Escavações revelam cemitério de indigentes em Le Mans, na França
Descoberta em Le Mans inclui sepulturas múltiplas e área infantil, lançando luz sobre a vida e a morte de antigas populações marginalizadas; confira!

Recentemente, arqueólogos identificaram em Le Mans, em Sarthe, na França, um cemitério destinado a populações pobres que esteve em uso entre os períodos medieval e moderno. A descoberta ocorreu durante escavações conduzidas por uma equipe do Inrap, realizadas no contexto de um projeto de construção da rede de transporte público liderado pela Cénovia-Transamo, em uma área associada ao antigo hospital Hôtel-Dieu.
Os trabalhos arqueológicos revelaram quase 800 sepulturas, incluindo várias dezenas de enterramentos múltiplos. O sítio está localizado na atual Place Washington, área que, segundo um mapa da cidade datado de 1736, abrigava o chamado “cemitério dos pobres”. O espaço era vinculado ao Hôtel-Dieu (ou Hôtel de Coëffort), fundado no século 12 e destinado ao acolhimento de indigentes.
A escavação permitiu o estudo de grande parte do cemitério, que se estende além da área diretamente afetada pela obra, avançando para o norte e o oeste. Entre as sepulturas identificadas, chamam atenção os enterramentos múltiplos, nos quais diversos indivíduos foram sepultados simultaneamente. Em alguns casos, até 20 corpos foram acomodados em um espaço bastante reduzido, o que resultou em formas específicas de disposição dos restos mortais. Outras sepulturas múltiplas parecem reunir membros de uma mesma família, como homem, mulher, criança e bebê.
Segundo destacam os arqueólogos em comunicado, esse tipo de sepultamento coletivo é característico de cemitérios ligados a hospitais Hôtel-Dieu, como já observado em escavações realizadas em cidades como Lyon, Marselha, Chinon, Amiens e Montlhéry. Na extremidade do sítio, foi identificada ainda uma área reservada ao sepultamento de crianças, descoberta que se relaciona diretamente à função do hospital no acolhimento de crianças abandonadas, das quais poucas sobreviveram devido às altas taxas de mortalidade infantil.
A partir das descobertas, será iniciado um amplo estudo antropológico. A análise dos ossos permitirá determinar o sexo, a idade no momento da morte e a presença de deficiências nutricionais ou doenças, contribuindo para uma melhor compreensão da demografia e do estado de saúde da população de Le Mans entre os séculos 13 e 18. Trata-se de uma oportunidade rara de estudar grupos sociais pouco documentados nas fontes históricas, geralmente centradas nas classes privilegiadas.

Cemitério de indigentes
Observações preliminares já indicaram possíveis casos de raquitismo ou tuberculose óssea. Além disso, alguns enterramentos múltiplos, semelhantes a valas comuns, podem estar associados a períodos de mortalidade elevada causados por fomes ou epidemias, como a Peste Negra do século 14 ou surtos de disenteria. Para testar essas hipóteses, os pesquisadores planejam realizar diversas análises, incluindo datações e estudos paleogenéticos.
A datação por carbono-14 confirma que o cemitério do Hôtel-Dieu esteve em uso ao menos desde o século 13. Ainda não está claro se o espaço já existia no momento da fundação do hospital. Inicialmente, os mortos do Hôtel-Dieu podem ter sido sepultados em cemitérios paroquiais, prática comum na época, sendo a criação de um cemitério próprio considerada apenas quando esses locais ficaram lotados. Pesquisas documentais futuras deverão esclarecer essa questão.
Do antigo Hôtel-Dieu, restam hoje apenas o edifício da enfermaria, atualmente a Igreja de Santa Joana d’Arc, além de pelo menos duas fundações identificadas por investigações arqueológicas. Principal hospital de Le Mans até a criação do hospital geral em 1666, a instituição foi definitivamente fechada durante a Revolução Francesa.
Além do cemitério, as escavações revelaram elementos defensivos da cidade. No túnel Wilbur Wright, foi identificado um trecho de 8 metros da muralha romana de Le Mans, com sua decoração característica. Já na Place des Jacobins, foi observado um fosso defensivo medieval, enquanto na Place de l’Éperon surgiu um segmento da muralha conhecida como “Saint-Benoît”, construída no século 14 para integrar o bairro homônimo aos limites urbanos.