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Howie Triest: Tradutor judeu do Julgamento de Nuremberg que se aproximou dos nazistas

Entenda como o tradutor judeu Howie Triest superou o trauma pessoal para atuar nos Julgamentos de Nuremberg, que definiu a justiça internacional no pós-guerra

Howie Triest na vida real e na ficção - Crédito: Arquivo Pessoal e Diamond Films Brasil

Recentemente estreou nos cinemas brasileiros o longa-metragem Nuremberg, uma obra cinematográfica de peso que mergulha em um dos momentos mais definitivos e eticamente complexos do século 20: o tribunal militar internacional estabelecido para julgar a cúpula do Terceiro Reich entre 1945 e 1946.

Embora a história oficial frequentemente reserve seus holofotes para figuras de destaque, como o austero promotor Robert Jackson ou o hermético e desafiador Hermann Göring, o filme faz um movimento necessário ao lançar luz sobre uma peça fundamental, porém invisível, dessa engrenagem: o tradutor judeu Howie Triest.

Em silêncio absoluto e com uma precisão técnica cirúrgica, Triest serviu de ponte linguística entre a barbárie indescritível e a busca pela justiça. A obra não apenas retrata o processo jurídico, mas utiliza Triest como o fio condutor emocional para o espectador, permitindo que sintamos o peso de cada palavra traduzida em um ambiente onde o idioma alemão era, ao mesmo tempo, a língua materna do tradutor e a ferramenta de comando de seus algozes.

++ Nuremberg: A história real por trás dos julgamentos dos nazistas

O tribunal que mudou o mundo

Os Julgamentos de Nuremberg não foram concebidos apenas como um acerto de contas jurídico após a maior carnificina da história moderna; eles representaram a primeira vez que a comunidade internacional se uniu sob um código comum para punir “crimes contra a humanidade”.

A escolha da cidade foi carregada de simbolismo: Nuremberg, que outrora fora o palco dos monumentais comícios de Adolf Hitler e berço das leis raciais que segregaram os judeus, tornava-se agora o local de sua prestação de contas.

Para que esse processo inédito tivesse legitimidade, era imperativo que a comunicação fosse fluida entre juízes soviéticos, americanos, franceses e britânicos, além dos réus alemães.

Cena de Nuremberg – Divulgação: Diamond Films Brasil

O sucesso do tribunal dependia inteiramente de homens que conhecessem não apenas o vocabulário alemão, mas as nuances psicológicas e os jargões militares específicos do nazismo. O tribunal foi um marco pois foi a primeira vez na história que se utilizou a tradução simultânea em um julgamento desse porte.

Sem homens como Triest, a complexa teia de evidências documentais apresentada pela promotoria poderia ter se perdido em interpretações errôneas, permitindo que criminosos de guerra escapassem por brechas linguísticas.

Quem foi Howie Triest?

Nascido Hans Triest em Munique, no ano de 1923, o jovem judeu viu sua infância ser desmantelada pela ascensão meteórica do Partido Nazista. Em 1939, apenas meses antes de a Polônia ser invadida, ele conseguiu um visto para os Estados Unidos, partindo em uma jornada solitária para salvar a própria vida.

Seus pais, contudo, foram impedidos de partir. O destino deles foi o mais sombrio possível: foram capturados pela Gestapo e enviados para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. Howie só viria a descobrir o fim trágico de sua família anos depois, enquanto servia no exército de sua nova pátria.

Já em solo americano, Hans transformou-se em Howie Triest, um jovem ávido por integração. Ele se alistou no Exército dos EUA não apenas por dever cívico, mas por uma necessidade visceral de combater o mal que havia sequestrado seu passado.

Por ser um nativo alemão, ele possuía um valor estratégico imenso para a inteligência militar (G-2). Durante a guerra, ele atuou em interrogatórios de prisioneiros de guerra na linha de frente, muitas vezes sob fogo inimigo.

