Vínculo entre cães e humanos surgiu há mais de 15 mil anos, diz estudo
Análises de DNA mostram que caçadores-coletores já alimentavam cães e realizavam sepultamentos rituais na era glacial; entenda!

Análises recentes de DNA antigo indicam que a relação entre cães e humanos remonta a mais de 15.000 anos, período anterior ao surgimento da agricultura. A pesquisa, publicada na revista Nature, amplia em cerca de 5.000 anos as evidências genéticas mais antigas de cães domesticados e sugere que caçadores-coletores já alimentavam esses animais e realizavam sepultamentos rituais durante a última era glacial.
O estudo identificou alguns dos registros mais antigos dessa convivência. Um espécime datado de 15.800 anos foi encontrado enterrado junto a restos humanos na Anatólia, atual Turquia. Outro vestígio relevante, uma mandíbula com cerca de 14.300 anos, foi descoberto na Caverna de Gough, em Somerset, no Reino Unido. Esses achados reforçam a presença de cães em diferentes regiões da Eurásia ainda em períodos muito antigos.
Segundo o Dr. Lachie Scarsbrook, da Universidade Ludwig Maximilian de Munique, os dados indicam uma dispersão ampla desses animais. “Isso significa que, há 15.000 anos, cães com ancestrais muito diferentes já existiam em toda a Eurásia, de Somerset à Sibéria. Isso levanta a possibilidade de que a domesticação tenha ocorrido durante a última era glacial, mais de 10.000 anos antes do surgimento de quaisquer outras plantas ou animais domesticados.”
Até então, evidências arqueológicas apontavam que os cães teriam sido domesticados a partir de lobos-cinzentos por volta de 12.000 anos atrás. No entanto, limitações na análise de DNA antigo dificultavam distinções claras entre cães e lobos em amostras mais antigas. “Durante muito tempo, a única maneira de sabermos se algo era um cachorro ou um lobo era analisando os ossos, o que nem sempre é confiável”, disse o Dr. Anders Bergström, professor da Universidade de East Anglia. “Alguém dizia: ‘É um cachorro’ e outra pessoa respondia: ‘Não, é um lobo pequeno’.”
Com o uso de técnicas avançadas de sequenciamento genético, os pesquisadores conseguiram reconstruir genomas completos a partir de fragmentos mínimos de DNA, permitindo identificar com maior precisão a presença de cães em diferentes sítios arqueológicos. As análises mostram que esses animais já estavam amplamente distribuídos pela Europa e pela Ásia Ocidental há pelo menos 14.000 anos.
Vínculos entre cães e humanos
Além da presença geográfica, o estudo também fornece indícios sobre a relação cotidiana entre humanos e cães. A análise isotópica de ossos encontrados na Turquia revelou que os animais consumiam uma dieta rica em peixes, semelhante à dos humanos da região, o que sugere alimentação intencional. Padrões semelhantes foram observados em outros locais analisados, repercute o The Guardian.
Evidências arqueológicas também apontam para vínculos simbólicos e emocionais. Em Pınarbaşı, na Turquia, três filhotes foram encontrados enterrados sobre as pernas de um humano, em um arranjo que remete a práticas funerárias elaboradas. Já na Caverna de Gough, a mandíbula de um cão apresentava perfurações deliberadas, o que pode indicar usos rituais. Os pesquisadores consideram possível que alguns desses animais também fossem consumidos após a morte.
A proximidade genética entre cães encontrados em diferentes regiões sugere que, após a domesticação, esses animais podem ter se espalhado rapidamente, possivelmente por meio de trocas entre grupos humanos. Para o professor Laurent Frantz, da Universidade Ludwig Maximilian de Munique, isso indica a importância desses animais nas sociedades da época. “O fato de as pessoas trocarem cães tão cedo significa que esses animais deviam ser importantes”, afirmou. “Eles deviam ter alguma função além de serem animais de estimação. É incrível pensar que eles alimentavam esse carnívoro de grande porte simplesmente por bondade, porque o achavam fofo.”
Os pesquisadores apontam que os cães poderiam desempenhar diferentes funções nesse contexto, como auxiliar na caça ou atuar como sistema de alerta contra predadores. Independentemente do papel específico, o estudo reforça a ideia de que a relação entre humanos e cães é uma das mais antigas e duradouras da história, tendo se desenvolvido muito antes das primeiras sociedades agrícolas.