Estudo mostra que poluição altera odor e faz formigas atacarem aliadas
Pesquisa aponta que exposição ao ozônio altera o odor das formigas; ao voltarem para as colônias, elas sofrem ataques ou exclusão das companheiras

Um novo estudo divulgado na segunda-feira, 2, revelou que os danos causados pela poluição atmosférica podem atingir níveis muito além do que se imaginava anteriormente. Acontece que eles podem afetar até mesmo as formigas, fazendo com que indivíduos da mesma colônia se ataquem.
A pesquisa foi conduzida pela equipe do Instituto Max Planck de Ecologia Química, da Alemanha. Dados divulgados apontaram que as formigas presentes durante os experimentos, expostas a níveis elevados de ozônio, apresentaram alterações no seu odor. Isso fez com que elas não fossem mais reconhecidas por suas companheiras de colônia.
De acordo com informações da revista Galileu, após análise feita em seis espécies diferentes, cinco delas passaram a ser tratadas como intrusas. Os resultados demonstraram que as formigas da colônia que não foram expostas à poluição apresentaram comportamentos ameaçadores e agressivos contra aquelas que sofreram a exposição.
Testes com níveis menores de poluentes também foram realizados e o resultado foi alarmante, pois mesmo alterações mínimas no perfil químico corporal desses insetos foram suficientes para abalar sua identidade social na colônia.
A química do cheiro
Para entender melhor esse fenômeno, é preciso compreender como funciona o processo de identificação das formigas. Nas colônias, esses insetos utilizam a chamada comunicação química, baseada em uma mistura específica de hidrocarbonetos produzidos por glândulas corporais.
Mas não para por aí. Essas misturas são compostas majoritariamente por alcanos, que são estáveis, e por uma pequena parcela de alcenos. Estes últimos contêm ligações duplas de carbono, o que os torna extremamente sensíveis à oxidação.
Embora os alcenos representem uma fração mínima da assinatura odorífera da colônia, eles desempenham um papel crucial no reconhecimento entre os indivíduos. O problema é que o ozônio reage especificamente nessas ligações duplas, alterando o odor característico das formigas e causando a confusão.
Ataque imediato
Para verificar esse efeito na prática, os pesquisadores expuseram as formigas a uma concentração de ozônio de 100 partes por bilhão (ppb) — um nível frequentemente encontrado em áreas urbanas poluídas.
Após apenas 20 minutos de exposição, os cientistas devolveram os insetos às colônias de origem. O resultado foi que em cinco das seis espécies analisadas, as formigas expostas foram atacadas imediatamente por suas companheiras.
Detectar essas alterações foi um desafio técnico, ao exigir medir compostos presentes em quantidades mínimas. O impacto, contudo, se mostrou variado, como a formiga invasora clonal, por exemplo, que não reagiu com agressividade, mas passou a negligenciar suas próprias larvas, resultando na morte delas. Confirmando que a poluição rompe a comunicação química vital para a manutenção da colônia.
Alerta ambiental
Além disso, o estudo lança um novo alerta sobre o declínio global de insetos. Tradicionalmente associado a pesticidas e perda de habitat, esse fenômeno agora aponta também para a poluição atmosférica.
Como as formigas e outros polinizadores, como as abelhas, desempenham papéis ecológicos essenciais, os pesquisadores advertem que estamos subestimando os custos ambientais. Segundo a equipe, enquanto focamos nos danos à saúde humana, poluentes invisíveis podem estar desestruturando silenciosamente ecossistemas inteiros.
*Sob supervisão de Éric Moreira