Estudo de DNA soluciona mistério sobre a Mulher de Beachy Head
Esqueleto de mulher da era romana descoberto no sul da Inglaterra foi centro de debates e mistério por mais de uma década; mas novo estudo o soluciona

Após mais de dez anos de debates acerca da identidade e migração durante a era romana, um estudo recente trouxe novas luzes sobre a esqueleto conhecido como Mulher de Beachy Head, encontrado no sul da Inglaterra. Pesquisadores agora defendem que os restos mortais pertencem a uma mulher nativa da Britânia romana, e não a uma imigrante de terras distantes.
Os restos, datados em cerca de 2.000 anos, foram redescobertos em 2012 em uma caixa no Town Hall de Eastbourne. Uma etiqueta manuscrita indicava que o esqueleto havia sido recuperado nas proximidades dos penhascos de Beachy Head durante a década de 1950; entretanto, não existem registros de escavação dessa época. Análises posteriores por meio de datação por radiocarbono revelaram que a mulher faleceu entre os anos 129 e 311 d.C., durante o domínio romano na região.
As primeiras análises científicas concentraram-se nas medidas esqueléticas, levando a especulações sobre uma possível origem sub-saariana. Esta hipótese atraiu atenção significativa do público e chegou a ser apresentada em exibições de museus, onde ela foi retratada como uma das primeiras africanas conhecidas na Grã-Bretanha. Pesquisas adicionais não publicadas sugeriram uma possível origem mediterrânea, incluindo ligações com Chipre, mas os dados genéticos disponíveis à época eram fragmentários e inconclusivos.
Estudo de DNA
A nova pesquisa, que foi publicada no Journal of Archaeological Science e liderada por especialistas do Museu de História Natural de Londres em parceria com o University College London, utilizou técnicas avançadas de sequenciamento de DNA antigo que não estavam disponíveis há dez anos. A equipe extraiu uma quantidade significativamente maior de DNA de alta qualidade, permitindo contextualizar sua ancestralidade dentro de uma estrutura genética mais ampla da época romana.
Os resultados indicam que seu DNA é mais similar ao de indivíduos do sul rural da Grã-Bretanha durante o período romano e às populações modernas da Inglaterra. Não foram encontradas evidências recentes de ancestralidade sub-saariana ou mediterrânea. Análises isotópicas dos dentes e ossos revelam que seus primeiros anos foram passados na costa sul da Grã-Bretanha, e seus padrões de mobilidade se assemelham aos de outros indivíduos locais da mesma época.
Outras evidências bioantropológicas também ajudam a desvendar aspectos da sua vida. Ela tinha entre 18 e 25 anos no momento da morte e media pouco mais de 1,5 metros. Um ferimento curado em uma das pernas indica que sobreviveu a um ferimento sério anteriormente. Sua dieta, identificada por meio de traços químicos preservados nos ossos, era rica em frutos-do-mar, sugerindo que residia em uma área costeira.
A equipe também fez previsões sobre suas características faciais com o auxílio de métodos forenses modernos, sugerindo que ela poderia ter olhos azuis, cabelo claro e pele com pigmentação intermediária. Esses resultados levaram à atualização da reconstrução facial digital dela, repercute o Archaeology News.
Este caso não apenas resolve um mistério histórico, mas também ilustra como a interpretação científica pode evoluir à medida que os métodos se aprimoram. A história da Mulher de Beachy Head passou a ser vista sob uma nova perspectiva: a narrativa local ganha destaque em detrimento da antiga narrativa migratória, oferecendo uma visão mais precisa sobre a vida na Britânia romana.