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Crianças já produziam ornamentos de argila no sudoeste asiático há 15 mil anos

Pesquisa identifica impressões digitais em ornamentos pré-históricos do sudoeste asiático e revela participação infantil na produção de objetos simbólicos

Ornamentos de argila analisados no estudo / Crédito: Divulgação/Laurent Davin

Um novo estudo publicado na revista Science Advances revelou que crianças já participavam da produção de objetos de argila há cerca de 15 mil anos, muito antes do surgimento da agricultura. A pesquisa descreve a descoberta de 142 ornamentos — entre contas e pingentes — encontrados no sudoeste asiático, considerados os mais antigos já identificados na região.

De acordo com a equipe internacional de arqueólogos responsável pela análise, parte desses artefatos foi moldada por mãos infantis. A conclusão foi possível graças à preservação de cerca de 50 impressões digitais nas superfícies das peças, permitindo identificar seus fabricantes. Trata-se da primeira vez que pesquisadores conseguem associar diretamente a produção de ornamentos paleolíticos a indivíduos específicos.

Os objetos, pequenos o suficiente para caber na palma da mão, apresentam formatos variados, como cilindros, discos e elipses, todos moldados a partir de argila crua. Alguns itens parecem ter sido feitos especialmente para crianças, como um anel de apenas 10 milímetros de largura. Muitas dessas peças também foram revestidas com ocre vermelho por meio de uma técnica chamada engobe, que consiste na aplicação de uma fina camada de argila líquida sobre a superfície. Segundo o estudo, esse é o uso mais antigo conhecido desse tipo de coloração.

Os ornamentos foram encontrados em quatro sítios associados à cultura natufiana — el-Wad, Nahal Oren, Hayonim e Eynan-Mallaha — que registram mais de três mil anos de ocupação por algumas das primeiras comunidades sedentárias conhecidas. A quantidade de peças recuperadas indica que o uso da argila não era episódico, mas parte de uma prática consolidada entre esses grupos, repercute a Revista Galileu.

Expressão através da argila

Para os pesquisadores, os achados ajudam a compreender como os seres humanos passaram a utilizar a cultura material para expressar identidade, pertencimento e significado. A argila, nesse contexto, teria desempenhado um papel simbólico antes mesmo de ser amplamente empregada na fabricação de utensílios como tigelas e jarros. “Essa descoberta muda completamente a forma como entendemos a relação entre argila, simbolismo e o surgimento da vida sedentária”, afirmou Laurent Davin, da Universidade Hebraica de Jerusalém, em comunicado.

A análise também sugere que a produção desses objetos era uma atividade cotidiana e coletiva, envolvendo diferentes membros da comunidade. A participação conjunta teria contribuído para processos de aprendizagem, imitação e transmissão de valores sociais entre gerações. Entre os 19 tipos distintos de contas identificados, vários reproduzem formas de plantas fundamentais para a vida desses grupos, como cevada, trigo e lentilhas, indicando que a natureza ocupava não apenas um papel alimentar, mas também simbólico.

Os resultados do estudo desafiam uma interpretação tradicional segundo a qual os usos simbólicos da argila no sudoeste asiático teriam surgido apenas com a agricultura, no período neolítico. Em vez disso, os pesquisadores argumentam que esse processo começou antes, durante os estágios iniciais da sedentarização, quando comunidades ainda dependiam da caça e da coleta, mas já se estabeleciam em assentamentos permanentes.

Nesse contexto, os ornamentos de argila teriam funcionado como instrumentos de expressão social, marcando identidades e relações dentro dos grupos. “As raízes do Neolítico são mais profundas do que pensávamos, [tanto que] esses objetos mostram que profundas mudanças sociais e cognitivas já estavam em curso”, afirmou Leore Grosman, também da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.