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Estudo de cabeça-troféu do Peru revela sobrevivência de indivíduo com deficiência congênita

Análise de crânio antigo mostra que indivíduo viveu até a idade adulta, sugerindo que povos andinos viam a malformação como especial ou sagrada

Vaso Moche representando um homem com lábio leporino unilateral e tatuagens, sentado com turbante e túnica ; Desenho linear digitalizado / Créditos: Scaffidi, 2025

Uma cabeça centenária encontrada nos Andes peruanos revelou que seu dono sobreviveu até a idade adulta apesar de uma deficiência congênita. Pesquisadores identificaram um lábio leporino, condição associada a fenda palatina, em restos mumificados que datam de 100 a 500 d.C.

A análise foi conduzida por Beth Scaffidi, professora assistente de antropologia da Universidade da Califórnia, Merced. Ela destacou que, embora fendas orofaciais sejam comuns hoje em cerca de 1 em cada 700 nascimentos, seu diagnóstico em restos arqueológicos é raro. Segundo Scaffidi, apenas cerca de 50 casos já foram documentados mundialmente.

O estudo, publicado em novembro na revista Ñawpa Pacha, é o primeiro a registrar uma fenda orofacial em uma cabeça-troféu andina, oferecendo novas ideias sobre como os antigos Andes interpretavam essas condições. Scaffidi ainda ressalta que a descoberta mostra que a percepção de deficiência é cultural, e não puramente biológica.

Cabeças de troféu e preservação

Durante milênios, povos andinos coletavam cabeças decepadas como troféus, muitas vezes mumificando-as naturalmente no clima árido. De acordo com informações repercutidas pela revista Live Science, a maioria desses exemplos data de 300 a.C. a 800 d.C., especialmente na região que hoje corresponde a Nazca, no Peru.

Segundo Scaffidi, algumas cabeças eram cuidadosamente preservadas, possivelmente de ancestrais importantes, enquanto outras exibiam ferimentos violentos, sugerindo conquistas militares. No caso do indivíduo estudado, fotografias indicam que era um jovem adulto do sexo masculino, provavelmente cuidado intensamente durante a infância devido às dificuldades de alimentação associadas ao lábio leporino.

Condição pode ter conferido status

Mais do que sobreviver, o indivíduo pode ter obtido status especial por sua condição. Vasos cerâmicos da cultura Moche, contemporânea aos restos, mostram pessoas com fendas orofaciais desempenhando funções xamânicas ou de liderança, usando adornos e joias, sugerindo veneração.

Além disso, pesquisas anteriores indicam que cabeças-troféu eram frequentemente coletadas de pessoas percebidas como possuidoras de poderes sobrenaturais. Assim, o que hoje seria visto como deficiência provavelmente era considerado uma bênção. Essa descoberta abre novas perspectivas sobre saúde, cultura e percepção social nos Andes antigos, mostrando que as condições congênitas nem sempre eram estigmatizadas, mas muitas vezes integradas à identidade e ao prestígio da comunidade.