Escavação revela ocupação medieval, necrópole e fornos para cerâmica na França
Achados incluem necrópole com 80 sepulturas, fornos domésticos e estruturas que evidenciam intensa produção de cerâmica entre os séculos 9 e 13

Escavações conduzidas pelo Instituto Nacional Francês de Pesquisa Arqueológica Preventiva (Inrap) no centro de Fosses, no departamento de Val-d’Oise, na França, trouxeram à luz vestígios de uma ocupação medieval intensa entre os séculos 9 e 13. A intervenção arqueológica, realizada em uma área de 1.600 metros quadrados, revelou uma necrópole com cerca de 80 sepulturas, estruturas habitacionais e diferentes tipos de fornos, evidenciando a transformação dos usos do espaço ao longo do tempo e oferecendo novos dados sobre o cotidiano e as atividades artesanais da antiga vila.
A área funerária identificada no local remonta ao período carolíngio, com as sepulturas mais antigas datadas entre os séculos 9 e 10. O cemitério medieval, com pelo menos 80 enterramentos, está situado ao lado de um assentamento caracterizado por construções em madeira e estruturas domésticas, como silos, fornos e um galpão de tecelagem. As covas aparecem organizadas em fileiras ou pequenos agrupamentos e apresentam características variadas: algumas são estreitas, por vezes com um espaço reservado para apoiar a cabeça do falecido, e todas se destacam pela ausência completa de objetos funerários. Parte dessas sepulturas foi parcialmente afetada por construções posteriores, mas ainda assim ocupam parcela significativa do sítio arqueológico.

Além do conjunto funerário, os pesquisadores identificaram diversos fornos medievais escavados diretamente no solo por meio de técnica de perfuração. Entre eles, há um pequeno forno doméstico datado do período carolíngio, utilizado para o preparo diário de pão nas proximidades das residências. Também foram encontrados dois fornos de maiores dimensões, provavelmente do século 12, que teriam capacidade para atender várias famílias ou mesmo a comunidade como um todo, indicando uma possível organização coletiva da produção.
A atividade oleira é outro elemento central do sítio. A presença de um grande forno destinado à queima de cerâmica, associada a fossas de descarte repletas de fragmentos, demonstra a diversidade de formas produzidas. Os arqueólogos também localizaram estruturas como fossas de armazenamento de argila. Com o apoio de especialistas em cerâmica, foi possível iniciar a identificação do período de produção local, que se estende entre os séculos 11 e 13.
Para aprimorar a datação das estruturas, a equipe recorre ao arqueomagnetismo, método que permite determinar o momento do último aquecimento de materiais argilosos. Quando submetidos a altas temperaturas, certos elementos registram a direção e a intensidade do campo magnético terrestre, preservando essa informação caso não sejam reaquecidos. Essa “memória” é resultado da presença de óxidos de ferro na argila, que adquirem magnetização persistente ao esfriar. Ao comparar as medições obtidas nos vestígios com curvas de referência conhecidas, os cientistas conseguem estimar a data de uso dos fornos.

Próximos passos
Os fornos descobertos em Fosses serão submetidos a esse tipo de análise, o que deverá permitir a elaboração de uma cronologia mais precisa do sítio. A combinação entre arqueomagnetismo e estudo cerâmico tende a oferecer uma reconstrução mais detalhada das instalações e das práticas artesanais desenvolvidas na vila. O método é particularmente adequado ao contexto local, já que Fosses se destacou como um centro de produção cerâmica cuja atividade perdurou por quase mil anos, deixando na argila aquecida pelo fogo um registro direto do trabalho e da vida de seus artesãos medievais, informa o Inrap em comunicado.