Arqueólogos descobrem práticas rituais ancestrais sob o Templo de Ishtar em Assur
Pesquisadores identificaram camada de areia colocada deliberadamente sob o Templo de Ishtar em Assur, no Iraque, que revela mais sobre a fundação da cidade e práticas rituais ancestrais

Uma descoberta arqueológica inédita revelou uma camada de areia colocada deliberadamente sob as fundações do Templo de Ishtar, na antiga cidade de Assur, no atual Iraque. Datada entre 2896 e 2702 a.C., essa camada estabelece a data absoluta mais antiga conhecida para a fundação da cidade e indica que Assur já funcionava como um centro urbano ativo há mais de 4.700 anos. Além disso, a descoberta oferece novas informações sobre práticas rituais ancestrais e sobre a disseminação do culto à deusa Ishtar no norte da Mesopotâmia.
Localizada na margem oeste do rio Tigre, Assur foi o principal centro político e religioso do estado assírio. Sua relevância no primeiro milênio a.C. é amplamente documentada, mas as origens da cidade, no terceiro milênio a.C., permaneciam pouco conhecidas. Entre 1903 e 1914, escavações conduzidas pelo arqueólogo alemão Walter Andrae identificaram o Templo de Ishtar, porém as camadas mais profundas de sua fundação não puderam ser alcançadas na época.
Essa limitação foi superada apenas em 2024, quando o Projeto de Escavação de Assur, sediado na Universidade Ludwig Maximilian de Munique, utilizou tecnologias modernas de perfuração para acessar os níveis mais antigos diretamente dentro da cela do templo. A equipe coletou amostras de sedimentos do chamado Templo H, a fase de construção mais antiga conhecida do sítio arqueológico.
Durante a análise, publicada no Journal of Archaeological Science: Reports, os pesquisadores identificaram uma camada de areia com cerca de um metro de espessura posicionada sob a fundação do templo. A datação por radiocarbono do carvão vegetal encontrado imediatamente acima dessa camada situou a construção entre 2896 e 2702 a.C., período correspondente ao Dinástico Inicial I. O Templo H passou, assim, a representar o nível de ocupação mais antigo de Assur, fornecendo um novo marco cronológico para a fundação da cidade.
A análise mineralógica da areia revelou a presença de minerais como epidoto, glaucofano, zoisita e lawsonita, típicos de rochas metamórficas da fácies xisto azul. Esses minerais indicam uma origem nas Montanhas Zagros, descartando o rio Tigre, que passa próximo ao sítio, como fonte direta do material. A areia parece ter sido reciclada de depósitos eólicos locais derivados da Formação Injana, do Mioceno Superior, e transportada pelo rio Lesser Zab. A escolha desse material sugere uma decisão deliberada baseada em características geológicas específicas, e não apenas em conveniência.

Areia ritual?
No sul da Mesopotâmia, a colocação de areia sob as fundações de templos era uma prática ritual destinada à purificação do solo antes da construção de estruturas sagradas. A camada encontrada em Assur representa a primeira evidência conhecida dessa tradição no norte da Mesopotâmia. Isso indica que os primeiros habitantes da cidade adotaram práticas cerimoniais do sul, ao mesmo tempo em que utilizaram materiais associados a regiões do norte.
Os pesquisadores também levantam a hipótese de que a areia possuía conexões simbólicas com paisagens religiosas hurritas, relacionando o culto de Ishtar à deusa Shawushka, venerada em áreas próximas. Essa combinação sugere uma síntese de influências culturais do sul e do norte da Mesopotâmia no projeto do templo.
Outros templos importantes de Assur, como os complexos dedicados a Sin-Shamash e Anu-Adad, não apresentam camadas de areia semelhantes. O uso seletivo desse material no Templo H reforça seu significado ritual e simbólico, destacando o papel central da estrutura na vida política e religiosa da cidade, repercute o Archaeology News.
Este estudo constitui o primeiro exame mineralógico sistemático de areia arqueológica realizado no Iraque. Ao integrar dados arqueológicos, históricos e geológicos, a pesquisa demonstra como materiais de construção podem revelar informações sobre planejamento urbano, práticas rituais e conexões culturais de longa distância. A camada de areia sob o Templo de Ishtar fornece evidências diretas das estratégias arquitetônicas e religiosas empregadas na Mesopotâmia antiga, lançando nova luz sobre a fase inicial de Assur e sobre a complexidade cultural de seus fundadores.