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Cidade Z: brasileiro lidera expedição em busca de civilização antiga

Um século após o desaparecimento do explorador Percy Fawcett na Amazônia, o arqueólogo Maurício Acklas o paradeiro da Cidade Z

Cidade Z
Há um século, o explorador Percy Fawcett desapareceu em busca da Cidade Perdida de Z - Getty Images/Divulgação

Em 1925, quando o coronel britânico Percy Harrison Fawcett entrou na floresta amazônica acompanhado do filho Jack e de um pequeno grupo de expedicionários, poucos imaginavam que aquela jornada se tornaria um dos maiores mistérios do século XX: a busca pela civilização de Z. Contudo, o explorador jamais retornou.

Desde então, dezenas de expedições foram organizadas para tentar encontrá-lo ou ao menos esclarecer o que teria acontecido. Algumas dessas tentativas também terminaram em tragédia, engrossando ainda mais o mito em torno do nome de Fawcett e da lendária cidade Z, que ele acreditava estar escondida no coração do Brasil.

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Para o arqueólogo Maurício Acklas, que há anos pesquisa a trajetória do explorador e lidera sucessivas expedições de campo relacionadas ao tema, o desaparecimento de Fawcett permanece, acima de tudo, um enigma sem solução definitiva. “Ao desaparecer em 1925, a expedição Fawcett acabou se tornando o maior mistério do século XX”, afirma em entrevista ao Aventuras na História.

Segundo ele, o número de hipóteses levantadas ao longo das décadas — muitas delas contraditórias entre si — ajuda a explicar por que nenhuma resposta conclusiva foi alcançada até hoje.

Entre as teorias mais recorrentes está a de que Fawcett teria sido vítima de uma trama política. Alguns pesquisadores chegaram a sugerir a participação do marechal Cândido Rondon, figura central da história da exploração e da integração territorial brasileira, conhecido por sua oposição às teorias de Fawcett sobre civilizações antigas na Amazônia.

Acklas rejeita essa hipótese de forma categórica. “Estudei Rondon, li sua biografia e diversos estudos sobre sua vida e obra. Também visitei o Museu Rondon, em Cuiabá, e conversei com museólogos. Qualquer um que tenha pesquisado seriamente sua trajetória vai concordar que essa teoria é absolutamente irreal”, diz.

Na avaliação do arqueólogo, a explicação mais plausível para o desaparecimento de Fawcett está relacionada à violência histórica sofrida pelos povos indígenas da região. “Não creio que Fawcett tenha sido vítima de um complô político. Em minha opinião, ele talvez tenha sido morto por indígenas hostis que defendiam seu território, traumatizados por séculos de genocídio cometidos pelos ‘homens brancos’”, afirma.

Ainda assim, Acklas faz questão de se distanciar da versão mais popular dessa narrativa, que atribui a morte de Fawcett aos Kalapalo, no Xingu. Para ele, essa associação carece de base sólida. “Acredito que Fawcett jamais foi ao Xingu e nem este era seu objetivo. Em minha opinião, ele desapareceu na região das cabeceiras do Tapajós.”

Paradeiro desconhecido

Se o destino final de Fawcett permanece envolto em incertezas, a motivação que o levou à selva, por outro lado, parece clara para Acklas. “Não tenho dúvidas de que Fawcett buscava por uma cidade perdida que ele batizara como ‘Z’”, afirma. Segundo o arqueólogo, o explorador britânico acreditava na existência de uma civilização extremamente antiga, possivelmente ligada a povos atlantes, cuja descoberta poderia “reescrever a história da humanidade”. Essa convicção não era secreta nem marginal. Antes de desaparecer, Fawcett publicou artigos e realizou palestras defendendo suas ideias, inclusive na prestigiada Royal Geographical Society, em Londres.

Uma dessas palestras, realizada em 1911, teve impacto duradouro. Entre os presentes estava o escritor Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, que se inspirou diretamente nas teorias e aventuras de Fawcett para escrever O Mundo Perdido, clássico da literatura de aventura. Para Acklas, esse dado reforça que a busca pela cidade Z não foi um delírio tardio ou uma obsessão isolada, mas um projeto intelectual consistente, ainda que controverso, dentro do contexto de sua época.

O envolvimento emocional com essa história não se restringe ao passado. Acklas relata que, em seu próprio trabalho de campo, já sentiu o mesmo tipo de fascínio descrito por Fawcett em seus diários. “Nossa paixão pela descoberta de lugares ancestrais é a mesma que Fawcett expressa em seus escritos”, afirma.

Esta já é a sexta expedição de pesquisa liderada por ele sobre o tema, cada uma voltada a aprofundar diferentes aspectos do que chama de “caleidoscópio cultural” amazônico. Entre todas, uma se destaca pela carga afetiva: a expedição de 2021 ao Xingu, marcada pelo contato direto com povos originários e pela construção de vínculos que, segundo ele, permanecem vivos até hoje.

Apesar da persistência e do empenho, Acklas mantém uma visão realista quanto às chances de localizar os restos mortais ou o paradeiro exato de Fawcett. “As expectativas são pequenas, mas nem por isso desistiremos”, afirma. Cem anos de intempéries, cheias e secas sucessivas, mudanças no curso dos rios, além do clima úmido e do solo ácido da região, tornaram essa busca cada vez mais difícil. Paradoxalmente, é justamente nesse cenário que surge um deslocamento de foco: encontrar a cidade Z, caso ela realmente exista, parece hoje mais viável do que encontrar Fawcett.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.