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Mulheres denunciam exploração e trabalho forçado ligado ao Opus Dei na Argentina

Ex-membros dizem ter sido enganadas quando menores e submetidas a trabalho doméstico sem salário e controle extremo no Opus Dei

Tapeçaria de Josemaría Escrivá, fundador do Opus Dei, exibida na Praça de São Pedro, no Vaticano / Créditos: Getty Images

Na terça-feira, 16, Buenos Aires sediará o primeiro encontro internacional de ex-membros do Opus Dei que afirmam terem sido enganadas e traficadas quando menores de idade. As denúncias chamaram a atenção, nos últimos meses, para o poderoso e reservado grupo católico.

Ao todo, 43 mulheres na Argentina afirmam que foram atraídas para escolas do Opus Dei quando crianças e adolescentes, sob a promessa de receberem educação. Segundo os relatos, ao chegarem ao local, elas teriam sido forçadas a trabalhar por até 12 horas por dia, cozinhando e limpando para membros da elite masculina, sem qualquer tipo de remuneração.

Controle e isolamento

De acordo com informações repercutidas pelo jornal The Guardian, o Papa Leão XIV teria incentivado os organizadores a convocarem a conferência em caráter privado. As denúncias, porém, vão além do trabalho excessivo. Muitas mulheres relatam que eram submetidas a níveis extremos de controle.

Segundo os depoimentos, cartas eram censuradas, visitas familiares desencorajadas e a leitura de qualquer material que não fosse infantil ou religioso era proibida. Além disso, mesmo após conseguirem escapar, as mulheres afirmam que ficaram sem dinheiro, roupas e até qualificações profissionais.

Investigação e revisão

A partir dos depoimentos das mulheres, procuradores federais na Argentina decidiram iniciar uma investigação. O inquérito acusa altos dirigentes do Opus Dei na América do Sul de supervisionar a exploração e o tráfico de meninas, adolescentes e mulheres entre 1972 e 2015.

Sebastián Sal, advogado das 43 mulheres, afirmou que a investigação avançou lentamente devido ao atraso nos depoimentos de duas testemunhas ligadas ao Opus Dei. Embora a Santa Sé não tenha respondido formalmente, o caso contribuiu para que o Papa Francisco iniciasse, em 2022, a revisão do estatuto do Opus Dei.

Depoimentos e expectativas

Uma fonte próxima ao caso afirmou que o Papa Leão XIV apoiou a realização do encontro, organizado pela rede Ending Clergy Abuse. Há expectativa de um posicionamento do pontífice após a conferência. No entanto, o Vaticano disse não confirmar nem desmentir a informação. Já o Opus Dei, que atua em mais de 70 países, nega as acusações feitas na Argentina.

Além disso, Sal afirmou que a exploração de adolescentes e mulheres de famílias rurais pobres ainda ocorre e que um posicionamento do Vaticano poderia destravar a investigação na Justiça argentina. Segundo ele, uma manifestação oficial teria peso institucional para o avanço do caso.

Uma das denunciantes, Claudia Carrero, participará da conferência. Ela afirma que foi levada a uma escola do Opus Dei aos 13 anos, em 1979, sob promessa de formação profissional, mas acabou submetida ao trabalho doméstico e a rígido controle.

Segundo Carrero, relatos semelhantes foram ouvidos em países como México, Itália, Espanha, Irlanda, Peru e Chile, o que, para ela, indica um padrão. As mulheres dizem esperar que o encontro leve a mudanças concretas dentro da Igreja e evite que novos casos se repitam.