Passaporte alemão de Howard Triest – Arquivo Pessoal

Sua participação na guerra foi marcada por essa dualidade: ele era um soldado americano lutando por liberdade, mas emocionalmente era um filho em busca de respostas sobre o paradeiro de seus pais, que ele sabia estarem em algum lugar do sistema concentracionário alemão.

O tradutor judeu

Ao ser designado para o tribunal de Nuremberg, a posição de Triest tornou-se uma das mais singulares da história militar. Ele era o tradutor oficial encarregado de acompanhar os líderes nazistas em suas celas e durante os interrogatórios psiquiátricos. Em uma entrevista reveladora concedida à BBC News em 2011, Howie relembrou o estranho cotidiano de estar face a face com os arquitetos do Holocausto:

Eu era o único tradutor que os acompanhava quando eles se exercitavam no pátio da prisão. Eu conversava com eles todos os dias”.

Essa proximidade física criava um paradoxo: ele ouvia as queixas triviais de homens que haviam ordenado a morte de milhões, incluindo seus próprios familiares.

Para manter a integridade do processo, Triest foi orientado a nunca revelar sua origem judaica aos prisioneiros. Ele precisava ser um receptáculo neutro. De acordo com o portal People, essa neutralidade era mantida com um esforço sobre-humano.

O filme Nuremberg explora justamente essa tensão: o momento em que a máscara do tradutor profissional quase cai diante do cinismo dos réus. Howard (Howie) era a sombra de figuras como Rudolf Höss, o comandante de Auschwitz. Ouvir Höss descrever a eficiência das câmaras de gás com a frieza de um contador foi o teste definitivo de Triest. À BBC, ele detalhou essa desconexão moral:

Höss era um homem muito comum. Ele falava sobre matar dois milhões de pessoas como se estivesse falando sobre plantar repolhos”.

Interrogatórios

A participação de Triest foi fundamental para o trabalho do Dr. Leon Goldensohn, o psiquiatra do Exército dos EUA que buscava entender a mente dos líderes nazistas. Como tradutor de Goldensohn, Triest teve acesso às celas de criminosos como Joachim von Ribbentrop e o próprio Hermann Göring.

Triest observava a decadência desses homens de perto. Sobre Göring, o herdeiro de Hitler, Triest não tinha ilusões sobre sua suposta “grandiosidade”. Ele via apenas um narcisista tentando desesperadamente manter o controle da narrativa.

Göring era um ator. Ele estava sempre atuando para o tribunal, tentando mostrar que ainda tinha poder, mesmo quando estava sentado em uma cela suja”, relatou Howie à BBC.

Essa percepção ajudou a promotoria a quebrar a moral dos réus, expondo suas contradições e covardias sob o verniz da disciplina militar.

O Pós-Guerra

Com o fim das execuções em 1946, a missão de Howie Triest chegou ao fim. Ele retornou aos Estados Unidos, mas as vozes que ele traduziu em Nuremberg nunca o deixaram completamente. Diferente de muitos que buscaram capitalizar sobre sua participação no tribunal, Triest escolheu a discrição.

Ele mudou-se para Detroit, onde construiu uma carreira sólida e anônima na indústria, criando sua família e tentando viver a vida que seus pais não puderam ter. Por décadas, ele raramente falava sobre o fato de ter sido a sombra dos nazistas em suas últimas horas.

Foi apenas nos anos 2000 que Howie começou a abrir suas memórias de forma mais ampla, motivado pela percepção de que as testemunhas oculares do Holocausto estavam desaparecendo. Ele faleceu em 2011, aos 88 anos, deixando para trás um acervo de memórias que humanizam a justiça de Nuremberg.

Seu papel como tradutor judeu é hoje estudado como um exemplo supremo de profissionalismo ético. Ele não buscou vingança pessoal com as mãos, mas usou suas palavras para garantir que a história ouvisse, na própria língua dos carrascos, a confissão de seus crimes.

A verdadeira vitória de Howie Triest não foi ver os nazistas na forca, mas ter sobrevivido para contar a história que eles tentaram apagar.

Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!