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Os fragmentos mais antigos do Novo Testamento, escritos em papiro há 2.000 anos

Datados de quase 2.000 anos, fragmentos de manuscrito em papiro guardados em Oxford contêm trechos sobre a Última Ceia e a traição de Judas

Fragmentos do Novo Testamento manuscritos em papiro / Crédito: Divulgação/Jeremiah J. Johnston

Guardados na biblioteca histórica da Universidade de Oxford, os fragmentos mais antigos conhecidos do Novo Testamento continuam a mobilizar pesquisadores e a alimentar debates sobre a transmissão dos Evangelhos. Escritos em papiro e datados de quase 2.000 anos, os pequenos trechos preservam passagens do capítulo 26 do Evangelho de Mateus e estão entre os documentos mais antigos associados às palavras de Jesus.

Conhecidos como Papiro de Madalena P64, os fragmentos pertencem ao acervo do Magdalene College e foram doados à instituição em 1901 por Charles Bousfield Huleatt, ex-aluno que atuava como missionário em Luxor, no Egito. As circunstâncias exatas em que ele obteve os documentos permanecem desconhecidas, assim como sua origem original, repercute o Daily Mail.

Textos antigos

Fisicamente, os fragmentos são diminutos, frágeis e amarelados pelo tempo. Ainda assim, preservam 24 linhas de texto, incluindo trechos considerados centrais na narrativa cristã, como partes da Última Ceia e o momento em que Judas planeja a traição. No verso do Fragmento 1, que é de Mateus 26:7-8, lê-se: “Derramaram-no sobre a cabeça dele, enquanto ele estava à mesa. Quando viram isso, os discípulos disseram indignados.” O trecho seguinte apresenta Mateus 26:10: “Jesus percebeu isso e disse: ‘Por que você está perturbando essa mulher? O que ela fez por mim!’” Já a passagem de Mateus 26:15 registra: “Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, dirigiu-se aos principais sacerdotes e disse: ‘O que vocês querem me dar?’”

Outras linhas incluem palavras atribuídas a Jesus pouco antes de sua prisão. A frente do primeiro fragmento, com texto de Mateus 26:31, diz: “Jesus disse-lhes: ‘Esta noite todos vocês me abandonarão, pois a Escritura diz.’” O segundo traz parte de Mateus 26:32: “Eu irei adiante de ti para a Galileia.” A última seção preserva Mateus 26:22-23: “Eles ficaram muito perturbados e começaram a perguntar-lhe, um após o outro: ‘Porventura não fui eu, Senhor?’ Ele respondeu: ‘Aquele que comigo molhou a mão no prato.'”

A datação dos fragmentos foi realizada por paleografia, método que compara o estilo da caligrafia com outros documentos seculares encontrados no Egito e datados com segurança. Como todos os textos da época eram copiados à mão, as características da escrita, o uso de papiro em vez de pergaminho e o formato em códice — com escrita em ambos os lados — são elementos centrais na estimativa cronológica. A maior parte dos estudiosos situa os fragmentos no final do século 2 d.C., o que os colocaria cerca de um século após a crucificação de Jesus, tradicionalmente datada de 33 d.C. Outros especialistas, como o arqueólogo alemão Carsten Peter Thiede, defendem uma origem ainda mais antiga, possivelmente por volta de 70 d.C.

O Dr. Jeremiah J. Johnston segurando os fragmentos do Novo Testamento emoldurados / Crédito: Divulgação/Jeremiah J. Johnston

Importância para os estudos

Além do conteúdo textual, o P64 é considerado um dos exemplos mais antigos conhecidos de códice, formato que substituiu gradualmente os rolos tradicionais e foi amplamente adotado pelos primeiros cristãos para registrar e preservar seus escritos sagrados. Para alguns pesquisadores, esses fragmentos oferecem evidências materiais de que os Evangelhos circulavam e eram copiados relativamente cedo.

O Dr. Jeremiah Johnston, que estudou extensivamente o Papiro de Madalena, descreveu o contato direto com os fragmentos como “a experiência mais inspiradora deste lado do céu”. Ao recordar o momento em que teve acesso ao material, afirmou: “Foi literalmente retirado do que parecia ser uma caixa de sapatos, nem sequer estava em exposição, e eu tive todo o tempo que quis com um dos artefatos cristãos mais valiosos da Terra”. Sobre o impacto pessoal, acrescentou: “Eu estava segurando aquele fragmento, e saber que ele tinha 2.000 anos, e saber que era verdade, e que a balança da verdade pendia a favor do cristianismo, foi transformador para mim.” Para ele, “é uma lembrança para mim de que Jesus morreu pelos meus pecados para que eu pudesse ser perdoado. E é por isso que estou guardando esse fragmento”. Ao comentar a relevância dos trechos, resumiu: “É de tirar o fôlego”.

Johnston também destacou a presença nominal de personagens centrais: “Encontramos quatro ditos de Jesus nesses fragmentos. O nome de Jesus é mencionado duas vezes, os nomes de Pedro e Judas Iscariotes também são mencionados, e essas são as cópias mais antigas do mundo onde seus nomes são encontrados.”

Os fragmentos continuam no centro de discussões acadêmicas sobre a cronologia e a fidelidade da transmissão dos textos cristãos primitivos. Independentemente da data exata atribuída a eles, permanecem como testemunhos materiais raros da circulação precoce do Evangelho de Mateus e do esforço de preservação empreendido pelas primeiras comunidades cristãs.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.