Matérias / Arqueologia

O mistério da ‘Rocha da Serpente’, com 70 mil anos de idade

Descoberta de gravuras em rocha com forma de serpente sugere que povos da Idade da Pedra praticavam rituais sagrados

Pedra com formato semelhante à Píton, descoberta em Botsuana - Sheila Coulson/Universidade de Oslo

Uma descoberta arqueológica significativa em uma região remota de Botsuana, no sul da África, pode alterar profundamente nossa compreensão sobre quando e como a religiosidade humana surgiu. Pesquisadores identificaram carvões e artefatos associadas à figura de uma serpente em uma formação rochosa dentro de uma caverna, datados de cerca de 70 mil anos atrás, sugerindo a existência de práticas rituais muito anteriores às evidências mais antigas até então conhecidas.

As gravuras foram encontradas em um local chamado de Caverna Rino, nos montes Tsodilo — um conjunto de elevações rochosas que já é reconhecido por sua vasta concentração de arte rupestre e por sua importância cultural para os povos San, também conhecidos como Bushmen. O sítio, que atualmente faz parte do Patrimônio Mundial da UNESCO, preserva milhares de pinturas e inscrições espalhadas por diversos abrigos rochosos e cavernas.

A Rocha da Serpente

O elemento central da descoberta é uma grande formação de rocha natural, com aproximadamente 2 metros de altura e 6 metros de comprimento, que foi escavada e modificada por mãos humanas do passado de maneira a lembrar a cabeça e o corpo de uma serpente — possivelmente uma cobra píton gigante.

A superfície da rocha apresenta entre 300 e 400 entalhes distintos, formando padrões semelhantes a escamas. Sob luz de fogo bruxuleante, esses entalhes criam a impressão de movimento, reforçando a ideia de que a pedra teria sido usada em algum tipo de contexto cerimonial.

Segundo a arqueóloga Sheila Coulson, da Universidade de Oslo, o estudo representa uma das mais antigas evidências arqueológicas de comportamento ritual humano. “Acreditamos que esta seja a prova arqueológica mais antiga de religião no registro humano”, afirmou ela durante apresentação dos resultados da pesquisa, conforme repercute a Reuters. A estimativa de idade — cerca de 70 mil anos — se apoia na comparação com artefatos de outros sítios documentados e na estratigrafia dos vestígios encontrados no local.

Artefatos e oferendas

Sob a formação de pedra com forma de serpente, os pesquisadores encontraram uma grande quantidade de artefatos entalhados e pontiagudos, incluindo 115 pontas de pedra e 22 lanças com sinais de terem sido queimadas, cuidadosamente depositados no solo da caverna. Muitos desses objetos não são originários da região imediata; seriam provenientes de rochas trazidas de mais de 200 quilômetros através do deserto de Kalahari, sinalizando que esses itens foram deliberadamente carregados até o local.

O fato de haver um acúmulo de objetos pontiagudos, muitos com vestígios de calor ou dano associados a tratamento deliberado, indica que poderiam ter sido usados em rituais de oferenda ou destruição simbólica — prática que, segundo alguns antropólogos, pode refletir crenças em poderosos espíritos animais ou mitológicos. Entre os San, o píton ocupa um papel central em mitos de criação, associado à origem da vida e à formação dos cursos de água na paisagem, o que confere à descoberta uma profunda significância cultural e religiosa.

Os pesquisadores ressaltam que, ao contrário de outros sítios arqueológicos de Idade da Pedra, como a famosa Caverna Bomblos na África do Sul — onde ferramentas e artefatos de uso cotidiano foram encontrados junto a vestígios simbólicos — a caverna de Botsuana não apresenta vestígios de uso doméstico comum. Não há sinais de fogueiras de cozinha, ossos de animais consumidos nem ferramentas de uso diário, o que sugere um uso exclusivo ou predominantemente ritualístico da caverna e da pedra serpentiforme.

Pelo menos uma câmara atrás da rocha principal apresenta marcas de desgaste que parecem ter sido feitas por passagem repetida de pessoas, possivelmente indicando locais onde um xamã ou líder espiritual poderia ter se escondido ou se posicionado durante cerimônias. A interpretação é que o discurso ou som produzidos a partir desse espaço oculto poderia ter dado a impressão de vir diretamente da serpente de pedra — uma experiência mística ou teatral que reforçaria a presença espiritual do local.

Interpretação e significado

Apesar do entusiasmo que a descoberta gerou, nem todos os especialistas concordam 100% com sua interpretação como evidência definitiva de religião organizada ou de culto ritual tão antigo. Alguns pesquisadores questionam se os entalhes deveriam ser necessariamente lidos como representações de uma serpente ou se têm outras explicações simbólicas ou funcionais ainda não compreendidas. Existem indícios de que depressões semelhantes em outras partes dos montes de Tsodilo não estejam claramente associadas a figuras animais ou a cerimônias.

Outros estudiosos também observam que a interpretação de atividades rituais pré-históricas depende muito de pressupostos sobre comportamento e simbolismo que são difíceis de verificar diretamente — uma vez que não existe documentação escrita ou registros orais contínuos que remontem a essa época.

Ainda assim, a importância da descoberta reside em deslocar a linha do tempo tradicionalmente aceita para práticas complexas de significado simbólico, e demonstrar que comportamentos que antecipam religiões podem ter muito mais tempo de história do que se supunha.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.