Código presente nos Manuscritos do Mar Morto teria sido finalmente decifrado
Mistério envolvendo manuscritos que datam de 2 mil anos atrás teria sido finalmente desvendado por pesquisador da Universidade de Groningen, na Holanda

Um importante avanço na decifração de um dos últimos sistemas de escrita não compreendidos entre os Manuscritos do Mar Morto foi finalmente alcançado, após mais de sete décadas de estudos e investigações. Este marco se concentra nos chamados manuscritos Crípticos B, que consistem em dois fragmentos danificados, conhecidos como 4Q362 e 4Q363, há muito considerados ‘impossíveis’ de ler devido ao seu alfabeto desconhecido.
O responsável pela descoberta, Emmanuel Oliveiro, pesquisador da Universidade de Groningen, na Holanda, conseguiu identificar que cada símbolo críptico correspondia de maneira consistente com letras do hebraico. A partir dessa análise, os fragmentos revelaram expressões e temas bíblicos familiares que abordam o fim dos tempos, como o julgamento divino, a vinda do Messias e o destino final de Israel.
Entre os trechos decifrados estão “Israel”, além de menções a Judá, Jacó e Elohim (Deus). Esses manuscritos foram produzidos pela comunidade de Qumran, uma seita judaica que habitou a região próxima ao Mar Morto há mais de 2.000 anos.
Conforme destaca o portal Daily Mail, os Manuscritos do Mar Morto, encontrados em cavernas localizadas nas imediações da Cisjordânia entre 1947 e 1956, reúnem alguns dos mais antigos textos bíblicos conhecidos, redigidos em hebraico, aramaico e, ocasionalmente, em grego. Embora o chamado Críptico A tenha sido decifrado em 1955, o Críptico B permaneceu um enigma por muitas décadas. Seus sinais atípicos, a escrita irregular e os pequenos fragmentos preservados tornaram o processo de leitura particularmente árduo.
Entre os manuscritos que empregam exclusivamente esse sistema criptográfico, apenas os textos catalogados como 4Q362 e 4Q363 chegaram até nós. Ambos se encontram severamente danificados: muitos fragmentos medem apenas alguns milímetros de largura. O material remanescente é frágil e gasto, com o couro rachado, escurecido ou rasgado; algumas peças exibem margens irregulares, marcas de costura ou dobras profundas.
A escrita foi executada com tinta preta, utilizando instrumentos de ponta fina ou média. Ainda assim, as formas das letras, suas proporções e o espaçamento variam consideravelmente, havendo correções pontuais e, por vezes, traços duplicados. No conjunto, os manuscritos revelam grandes variações internas e diferenças claras entre os dois textos, o que indica uma aplicação inconsistente da escrita Críptica B.
Conteúdo do 4Q362
O conteúdo do 4Q362 parece ter natureza religiosa e faz uso recorrente de vocabulário bíblico. No fragmento 21 surgem referências a “Elohim” e à “sua glória”, enquanto o fragmento 18 menciona “as tendas de Jacó”, expressões que evocam passagens como Jeremias 30:18 e Malaquias 2:12. Nesses contextos, Judá assume papel relevante. Jeremias 30:18, por exemplo, anuncia a restauração de Israel após o juízo divino, com a promessa do retorno das riquezas e da reconstrução das cidades, sinalizando esperança e renovação.
Embora o 4Q362 não reproduza literalmente esses textos bíblicos, sua linguagem e seus temas sugerem afinidade com tradições proféticas e expectativas escatológicas. Os fragmentos também contêm alusões a datas e autoridades governantes. Menções como “no segundo ano” e “no quinto mês” podem refletir convenções históricas ou proféticas semelhantes às encontradas em outros escritos bíblicos e sectários.
Um dos aspectos mais enigmáticos do 4Q362 é a referência a um túmulo nos fragmentos 2 e 14. Apesar de túmulos aparecerem em diversos textos bíblicos, nenhum corresponde exatamente à descrição apresentada aqui. Oliveiro sugeriu que o termo traduzido como “placas”, no fragmento 14, poderia igualmente significar lápide.
Sobre o 4Q363
O 4Q363 é ainda mais lacunar e de interpretação incerta. Uma mesma frase aparece duas vezes, mas não está claro se alude a “suas filhas” ou a “suas aldeias”. O nome Benayahu também surge no texto; contudo, por ser comum em outras fontes, não permite uma identificação segura.
Permanece incerta a razão para o uso desse código. Oliveiro propôs que a escrita incomum poderia cumprir uma função simbólica ou ritual. Ao empregar um alfabeto pouco reconhecível, os escribas talvez indicassem que o conteúdo se destinava a um grupo restrito — como elites sacerdotais ou iniciados na escrita —, conferindo maior caráter sagrado ao texto sem modificar seu sentido.
Assim, a dificuldade do Críptico B não reside tanto na complexidade do sistema, mas na distorção intencional das formas das letras. Essa estratégia fez com que o texto parecesse indecifrável por décadas, apesar de conter mensagens que não eram secretas nem místicas.