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O ‘homem silencioso’ que bloqueia trânsito e não se explica há mais de uma década

Desde 2014, David Hampson vem bloqueando o trânsito de uma rua de Swansea, no País de Gales, e foi preso diversas vezes — mas nunca explicou sua motivação

David Hampson / Crédito: Divulgação/Polícia do Sul do País de Gales

Há mais de uma década, um homem que vive no País de Gales vem chamando grande atenção por seu comportamento bastante peculiar. David Hampson, também conhecido como “homem silencioso“, já teve diversas passagens pela polícia por obstruir o trânsito da cidade de Swansea, e nunca falar nada para se explicar às autoridades.

O comportamento de Hampson tem levantado questões sobre suas motivações e saúde mental, uma vez que ele se recusa a dialogar com autoridades policiais, advogados e membros do sistema judiciário. Desde 2014, o homem tem sido objeto de múltiplos julgamentos para determinar se sua mudez é intencional ou se resulta de alguma condição psicológica ou física.

Em 2014, conforme repercute o Yahoo!, Hampson recebeu uma pena suspensa de dois anos por quatro acusações de obstrução de passagens em rodovias. Já em 2015, ele foi condenado por perturbação da ordem pública pelo mesmo comportamento, sendo assim alvo de sua primeira Ordem de Conduta Anti-Crambulação — também conhecida como “Crasbo”.

Mas o comportamento do homem não melhorou, e ele recebeu novas penas de prisão após cometer o mesmo delito em outras ocasiões em 2016, 2017 e 2018, quando foi sentenciado a 42 meses de prisão. Depois disso, ele voltou a ser preso em dezembro de 2021, em frente à delegacia de Swansea, ao bloquear a rua no cruzamento da Mount Pleasant com a De La Beche Street.

Nesse momento, o homem foi detido sob a Lei de Saúde Mental, mas depois de sua identidade ser confirmada através da carteira de habilitação, ele foi preso por violar sua Crasbo. Tanto quando foi advertido, quanto posteriormente, ao ser acusado, Hampson permaneceu em silêncio ininterrupto, passando pelo Tribunal de Magistrados de Swansea e então pelo Tribunal da Coroa de Swansea.

Em maio de 2022, quando compareceu perante o tribunal superior, o homem continuou em silêncio, se recusando a falar quando foi solicitado a se declarar inocente ou culpado. No fim, ele acabou recebendo uma declaração de “não culpado”, mas o caso ainda gerava muitas dúvidas.

Área em que David Hampson foi detido em várias ocasiões, em frente à delegacia central de Swansea, no País de Gales / Crédito: Reprodução

Mudo por malícia?

A principal confusão que os julgamentos enfrentam é que, antes de os jurados puderem decidir se Hampson era culpado ou não, era necessário determinar se ele estava sendo “mudo por malícia” em todo o caso, ou “mudo por intervenção divina”, nos próprios termos colocados pelas autoridades galesas.

Curiosamente, agentes penitenciários prestaram depoimentos de que o réu conversou com eles quando estava detido na Penitenciária de Swansea, e o júri considerou que ele violou conscientemente sua ordem de restrição. Ainda assim, o juiz seguiu ordenando um laudo psiquiátrico do homem, em busca de tentar dar mais detalhes para o caso e esclarecer seu comportamento, de forma que pudessem ser até mesmo oferecidos auxílios adequados a ele.

Porém, Hampson se recusou a falar com os médicos indicados pelo tribunal, e com isso nenhuma entrevista foi feita com sucesso. Após isso, o tribunal ordenou que os registros médicos do homem fossem apresentados e entregues ao psiquiatra para que algumas informações sobre ele e seu histórico pudessem ser conhecidas, mas, já em agosto, um relatório concluiu que por mais que o mutismo fosse “seletivo e deliberado”, poderia existir “estresses” sociais ou financeiros que contribuíssem para essa decisão.

O médico então concluiu que não seria capaz de dar qualquer tipo de diagnóstico de condição psiquiátrica ou de natureza sobre o homem, o que colocou o caso em uma situação bastante confusa. Hampson não podia ser preso por não haver nada que ateste sanidade para ele ser culpado, e também não poderia ter uma internação compulsória, pois não havia qualquer diagnóstico.

Na audiência, o juiz Huw Rees concordou que poderia existir “pressões sociais” em torno da decisão de Hampson, mas disse que, em sua opinião, o silêncio ininterrupto era resultado de uma “arrogância e insolência de tirar o fôlego”, e por isso o réu foi condenado a três anos e meio de prisão.

Desdobramentos recentes

David Hampson não permaneceu preso por todo o tempo estipulado, e, em outubro de 2023, mais uma vez protagonizou um chamado às autoridades quando voltou à rua em frente à delegacia central de Swansea e bloqueou o trânsito novamente. Os policiais chegaram ao local, o levaram para outro canto para conversar com ele, mas não adiantou; quando deixaram o local, orientando que o homem fizesse o mesmo, Hampson apenas voltou para a rua. Por isso, foi preso mais uma vez.

Perante os juízes, Hampson se recusou a falar qualquer coisa, se limitando a continuar olhando para o chão do banco de réus sempre que era questionado. Como não se declarou culpado ou inocente, foi novamente declarado inocente, e libertado enquanto aguardava por julgamento. E, mais uma vez, assim que saiu do prédio do tribunal, voltou a parar a estrada. Após isso, foi preso mais uma vez, e mantido sob custódia até o julgamento.

Quando compareceu para o julgamento, em dezembro de 2023, continuou em silêncio, sem contestar a acusação nem apresentar qualquer defesa. Nessa ocasião, ele foi condenado por duas acusações de obstrução de via pública, e sentenciado a seis meses de prisão.

Eventualmente, Hampson foi libertado, mas, mais uma vez, no dia 8 de abril deste ano, ele retornou à rua em frente à delegacia central de Swansea. Ele foi escoltado para fora da rua por policiais armados, que o advertiram de que ele seria preso se continuasse com o que estava fazendo. E nada mudou: pouco depois, ele voltou à via, e foi preso pela polícia.

As autoridades o levaram até a delegacia, mas o homem acabou sendo liberado sob fiança. E, mais uma vez, retornou ao meio da rua, preso, e mantido sob custódia. No dia 22 de maio deste ano ele foi condenado mais uma vez por obstrução de via pública, e sentenciado a mais seis meses de prisão.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.