmann consolidaram os planos para os campos de extermínio.
Do contrário, Madagascar poderia ter sido uma forçada e inesperada “terra prometida”, embora, na realidade cruel do projeto nazista, estivesse mais próxima de ser um cemitério a céu aberto no oceano Índico.
++ Mais detalhes destas histórias estão na coleção que Aventuras na História apresenta, denominada “A Guerra de Todos”. Dividido em oito livros, escrito pelo jornalista Edgardo Martolio, a coleção ajuda a entender a magnitude do conflito e também conta tudo aquilo que ainda pouco conhecemos da Segunda Guerra Mundial.
O primeiro livro da coleção “A Guerra de Todos”, que possui o título de “O Eixo: Agressores, Iludidos e Anexados” já está em pré-venda. Saiba mais detalhes clicando aqui!