Colonização e escravidão na história da desigualdade brasileira
Os processos de colonização e escravidão são fundadores da nossa desigualdade

Embora não tenha uma indústria totalmente desenvolvida, nem o completo controle de suas cadeias produtivas, o Brasil pode ser considerado um país relativamente rico. Seu PIB contabilizou, no ano de 2024, a soma de 2,18 trilhões de dólares.
Os números de 2025 ainda não foram divulgados, mas a estimativa do Banco Central é de um crescimento de 2,26% em relação ao ano anterior. Ainda que tenha despencado uma posição no ranking, caindo de 10° para 11° lugar, o Brasil continua entre as primeiras economias do mundo.
Por outro lado, o país segue também como um dos mais desiguais. É fato que nos últimos 30 anos a miséria extrema diminuiu, caindo de 25% para 5% da população, segundo o Coeficiente de Gini. Além disso, a renda média per capita cresceu 70%, indo de R$1.191 para R$ 2.015.
Continuamos, mesmo assim, a manter o abismo entre ricos e pobres. De acordo com o relatório da Oxfam, 63% da riqueza do Brasil está nas mãos de 1% da população e os 50% mais pobres detêm apenas 2% do patrimônio total. Qual o papel dos processos de colonização e escravidão nesse quadro?
Colonização
Um fator histórico fundamental para nossa desigualdade é o processo de colonização. De 1500 a 1822, a única característica de nosso desenvolvimento foi servir aos interesses da coroa portuguesa e das oligarquias locais aqui instaladas.
No geral, o Brasil se reduzia a mero fornecedor de produtos agrários e minerais para a metrópole, Portugal. Qualquer atividade que extrapolasse esse sistema era inviável. Desse modo, o acesso à riqueza era exclusivo dos homens livres que detinham capitais volumosos.
Esses homens viviam da exploração de mão de obra escravizada e não pagavam salário em massa, acumulando os montantes equivalentes ao chamado capital variável — segundo a economia política, o capital variável é o capital despendido em salários; fundamental para o desenvolvimento do capitalismo em uma nação.
Tal excedente era gasto em consumo produtivo (meios de produção e matérias-primas) ou na compra de mais terras e escravizados. Quando não, era gasto em bugigangas importadas da Europa ou virava poupança. Ao morrerem, nossos oligarcas geralmente legavam suas fortunas aos filhos homens, sobretudo os mais velhos (princípio do morgado).
A população trabalhadora não acessava, portanto, os frutos da riqueza nacional produzida e mergulhava na miséria e na indignidade a cada instante. Tal sistema fez consolidar as bases para o primeiro dos nossos abismos sociais.
Escravidão
No cerce da exploração colonial estava o processo de escravidão, fator fundamental para nossa desigualdade crônica. Por meio do sequestro e mercantilização de populações indígenas e africanas, fazendas e mineradoras foram abarrotadas de mão de obra forçada.
Eram corpos escravizados que produziam quase a totalidade de nossas riquezas. A parca mão-de-obra livre tinha suas possibilidades de sobrevivência minadas pela concorrência com o trabalho escravo. Derivam daí pelo menos dois problemas fundamentais.
O primeiro diz respeito à condição humana. Um país erguido sobre a ideia de que certos indivíduos nasceram para pertencer a outros, só pode gerar em longo prazo uma cultura perversa de desigualdade, onde a objetificação e opressão de certos indivíduos é vista como natural e aceitável.
O racismo arraigado em nosso país é a prova disso. Ainda hoje é comum que parte da sociedade brasileira identifique o negro e o indígena como cidadãos de segunda classe.
O segundo problema é de ordem econômica: um país baseado na mão de obra escravizada tende a não se desenvolver, pois não há nele um sistema salarial e, portanto, a demanda interna capaz de impulsionar um mercado consumidor e produtivo é inexistente. Territórios cuja força de trabalho era livre e assalariada desde muito tempo, como a Inglaterra, desenvolveram-se não só pela inovação técnica, mas também pelos ciclos de prosperidade gerados pelo sistema salarial.
O Brasil seguiu o caminho inverso e isso ajuda a explicar tanto o desenvolvimento “capenga” de nosso capitalismo, subordinado aos centros financeiros, manufatureiros e industriais europeus (e depois, estadunidense), quanto a desigualdade entre negros, indígenas e brancos.
Um legado perverso
A colonização gestou um país pouco desenvolvido. Durante anos, servimos como meros fornecedores de commodities — produtos primários de baixo valor agregado ao mundo. E, mesmo depois de industrializados, continuamos dependentes da importação de capitais e de tecnologia.
Gestou também uma classe dominante subalterna, que se identifica mais com a Europa e Estados Unidos do que com o próprio Brasil e que constantemente coloca nossa soberania em risco, como ocorreu em 1964 — ver Operação Brother Sam. Esses fatores são alavancas de desigualdade, na medida em que nossa política interna se vê constantemente refém de interesses estrangeiros, essencialmente contrários aos interesses de nossa população pobre.
Por sua vez, a escravidão gestou um país pouco inclusivo e bastante opressivo. A Abolição não garantiu que o negro se inserisse de modo adequado à sociedade de classes. Foi o contrário. Ainda hoje, a camada descendente de escravizados é estruturalmente tratada como cidadã de segunda classe, sendo vítima de estigmatização racista, baixa escolarização, iniquidade salarial, violência policial gratuita, segregação e demais excrescências: outra alavanca de desigualdades.
É um longo caminho. Mas, certamente, o desenvolvimento do Brasil rumo à diminuição de seus abismos sociais passa pela superação dos escombros deixados pelos processos de colonização e escravidão.
Sobre o autor: Marcos Vinicius de Paula é formado em Ciências Sociais pela UNIFESP e atua há mais de uma década como professor de Sociologia na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

Paralelamente à docência, o autor desenvolve trabalho consistente na escrita criativa, essa interseção entre educação e literatura ganha forma em Corpo Estranho, sua antologia de contos, na qual articula observação social, imaginação narrativa e reflexão crítica.