Marsupiais considerados extintos são redescobertos na Nova Guiné
Pesquisadores encontram duas espécies de marsupiais consideradas extintas há 6 mil anos na floresta da Papua Ocidental; confira!

Duas espécies de marsupiais consideradas extintas há cerca de 6.000 anos foram redescobertas na floresta tropical da remota Papua Ocidental, na Nova Guiné. A descoberta, liderada pelo biólogo australiano Tim Flannery, é descrita como um caso raro de “táxons de Lázaro” — espécies que desapareceram do registro fóssil por milênios e voltam a ser encontradas vivas.
Segundo Flannery, a probabilidade de localizar um mamífero dado como extinto há tanto tempo era “quase zero”. Encontrar duas espécies nessas condições, afirma, é “sem precedentes”. “É algo sem precedentes e inovador, de fato, encontrar dois táxons de Lazarus”, diz Flannery.
Uma das espécies redescobertas é o gambá-pigmeu-de-dedos-longos (Dactylonax kambuayai), caracterizado por um quarto dedo extremamente alongado, duas vezes maior que os demais, usado para extrair larvas de insetos da madeira. Registros fósseis indicavam que o animal habitava a região central de Queensland, na Austrália, há cerca de 300.000 anos, mas teria desaparecido durante a era glacial. Antes da nova evidência, sabia-se que a espécie existira em Papua Ocidental até aproximadamente 6.000 anos atrás.
A segunda espécie é o planador-de-cauda-anelada (Tous ayamaruensis), um parente próximo do planador-gigante-australiano, mas com orelhas sem pelos e uma cauda fortemente preênsil, utilizada para se agarrar. O animal havia sido descrito inicialmente pelo zoólogo australiano Ken Aplin com base em fragmentos fósseis encontrados na região no final do século passado. A equipe de Flannery confirmou que a espécie ainda vive na floresta tropical e a classificou como parte de um gênero recém-descrito de marsupiais — o primeiro novo gênero da Nova Guiné desde 1937.
“Conquista de uma vida”
Para o pesquisador, de 70 anos, a identificação do novo gênero representa uma “conquista de uma vida inteira, compartilhada com todos os nossos muitos outros coautores”. “Conseguimos finalizar dois trabalhos incrivelmente importantes do ponto de vista biológico e de conservação, documentando a existência de marsupiais raros em uma área ameaçada”, diz Flannery. “É como a coroação da minha carreira como bióloga.”
As duas espécies habitam florestas montanhosas de planície na península de Bird’s Head, também chamada de Vogelkop, no noroeste da porção da Nova Guiné administrada pela Indonésia. A confirmação da existência dos animais foi baseada em fotografias feitas por pesquisadores locais, fragmentos fósseis e, no caso do gambá-de-dedos-longos, um espécime de museu coletado em 1992, que havia sido identificado de forma equivocada e utilizado para fins didáticos.
As descobertas foram detalhadas em uma edição especial de um periódico científico publicada pelo Museu Australiano, instituição onde Flannery atua como pesquisador visitante. Parte dos resultados decorre de viagens sucessivas do cientista à região, onde trabalha com anciões indígenas, pesquisadores da Universidade de Papua, do Global Wildlife Fund e da Fundação Minderoo na proteção das florestas contra a exploração madeireira e na manutenção do controle pelos proprietários tradicionais, repercute o The Guardian.
David Lindenmayer, ecologista e professor da Universidade Nacional da Austrália que não participou da pesquisa, classificou as revelações como “incríveis”. “É fantástico ver novas espécies sendo descobertas, e isso demonstra a importância de algumas dessas florestas tropicais em regiões muito remotas do mundo, onde não houve muitos estudos no passado. Acho isso realmente notável”, diz ele.
O planador-de-cauda-anelada tem ainda significado cultural para alguns clãs de Vogelkop, que o consideram sagrado e o associam aos espíritos dos ancestrais. Rika Korain, mulher Maybrat e coautora do estudo, ressalta que a colaboração dos povos originários foi decisiva para a identificação da espécie. “Essa conexão foi essencial”, diz ela.
Para Flannery, os achados reforçam a hipótese de que Vogelkop já integrou o antigo continente australiano, posteriormente ligado à Nova Guiné. “Suas florestas podem abrigar ainda mais relíquias escondidas de uma Austrália do passado”, diz ele.