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DNA humano sofreu alterações a partir do domínio do fogo, sugere estudo

Segundo estudo, a exposição recorrente a queimaduras teria alterado a maneira como os seres humanos reagem a ferimentos, infecções e lesões graves

Imagem ilustrativa - Crédito: Getty Images

Um novo estudo internacional sugere que o domínio do fogo pode ter imposto um custo biológico aos seres humanos, alterando a maneira como nossa espécie reage a ferimentos, infecções e lesões graves.

Publicado na quarta-feira, 4, na revista BioEssays, o trabalho foi liderado por pesquisadores do Imperial College London, no Reino Unido, e propõe que a exposição recorrente a queimaduras atuou como uma poderosa força de seleção natural. Segundo os autores, trata-se de um fenômeno praticamente inexistente em outras espécies.

De acordo com o estudo, nenhum outro mamífero sofre queimaduras e sobrevive com a mesma frequência que os humanos. “Queimaduras são lesões exclusivamente humanas. Nenhuma outra espécie vive em ambientes com altas temperaturas e sob o risco constante de queimaduras como os humanos”, afirma o cirurgião Joshua Cuddihy, autor principal da pesquisa, em comunicado.

Como explica uma matéria do portal Galileu, essas lesões podem variar de queimaduras superficiais, que cicatrizam espontaneamente, até danos extensos que comprometem grandes áreas da pele, a principal barreira do corpo contra microrganismos. Quanto maior a área atingida e o tempo de exposição ao calor, maior o risco de infecções generalizadas, que antes da era dos antibióticos eram frequentemente fatais.

Analisando o DNA

Para avaliar se essa pressão ambiental deixou marcas no genoma humano, os pesquisadores compararam dados genéticos de humanos com os de outros primatas. A análise revelou sinais claros de evolução acelerada em genes associados à inflamação, à cicatrização e à resposta imunológica, exatamente os processos envolvidos na recuperação de queimaduras.

Com base nesses resultados, a equipe trabalha com a hipótese de que a seleção natural favoreceu indivíduos capazes de reagir rapidamente a queimaduras leves e moderadas. Dor intensa, inflamação imediata e cicatrização eficiente teriam funcionado como mecanismos de proteção, aumentando as chances de sobrevivência e reprodução ao longo de milhares de gerações.

“Nossa pesquisa sugere que a seleção natural favoreceu características que melhoraram a sobrevivência após queimaduras menores e mais frequentes”, diz Cuddihy. Segundo os autores, esse conjunto de adaptações contribuiu para diferenciar geneticamente os humanos de outros primatas e mamíferos.

Uma grande contradição

Paradoxalmente, o mesmo sistema que protege em lesões pequenas pode se tornar letal em casos graves. O estudo aponta que respostas inflamatórias intensas e cicatrização acelerada, benéficas em queimaduras limitadas, tornam-se perigosas quando o corpo enfrenta danos extensos. Nessas situações, a reação exagerada do organismo pode desencadear inflamação sistêmica, cicatrizes severas e até falência de órgãos.

Essa “contrapartida evolutiva” ajuda a explicar por que os humanos modernos seguem especialmente vulneráveis a queimaduras graves, apesar dos avanços da medicina. Também esclarece por que resultados obtidos em modelos animais nem sempre se traduzem bem para pacientes humanos, já que outras espécies não compartilham a mesma trajetória evolutiva ligada ao uso do fogo.

Para o biólogo evolucionista Armand Leroi, coautor do estudo, a proposta abre uma nova perspectiva: “O que torna essa teoria da seleção por queimaduras tão empolgante é que ela apresenta uma nova forma de seleção natural — uma que, além disso, depende da cultura”.

Os pesquisadores acreditam que esse enquadramento evolutivo pode impactar profundamente a pesquisa clínica sobre queimaduras, ajudando a entender por que alguns pacientes se recuperam melhor do que outros. Outra contribuição possível é a abertura do caminho para abordagens terapêuticas mais personalizadas no futuro.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.