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Como soavam as cornetas de concha de 6 mil anos? Estudo revela

Testes acústicos inéditos recriam o som de trombetas de concha usadas há 6 mil anos na Catalunha, revelando potência e funções surpreendentes

Concha Charonia lampas modificada e analisada por arqueoacusticistas no estudo / Créditos: Antiquity / Cambridge University Press

Um estudo publicado nesta terça-feira, 2, na revista científica Antiquity acaba de revelar o retrato mais completo já feito sobre misteriosas trombetas de concha usadas há cerca de 6 mil anos na região da Catalunha, na Espanha. Pesquisadores analisaram acusticamente oito instrumentos neolíticos e, pela primeira vez, reconstruíram parte da paisagem sonora que acompanhava as comunidades pré-históricas instaladas entre planícies férteis, vales e áreas montanhosas do nordeste ibérico.

Esses objetos, feitos a partir de conchas da espécie Charonia lampas, impressionaram os especialistas por produzirem níveis de pressão sonora muito acima do que se imaginava para tecnologias sonoras do período. A potência obtida nos testes sugere que o som podia percorrer quilômetros, algo essencial em sociedades agrícolas densas e espalhadas por diferentes assentamentos.

Origem e contexto dos instrumentos

As trombetas foram encontradas em cinco sítios neolíticos, concentrados entre o baixo Llobregat, a depressão pré-costeira do Penedès e as minas de Gavà. Para os arqueólogos, trata-se de uma das maiores coleções conhecidas de Charonia lampas modificadas. 

Segundo a professora Margarita Díaz-Andreu, da Universidade de Barcelona, os exemplares sempre levantaram suspeitas de uso músical. A remoção do ápice das conchas, prática recorrente entre as peças, já indicava que elas poderiam funcionar como instrumentos sonoros.

Conforme informações da revista Galileu, as conchas foram coletadas apenas após a morte dos moluscos, o que reforça que o interesse estava no som e não no alimento. Como os sítios ficam relativamente próximos entre si, parte dos pesquisadores sugere que as trombetas serviam para coordenar comunidades vizinhas, orientar trabalhadores agrícolas e até auxiliar grupos que atuavam no interior das estreitas galerias das minas de Gavà, onde a variscita era extraída.

Testes acústicos revelam potência

Nos experimentos, conduzidos pelo trompetista e pesquisador Miquel López-Garcia, os instrumentos mostraram uma intensidade sonora marcante. As gravações permitiram medir alcance, versatilidade e limitações. 

Técnicas modernas como bending ou hand-stopping reduziram a energia do som e, por isso, provavelmente não eram usadas na época. Estudos citados pelos autores reforçam que instrumentos semelhantes conseguem ser ouvidos através de barreiras naturais, mesmo em terrenos acidentados.

A análise do padrão espacial da região também apoia essa interpretação. Áreas como o Penedès e a planície de Barcelona tinham alta densidade populacional, o que exigia comunicação rápida entre assentamentos. Nas montanhas, como na Cova de l’Or, o potencial de alcance ganha ainda mais relevância.

Entre comunicação e musicalidade

Embora a função principal pareça ter sido a sinalização, os testes revelaram um lado inesperadamente musical. Alguns exemplares produzem até três notas estáveis e permitem modulação tonal, o que abre espaço para pequenas melodias e sinais diferenciados. Outras experiências mostraram sons mais graves e rugosos, obtidos com vibrações labiais mais relaxadas.

O conjunto das descobertas oferece uma rara combinação entre arqueologia, acústica e experimentação musical. Graças aos testes, o som das cornetas que ecoaram há seis milênios na Catalunha volta a ser ouvido hoje.