Da África ao Brasil: a real saga de resiliência e perseverança de Vittorio Ficara
Conheça a história do alfaiate da Casa Canadá, estabelecimento de moda de luxo do Rio de Janeiro, que virou referência de elegância entre as décadas de 1940 e 1960

Falar de Vittorio Ficara, é falar de resiliência, de perseverança e da capacidade de superar situações que, acredito, poucos conseguem realizar. Filho de italianos que emigraram para o Cairo, nasceu no Egito, em 1918, onde durante a infância teve uma vida bastante regular, com bons estudos e o sonho de “ser alguém”. Porém, após o acidente do pai e a mudança consequente de trabalho, enfrentou uma realidade bem dura a ser superada.
Por motivos econômicos, viu-se transferido de sua cidade, para Alexandria, e ingressar em um curso de alfaiataria, que, segundo seu pai, sempre lhe proporcionaria trabalhar. Mas, devido à piora da situação econômica, aos quinze anos voltou e ingressou, como assistente, no ateliê de um alfaiate, para ajudar em casa. Era o único, dos quatro filhos, a trabalhar. Com a boa base que teve no Instituto Salesiano e o empenho em aprender mais, começou a dominar a arte da alfaiataria.
Aos 23 anos, sofreu um novo golpe: a eclosão da Segunda Guerra Mundial, e, em razão do Egito ser protetorado inglês, foi surpreendido, por ser italiano, com sua detenção em um campo de internação, no meio do deserto, onde passou 4 anos. Lá, devido à sua maneira de ser e de pensar, enfrentou e superou situações, das mais atípicas e impensáveis.
Com o final da guerra e a volta para casa, encontrou novas situações a serem resolvidas. E foi nessa época que encontrou Teresa, ainda adolescente, aquela que, no futuro, viria a ser a sua companheira de toda a vida. O destino quis que a família dela saísse do Egito e viesse para o Brasil. Vittorio, com seu conhecimento profissional e sua determinação, trabalhou e, mais tarde, conseguiu vir também para o nosso país.
Uma nova fase, uma nova vida. Superou a barreira da comunicação, pois, por falar 5 idiomas (italiano, francês, grego, árabe e inglês), rapidamente já conseguia se expressar em português. A entrada dele na Casa Canadá, deveu-se muito a sua garra, que o impulsionava a enfrentar os obstáculos.
Teve conhecimento, por meio de um anúncio, que a Casa Canadá procurava um alfaiate. Sem saber direito do que se tratava, apresentou-se e, de imediato, percebeu que era um estabelecimento de moda feminina de luxo. Com sua determinação, apenas pediu uma semana para “resolver uns problemas”, e mergulhou no estudo das diferenças entre as modelagens feminina e masculina, para alcançar o seu objetivo.
Casa Canadá: a sala de visitas do Brasil
Fundada em 1928 pelo empresário russo Jacob Peliks, a Casa Canadá começou com a importação de peles e artigos de couro, sob o nome “Peleteria Canadá, Couros e Pelles”, à rua Gonçalves Dias 30, no centro do Rio de Janeiro, e transferida, em 1935, à rua 7 de setembro, com a diversificação de produtos, como vestidos importados, palhas, feltros e flores, tornando-se um centro de atacado de moda para ateliês e chapeleiros.
Essa renovação deveu-se muito a entrada de uma nova funcionária no quadro da empresa, ainda em 1930, Mena Fiala, mais conhecida como Dona Mena, que, ao longo do tempo, aplicou suas ideias inovadoras, como contratar e treinar moças, para vestir e apresentar às clientes as peles e, mais tarde os vestidos, uma novidade na época.
O aumento da procura, somado a ideia de vender vestidos de luxo, levaram a inauguração da Casa Canadá de Luxe, em 1º de julho de 1944, na av. Rio Branco 134, que se tornou um grande centro de moda, considerado parâmetro de sofisticação e de requinte, também conhecida como “A sala de visitas do Brasil”, por reunir, em seu salão, os nomes mais expressivos da sociedade e do país.
É interessante frisar que os ateliês da Casa Canadá eram denominados “Estúdios”, referência ao sucesso dos estúdios cinematográficos de Hollywood e nome relativo aos ateliês de moda nos Estados Unidos, denominados Fashion Studio. Mencionar dessa forma a empresa brasileira, reforçava o conceito de inovação e de otimização dos negócios, de modernidade e de evolução, como as companhias americanas; referiam-se também ao estabelecimento como “Casa” e não “Maison”, e, seguindo a mesma lógica, traduziram do inglês “Home”, para “Casa”.
Estrutura da Casa Canadá
A Casa Canadá ocupava os primeiros quatro andares do edifício; no primeiro (térreo) havia a própria loja, com os armários, os camarins de prova e o elevador particular do estabelecimento. O segundo andar abrigava o escritório de Peliks e o setor de contabilidade.
Neste andar encontravam-se também os frigoríficos para conservar as peles, que também alugava um espaço para abrigar as peças das clientes e, assim, não serem danificadas pelo calor do Rio de Janeiro. No terceiro encontravam-se os cinco estúdios destinados à costura: três para a confecção de vestidos, um para a alfaiataria, chefiada por Vittorio, e um para consertos.
Havia também duas salas, uma de D. Mena, a essa altura diretora geral a tudo que se referisse a moda, aos salões e aos desfiles, e a outra, de Cândida Gluzsmann, irmã de D. Mena e exímia costureira, que chefiava as oficinas e temas relativos à criação, modelagem e desenvolvimento em geral.
O quarto andar abrigava os salões onde aconteciam os desfiles. Havia duas entradas, a principal, para os convidados, com acesso pelo elevador particular e do lado oposto, havia a entrada destinada às manequins. Na época dos desfiles, o corredor era transformado em camarim.
Com o tempo e com a entrada forte do prêt-à-porter, em 1955 foi inaugurada a Canadá Boutique, em Copacabana, na rua Dias da Rocha 9, com modelos criados em série e mais acessíveis, cujas coleções eram chamadas de Petite Collection, mas contendo sempre um quê de sofisticação. Com o falecimento de Peliks e a administração incerta de sua esposa, a Casa Canadá fechou em 1967.
A história de Vittorio, não é apenas uma biografia, mas também uma fonte de conhecimento, que conduz o leitor a uma viagem no tempo, na história e nos costumes que, graças a sua fantástica lucidez, permite vivenciar e/ou relembrar estes momentos, comprovados por uma minuciosa pesquisa.
Sobre a autora: Cristina Seixas é jornalista, tradutora, produtora de eventos de moda, estilista, escritora e mestre em Design pela PUC-Rio. Com mais de 40 anos de experiência, idealizou desfiles, produziu eventos em instituições como o Museu Histórico Nacional, além de ter sido professora do Curso de Bacharelado em Design – Habilitação Moda e de pós-graduação em Design de Moda e Acessórios de Moda do SENAI CETIQT, bem como lecionou na PUC-Rio, na UERJ e na UCAM.

Autora de diversos livros, agora ela Rabena Karib: jornada entre e o deserto e o mar (2025), em que compartilha em detalhes a história de Vittorio Ficara.