Documentário revisita Hannah Arendt e faz alerta ao totalitarismo
Produção reúne arquivos raros, entrevistas e análises para conectar a obra de Hannah Arendt às tensões políticas contemporâneas

Publicado em 1951, Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt, tornou-se uma das obras mais influentes do pensamento político moderno ao investigar as estruturas e dinâmicas de regimes totalitários. Mais de sete décadas depois, suas reflexões seguem atuais — e são o ponto de partida do documentário A Filosofia de Hannah Arendt, que estreia no próximo dia 19, no canal Curta!, às 21:30, e também integra o catálogo do CurtaOn – Clube de Documentários.
Dirigido por Jeff Bieber e Chana Ghazit, e produzido pelas empresas LOOKSfilm e Jeff Bieber Productions, o filme constrói um retrato abrangente da vida e do pensamento da filósofa. A narrativa combina imagens de arquivo, entrevistas antigas da própria Arendt, trechos de cartas, ensaios e diários, além de análises de especialistas contemporâneos.
Hannah Arendt
Testemunha direta de alguns dos eventos mais traumáticos do século XX, Arendt não apenas estudou o totalitarismo — ela o vivenciou. De origem judaica, foi forçada ao exílio após a ascensão do nazismo. Em um dos momentos destacados no documentário, a filósofa relembra o impacto do incêndio do Reichstag, em 1933, episódio que ela interpretou como um sinal inequívoco da consolidação do poder nazista. A partir dali, seu interesse intelectual se desloca: deixa de lado estudos sobre o amor para se dedicar à análise de forças políticas que, segundo ela, desafiam o senso comum e se aproximam da irracionalidade.
Essa ruptura também aparece em seus escritos do período de exílio, marcados pela perda — de território, de identidade e de pertencimento. Em um ensaio citado na produção, Arendt descreve o deslocamento como uma experiência de ruptura profunda com a vida cotidiana, o trabalho e até mesmo a linguagem, elementos essenciais para a construção da subjetividade.
O documentário também acompanha sua trajetória nos Estados Unidos, onde a pensadora buscou alertar a sociedade para os perigos que se desenhavam na Europa. A obra sugere que, para Arendt, compreender a realidade era uma forma de resistência: encarar os fatos sem ilusões seria o primeiro passo para evitar a repetição de tragédias históricas.
Essa preocupação atravessa toda a narrativa. Segundo o acadêmico Roger Berkowitz, a filósofa acreditava que o totalitarismo não é um fenômeno restrito ao passado, mas uma possibilidade sempre presente, capaz de assumir diferentes formas ao longo do tempo.
O filme também revisita o olhar crítico de Arendt sobre os Estados Unidos durante a Guerra Fria. Ao observar episódios como o macarthismo e a Guerra do Vietnã, ela identificou sinais preocupantes de degradação política, especialmente na normalização da violência como instrumento de ação. Para a historiadora Lindsey Stonebridge, essa aceitação da violência representava, para Arendt, uma espécie de vitória simbólica do totalitarismo.