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Estudo reescreve história das origens de antigo assentamento Neolítico da China

Novo estudo genético esclarece ancestralidade, organização social e práticas rituais no antigo assentamento neolítico de Shimao, na China

Paisagem da antiga cidade de Shimao / Crédito: Divulgação/IVPP

Um estudo genético recente está oferecendo uma visão sem precedentes sobre os habitantes de Shimao, um extenso assentamento fortificado localizado no norte da província de Shanxi, que floresceu há mais de quatro mil anos. Publicada na revista Nature, essa pesquisa busca elucidar a ancestralidade, a organização social e as práticas rituais de um dos centros urbanos mais influentes do final do Neolítico na China.

O sítio arqueológico de Shimao foi ocupado entre aproximadamente 4.200 e 3.700 anos atrás, abrangendo cerca de quatro quilômetros quadrados e dividido em zonas especializadas, caracterizadas por uma arquitetura complexa, residências de elite e evidências de atividades rituais em larga escala. Embora arqueólogos tenham reconhecido há tempos o planejamento sofisticado e a sociedade estratificada da cidade, permaneciam questões cruciais sobre as origens de seus fundadores e a organização do poder dentro dessa comunidade emergente em nível estatal.

Com o intuito de esclarecer esses aspectos, uma equipe interdisciplinar de pesquisadores do Instituto de Paleontologia Vertebrada e Paleoantropologia dedicou mais de uma década à análise dos genomas antigos de 169 indivíduos escavados em Shimao, bem como em assentamentos satélites e locais no sul de Shanxi. O sequenciamento de 144 indivíduos não relacionados possibilitou a reconstrução de linhagens multigeracionais e o rastreamento de padrões mais amplos de ancestralidade na região.

Detalhes do estudo

Os resultados indicam que a maioria dos construtores de Shimao descende de grupos locais da tradição Yangshao, uma cultura neolítica centrada no Planalto Loess. Essa continuidade remonta a pelo menos um milênio, o que sugere que Shimao não poderia ter surgido como um fenômeno súbito de migração ou substituição. Ao contrário, o desenvolvimento da cidade reflete um crescimento regional contínuo com contato constante com comunidades vizinhas.

A pesquisa também revelou influências genéticas provenientes de diversas direções: populações ligadas à cultura Taosi do sul de Shanxi, grupos relacionados aos Yumin das estepes e comunidades mais ao sul associadas ao cultivo precoce do arroz. Esses achados sugerem interações entre agricultores do norte, pastores e grupos oriundos de regiões mais subtropicais, indicando conexões culturais e econômicas mais amplas do que se imaginava anteriormente.

Um dos aspectos mais notáveis deste estudo diz respeito à estrutura social de Shimao. A equipe identificou várias linhagens familiares com múltiplas gerações — chegando até quatro — o que indica uma sociedade fortemente patrilinear e patrilocal, onde tanto a posição social quanto a residência eram transmitidas por linhas masculinas. Esse padrão parece também ter influenciado as práticas rituais da comunidade, segundo comunicado da Academia Chinesa de Ciências.

As escavações realizadas no Portão Leste de Shimao revelaram cerca de 80 crânios humanos, representando uma das maiores concentrações desse tipo conhecidas da China neolítica. Enquanto interpretações anteriores sugeriam que mulheres poderiam ter dominado esses eventos sacrificiais, a análise genética agora confirma que a grande maioria dos indivíduos encontrados era composta por homens.

As mulheres sacrificadas eram, por outro lado, mais frequentemente encontradas em zonas cemiteriais elitistas como Huangchengtai e Hanjiagedan. Essa divisão implica um sistema ritual altamente estruturado em Shimao, com gênero vinculado a certos papéis cerimoniais e locais, conforme repercute o Archaeology News.

Em conjunto, essas novas descobertas fornecem as primeiras evidências genéticas diretas para explorar como a autoridade política primitiva foi organizada no norte da China. Além disso, revelam as forças culturais, biológicas e econômicas interconectadas que moldaram Shimao como uma das primeiras sociedades urbanas em larga escala da Ásia Oriental.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.