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A antiga ruína minoica descoberta em Creta durante obras para construção de aeroporto

Logo após sua descoberta, ruína minoica de cerca de 4.000 anos, tornou-se o centro de uma grande disputa entre historiadores e incorporadoras

Monumento minoico foi encontrado durante obras para construção de um aeroporto - Crédito: Divulgação/Ministério da Cultura Grego

As obras para a construção de um novo aeroporto internacional em Creta, na Grécia, acabaram resultando em uma descoberta inesperada. Sob camadas de sedimentos, ocultava-se um monumento minoico de cerca de 4.000 anos, estruturado em forma de labirinto. A descoberta tornou-se o centro de uma grande disputa entre historiadores e incorporadoras.

Creta, a maior ilha grega, recebe milhões de visitantes todos os anos, atraídos por suas praias, montanhas e, sobretudo, por seus vestígios da civilização minoica. Considerados a primeira civilização europeia, os minoicos floresceram entre 2000 e 1450 a.C. e deixaram uma rica herança artística. Mas o monumento descoberto na Colina Papoura foge dos padrões conhecidos. Segundo Kostas Paschalidis, chefe da associação de arqueólogos gregos, trata-se de uma das descobertas mais importantes do século 21.

O complexo veio à tona durante as obras preliminares do aeroporto. Rapidamente, arqueólogos, autoridades locais e moradores mobilizaram-se para impedir a construção de uma torre de radar de cerca de 30 metros de altura e outras estruturas próximas, temendo danos permanentes ao sítio.  Mas, de acordo com o portal National Geographic, a tensão não surpreende: em toda a Grécia, escavações e obras públicas frequentemente revelam novos vestígios do passado, alterando cronogramas e reacendendo debates.

O mesmo ocorre em outros países — como no México, durante a construção do aeroporto de Santa Lucia —, mas a frequência com que o fenômeno ocorre na Grécia é particularmente alta, impulsionada por um boom recente na construção civil.

“Em teoria, a descoberta arqueológica deve ser celebrada”, afirma Dimitris Plantzos, professor de arqueologia clássica da Universidade de Atenas. “Mas, na prática, muitas vezes é visto como um obstáculo.”

Um projeto sofisticado

Durante uma apresentação em Atenas, a arqueóloga responsável pelas escavações, Danae Kontopodi, descreveu o monumento como um projeto surpreendentemente sofisticado para a época. Construído em fases entre 3000 e 1700 a.C. e utilizado principalmente entre 2300 e 1800 a.C., o complexo ocupa cerca de 180 metros quadrados. É composto por sete anéis concêntricos de pedra ligados por passagens estreitas, irradiando de um núcleo circular. Seu propósito permanece incerto: pode ter sido um local ritualístico, uma residência, um posto militar ou até mesmo um monumento funerário.

Kontopodi ressaltou que a forma labiríntica não possui paralelos diretos, embora lembre tanto túmulos tholos — estruturas funerárias em forma de colmeia — quanto as primeiras representações de labirintos na arte minoica. Maria Vlazaki, ex-secretária-geral do Ministério da Cultura e especialista na era minoica, reforçou que nunca se encontrou algo semelhante. Para ela, trata-se de uma construção monumental erguida em um momento em que elites locais consolidavam sua influência.

O Ministério da Cultura reconheceu a singularidade do sítio e inicialmente apontou que poderia ter sido usado para rituais, baseando-se em ossos de animais ali encontrados. Mesmo assim, o governo segue decidido a instalar a torre de radar. A ministra Lina Mendoni declarou ao Parlamento que o plano final protegerá o monumento sem comprometer a segurança aérea. Já as autoridades de aviação afirmam que analisaram 200 locais alternativos e que qualquer outro ponto deixaria uma grande lacuna na cobertura do radar, o que seria inaceitável.

A tensão aumenta

A tensão aumentou quando a empresa responsável pelas obras afirmou ter “a primeira e a última palavra” sobre as antiguidades, declaração que gerou reação imediata. Mais de 300 arqueólogos e historiadores de diversos países assinaram um documento alertando para “danos irreversíveis” ao que definem como um monumento icônico. Lideranças locais, como o prefeito de Minoa Pediada, Vasilis Kegkeroglou, levaram o caso à Justiça. Em manifestações realizadas em Heraclião e depois em Atenas, ele prometeu defender o sítio “a qualquer custo”.

A controvérsia aparece em um momento em que a Grécia, após anos de crise econômica, vive uma retomada impulsionada pelo turismo e por grandes investimentos públicos e privados. O novo aeroporto de Creta é uma resposta ao aumento do fluxo de visitantes: apenas nos primeiros dez meses de 2025, Heraclião recebeu 4 milhões de turistas estrangeiros. Por todo o país, novos metrôs, rodovias e complexos urbanos estão sendo erguidos e, junto deles, relíquias emergem do solo.

O caso mais conhecido é o metrô de Tessalônica, cuja construção revelou, em 2012, uma antiga avenida romana e bizantina. Após anos de disputas, chegou-se a um acordo que permitiu a preservação de parte dos achados in situ, embora especialistas ainda lamentem a perda da integridade original do sítio. Situações semelhantes ocorreram durante o projeto Ellinikon, um megaempreendimento urbano de bilhões de euros, e também na instalação do Oleoduto Transadriático, que revelou cerca de 400 sítios arqueológicos no norte do país.

Segundo Plantzos, o que mudou nos últimos anos não foi apenas o número de achados, mas a velocidade com que surgem. Como muitas áreas da Grécia ainda não foram profundamente mapeadas arqueologicamente, cada novo canteiro de obras pode se transformar em palco de disputa.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.