Moedas do ‘sol nascente’ revelam mais sobre antigo comércio no Sudeste Asiático
Moedas de prata do século 4 revelam mais sobre a integração econômica, o comércio e as conexões culturais no Sudeste Asiático no primeiro milênio

Pesquisadores realizaram uma investigação aprofundada sobre o comércio e as conexões culturais no Sudeste Asiático, revelando novos insights por meio do estudo de moedas de prata datadas do século 4 d.C. Essas moedas, adornadas com os desenhos característicos do Sol Nascente e Srivatsa, circularam amplamente pela região, que se estende do Vietnã até Bangladesh. Esse fenômeno demonstra um nível de integração econômica pouco explorado em estudos históricos anteriores.
As moedas foram originalmente cunhadas pelos polos Pyu-Mon, localizados no centro-norte de Mianmar. A produção dessas moedas utilizava matrizes — moldes que imprimem desenhos em ambos os lados de um disco em branco. Apesar das pequenas variações em diâmetro, peso e imagens, a uniformidade geral sugere uma padronização rigorosa. Cientistas afirmam que essa consistência é indicativa de sistemas econômicos e culturais compartilhados que ultrapassavam fronteiras políticas locais.
Sudeste Asiático no passado
Crônicas chinesas datadas da dinastia Han (século 2 d.C.) já registravam o papel do Sudeste Asiático nas rotas comerciais marítimas e terrestres que conectavam o Oriente Médio à China através do Golfo Pérsico, do Oceano Índico e do Mar da China Meridional. Escavações arqueológicas corroboraram esses relatos, revelando artefatos importados como vidros romanos, cerâmicas persas e sul-asiáticas, joias indianas e cerâmicas chinesas, encontrados tanto em portos comerciais costeiros quanto em assentamentos interiores. Dentre essas descobertas, as moedas do Sol Nascente/Srivatsa se destacam pela excepcional abrangência geográfica, sendo encontradas na bacia do rio Irrawaddy em Mianmar, centros da cultura Dvaravati na Tailândia, centros funanitas no Delta do Mekong e até mesmo em assentamentos ribeirinhos na Península Malaia.
O Dr. Andrew Harris da Universidade Nacional de Cingapura e sua equipe realizaram um estudo das matrizes de 245 moedas coletadas em museus de Mianmar, Camboja, Vietnã e Tailândia. Eles descobriram correspondências entre matrizes de reverso e anverso em moedas que estão a milhares de quilômetros de distância uma da outra. Em um caso notável, os lados anversos de moedas provenientes de Bangladesh e Vietnã parecem ter sido produzidos com a mesma matriz — sugerindo que foram cunhadas pela mesma autoridade ou até mesmo pelo mesmo artesão, apesar das distâncias significativas entre os locais.
Além da relevância histórica, os pesquisadores destacam a importância dos estudos das matrizes como uma ferramenta no combate ao tráfico ilícito de antiguidades. Muitas moedas antigas de Mianmar foram saqueadas durante o conflito em curso, vendidas para coleções privadas ou derretidas. Por meio da rastreabilidade da proveniência das moedas, os estudos das matrizes podem identificar falsificações e preservar o patrimônio cultural da região.
Essa pesquisa, publicada na revista Antiquity, representa um avanço significativo na história numismática do Sudeste Asiático, colocando sua moeda em pé de igualdade com os bem documentados sistemas monetários romano, indiano e centro-asiático e abrindo portas para futuras investigações sobre outras denominações regionais e seu papel no comércio antigo.