Matérias / Curiosidades

Mercedes de Acosta: a poetisa americana que foi amante de estrelas de Hollywood

A poetisa Mercedes de Acosta ficou especialmente conhecida por ter sido amante de algumas das mulheres mais famosas de Hollywood no século 20

Antigas fotografias de Mercedes de Acosta / Crédito: Getty Images / Domínio Público

Mercedes de Acosta foi uma figura fascinante da história literária e cultural do século 20, conhecida por suas intensas relações amorosas com algumas das mulheres mais proeminentes de seu tempo. Alice B. Toklas, escritora e companheira de Gertrude Stein, descreveu-a de maneira bastante incisiva, que descreve bem sua fama: “Digam o que quiserem sobre Mercedes, ela se envolveu com as mulheres mais importantes do século 20″.

Entre as amantes e conquistas da dramaturga e poeta estavam estrelas de Hollywood como Greta Garbo e Marlene Dietrich, além de bailarinas renomadas como Isadora Duncan e Tamara Karsavina, sem contar atrizes como Ona Munson e Pola Negri. Há até rumores de que Toklas também tenha sido uma de suas paixões.

Embora nunca tenha alcançado o mesmo nível de fama que suas parceiras, De Acosta deixou sua marca na literatura com algumas obras, incluindo três livros de poesia que foram recebidos com modesta aclamação: ‘Moods’, de poemas em prosa publicado em 1919, ‘Archways of Life’, em 1921, e ‘Streets and Shadows’, no ano seguinte. Contudo, é seu explosivo livro de memórias, ‘Here Lies the Heart’, lançado em 1960, que a tornou mais conhecida ao expor suas experiências amorosas nos Estados Unidos dos anos 1920, o que resultou em desavenças com várias das mulheres mencionadas.

Greta Garbo, Isadora Duncan e Eva Le Gallienne, respectivamente / Crédito: Getty Images

Livro para Gladys Calthrop

A mais recente adição ao seu legado literário é um livro de poemas que só foi publicado em 2024, criado por De Acosta para Gladys Calthrop, uma destacada designer de cenários britânica responsável por muitas produções teatrais de Noël Coward. O volume encadernado profissionalmente contém 20 poemas, dos quais apenas um era conhecido anteriormente. Na dedicatória, De Acosta escreve: “Para Gladys, aceite estes frágeis poemas, em nome de muitas coisas. Seus olhos — estes anos — um sonho, e alguns momentos dourados voam com asas”.

A proveniência deste livro, conforme repercute o The Guardian, é quase tão intrigante quanto a própria vida de De Acosta. Sammy Jay, especialista sênior em literatura da Peter Harrington, destacou que “Gladys Calthrop fez seu nome como cenógrafa e figurinista de longa data de Noël Coward, que era um amigo próximo e a quem ela presenteou com este livro”.

A posse anterior do livro foi atribuída à governanta de Coward, Maggie Moore. A aquisição foi realizada por meio de uma mulher que conhecia a governanta. “Este livro oferece uma visão única e íntima de um dos casos extraconjugais menos conhecidos de uma celebridade que ganhou o apelido de ‘a maior pegadora de estrelas de todos os tempos’, e é ainda mais valioso por ser uma descoberta recente”, acrescentou Jay. “Acosta é uma figura impressionante como poeta, como cubana, como lésbica assumida e, de modo geral, como uma mulher que trilha seu próprio caminho no mundo com ousadia, e consigo imaginar o livro atraindo compradores de diversas perspectivas. Não me surpreenderia nem um pouco se ele fosse rapidamente adquirido por alguma biblioteca institucional por todos os motivos acima”.

No conteúdo dos poemas dirigidos a Calthrop, que faleceu em 1980 aos 85 anos, De Acosta expressa sua dor e beleza em versos como: “você é a pulsação de uma ferida no flanco da beleza – como um jacinto escuro, molhado pela paixão de uma maré turbulenta”.

Jay observa que os poemas “dramáticos, desesperados e explicitamente eróticos” parecem ter sido escritos após o término do relacionamento extraconjugal entre elas, sugerindo que foi Calthrop quem decidiu por colocar um fim no caso. O especialista destaca versos como: “uma causa perdida, talvez; – Uma canção – uma flor que você ama – uma árvore, ou apenas alguma faísca em você, que, ao se acender, me iluminou”.

Gladys Calthrop e Mercedes de Acosta / Crédito: Getty Images

Dificuldades da época

Nascida em março de 1892 em Nova York, filha de um pai cubano e uma mãe espanhola, Mercedes frequentou o Convento do Santíssimo Sacramento na mesma época que a escritora Dorothy Parker. Casou-se em 1920 com o artista Abram Poole, mas o matrimônio durou até 1935 e parece ter sido apenas uma conveniência para De Acosta. Durante os vibrantes anos 20, ela viveu uma série rápida de relacionamentos amorosos abertamente homossexuais, levando o historiador teatral Robert A. Schanke a intitular sua biografia sobre ela ‘That Furious Lesbian’ (‘Aquela Lésbica Furiosa’, em português).

Sua notoriedade forneceu material para sua escrita; no entanto, não ajudou suas perspectivas profissionais. Jay comenta: “Ela é lembrada principalmente por seus relacionamentos amorosos e nunca alcançou distinção artística, provavelmente porque se recusou a comprometer a si mesma ou seu trabalho para se adequar a padrões de aceitabilidade”.

Um de seus amigos, o dançarino Ram Gopal comentou sobre a dificuldade que ela enfrentava ao lidar com homens da indústria teatral: “quando ela conhecia os homens que dirigiam os teatros, eles não queriam trabalhar com uma mulher forte que amava as mulheres. Os homens a achavam muito dominadora”.

No cenário político da época, após a aprovação de uma lei pelo legislativo do estado de Nova York em 1927 que proibia performances abordando “degeneração ou perversão sexual”, De Acosta continuou escrevendo peças desafiadoras como ‘The Dark Light’ (1926) e ‘Illusion’ (1928) — que têm como temas incesto e prostituição, respectivamente.

A relação entre De Acosta e Calthrop começou em 1927 quando esta seduziu Eva Le Gallienne, estrela da Broadway nascida na Grã-Bretanha e amante da poetisa. Em 1929, Calthrop colaborou na produção londrina da peça ‘Prejudice’ e elas iniciaram um romance ao qual De Acosta acolheu Calthrop em sua casa na Beekman Place, no lado leste de Manhattan.

Mercedes de Acosta (à direita) e Edith Morgan durante marcha do Partido do Sufrágio Feminino em 1917 / Crédito: Getty Images

Últimos anos

Em 1960, quando publicou suas memórias, De Acosta enfrentava duras dificuldades financeiras e, para piorar, havia sido diagnosticada com um tumor cerebral. Além disso, o conteúdo do livro provocou um distanciamento ainda maior entre ela e suas antigas amigas; Garbo cortou relações e Le Gallienne desmentiu as revelações feitas no livro.

Mercedes de Acosta faleceu aos 76 anos em 9 de maio de 1968, vivendo em condições precárias em Nova York. Embora seja frequentemente lembrada pela alegação possivelmente apócrifa “eu consigo afastar qualquer mulher de qualquer homem”, De Acosta também se destacou como ativista contra a Guerra Civil Espanhola, defensora dos direitos das mulheres — afirmando em seu livro de memórias: “Eu acreditava em todas as formas de independência para as mulheres”, além de ser defensora dos direitos dos animais ao se tornar vegetariana e recusar usar peles.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.