Obra tida como cópia pode ser retrato original de Albrecht Dürer
Pesquisadores defendem que 'O Pai do Pintor', na National Gallery, é o retrato original feito por Dürer de seu pai no século 15; entenda!

Uma pintura há décadas atribuída como cópia pode, afinal, ser uma obra original de Albrecht Dürer. A hipótese foi apresentada recentemente por um grupo de estudiosos em um novo livro, reacendendo o debate sobre a autoria de ‘O Pai do Pintor‘, obra pertencente ao acervo da National Gallery, em Londres.
O retrato representa Albrecht, o Velho, pai do artista alemão Albrecht Dürer, e teria sido pintado quando o modelo tinha 70 anos, em 1497. Durante muito tempo, especialistas acreditaram que o original da obra havia se perdido, restando apenas cópias produzidas nos séculos seguintes. Ao menos sete versões antigas do retrato são conhecidas. A pintura da National Gallery, no entanto, sempre foi considerada apenas uma réplica tardia.
Essa avaliação agora é contestada no livro ‘Albrecht Dürer. As Pinturas Completas. Desenhos e Gravuras Selecionados’, no qual os autores defendem que a obra londrina é, na verdade, o original pintado pelo próprio Dürer. Para Christof Metzger, autor principal da publicação e curador do Museu Albertina, em Viena, não há dúvidas sobre a qualidade da pintura. “Simplificando, trata-se de uma obra de qualidade artística e técnica excepcional, sem qualquer traço de ser uma cópia”, afirmou ao Artnet.
Dürer nasceu em Nuremberg, em 1471, filho de um ourives húngaro. Apesar da formação inicial com o pai, seguiu carreira artística e tornou-se uma das figuras centrais do Renascimento do norte da Europa. Influenciado por mestres italianos como Leonardo da Vinci e Rafael, é descrito pela National Gallery como o “artista renascentista arquetípico do norte da Europa”.
A obra conhecida como ‘O Pai do Pintor’ traz uma inscrição que identifica o retratado e a data. Ainda assim, o registro oficial da National Gallery classifica o quadro como “provavelmente uma cópia do final do século 16 de um original perdido de Dürer”. Segundo o museu, a produção de cópias era comum nos séculos 16 e 17, especialmente após a morte do artista, em 1528, quando a procura por suas obras aumentou.
Trajetória da obra
A trajetória histórica do quadro reforça sua importância. Em 1636, o conselho municipal de Nuremberg presenteou o rei Carlos I da Inglaterra com duas pinturas: um autorretrato de Dürer, hoje no Museu do Prado, e ‘O Pai do Pintor’. Quando a National Gallery adquiriu a obra, em 1904, ela foi identificada como parte de um inventário real de 1639, que descrevia um homem “com um antigo chapéu preto à moda húngara e uma túnica amarelo-escura, cujas mãos estão escondidas nas mangas largas, pintado sobre um fundo avermelhado e craquelado”.
Para Metzger, a versão londrina se destaca entre as demais cópias conhecidas. Segundo ele, a pintura apresenta “até os mínimos detalhes da pele envelhecida” e se diferencia pela “pincelada experiente e pela técnica magistral de velatura”, como disse ao Art Newspaper. Embora reconheça que o estado de conservação esteja comprometido, o pesquisador afirma que o rosto do retratado permanece revelador da qualidade original da obra.
A National Gallery, porém, mantém sua posição contrária, conforme repercute a Smithsonian Magazine. De acordo com o museu, o fundo marrom-rosado e a aplicação da tinta em uma camada espessa não correspondem às técnicas habituais de Dürer. Esse método teria causado rachaduras e um “efeito geral de estrias”, posteriormente cobertos por restaurações.
A ex-curadora Susan Foister também questionou a autoria. Em um catálogo de 2024, ela destacou que tais rachaduras nunca aparecem em obras do artista e classificou a inscrição como “atípica”. Metzger rebateu essa avaliação, atribuindo os problemas ao restauro: “todo o fundo da pintura está arruinado, e a inscrição foi adicionada de maneira muito ruim, provavelmente baseada na inscrição original.”
Atualmente fora de exibição, ‘O Pai do Pintor’ segue catalogado como “Segundo Albrecht Dürer”, embora o debate sobre sua verdadeira autoria esteja longe de um consenso definitivo.