Uruguaia sequestrada na Operação Condor recorda horror através da arte
Uruguaia sequestrada na Operação Condor, Francesca Cassariego recorda horror através da arte em nova exposição da UFRGS; confira!

Uma série de tapetes vibrantes, dispostos em pé e enrolados, ornamentam uma sala onde memórias da vida de uma jovem uruguaia são contadas através de gravações. Em uma das paredes, um vídeo exibe imagens da menina projetadas do lado externo dos muros da prisão de Punta de Rieles, em Montevidéu. Outra parede exibe uma longa fita de papel alumínio, contendo os escritos que a mãe utilizava para se comunicar enquanto estava detida. Em uma terceira parede, uma colagem de recortes de jornais e revistas narra uma história que foi compartilhada por muitos, mas não pela própria protagonista.
A menina em questão é Francesca Cassariego, atualmente com 50 anos, artista plástica e professora na Faculdade de Artes da Universidad de la República (Udelar), no Uruguai. Ela foi sequestrada aos três anos durante a Operação Condor, em um incidente ocorrido em Porto Alegre em novembro de 1978.
As obras fazem parte da exposição intitulada “Ainda que não recorde“, inaugurada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em um momento significativo: a semana que marca os 50 anos do início do plano repressivo internacional que uniu as ditaduras do Cone Sul. A Operação Condor, patrocinada pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria, operou entre 1975 e 1981, envolvendo formalmente os regimes da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai.
Francesca descreve suas obras como reflexões de uma mente sem memórias concretas, mas ainda assim repleta de sentimentos. “É uma tentativa de reconstruir a ausência de recordações. A gente costuma chamar de recordação aquilo que vê que aconteceu. Como eu não tinha isso, era muito pequena, era como se tivesse acontecido com outra pessoa. Mas em algum momento precisei entrar em contato com isso. Me dei conta de como essa história me formou como pessoa, ainda que eu não recorde”, conta em entrevista a Fernanda Canofre, da Folha de S. Paulo.
Memórias sombrias
O irmão dela, Camilo Casariego, hoje com 54 anos, carrega suas próprias memórias marcadas pela dor. Ele recorda com clareza as tapeçarias enroladas ao seu redor durante os deslocamentos forçados pelos militares. Embora Francesca não tenha lembranças desse período, seu corpo parece ter registrado a experiência traumática — ela ainda sente desconforto ao cobrir a cabeça e enfrenta episódios de claustrofobia.
Camilo expressa sua realidade: “Não tenho recordações anteriores ao sequestro. É como se minha vida começasse por volta dos 8 anos, quando terminou a minha infância. Eu seguia sendo uma criança, mas roubaram de mim aquela felicidade e inocência infantil”.
A dupla foi sequestrada juntamente com sua mãe, Lilián Celiberti, militante política que agora tem 75 anos. Após um período de exílio na Itália — onde Francesca nasceu — Lilián decidiu retornar à América do Sul para atuar nas denúncias contra a ditadura militar uruguaia.
No Brasil, outros compatriotas ligados ao Partido pela Vitória do Povo (PVP) já estavam presentes. Universindo Díaz foi um dos militantes que se uniu à família em um apartamento na Rua Botafogo no bairro Menino Deus em Porto Alegre — uma vizinhança que continua tranquila e residencial até hoje.
No entanto, essa calmaria foi interrompida em um domingo de novembro quando Lilián foi abordada por militares na rodoviária enquanto aguardava um contato. A partir daí, o apartamento da família foi revistado e os filhos foram levados junto com a mãe. Esse evento mudaria para sempre o curso das vidas deles.
Naquela madrugada fatídica, após vivenciarem um fuzilamento simulado na fronteira com Santa Teresa, Lilián retornou a Porto Alegre sob custódia militar enquanto seus filhos foram enviados a Montevidéu — uma separação dolorosa que se estenderia por anos.
Camilo se viu sozinho e incumbido da responsabilidade pela irmã mais nova; ele tornou-se uma testemunha crucial para identificar os brasileiros envolvidos nas operações repressivas e validar a colaboração entre agentes dos dois países dentro do escopo da Operação Condor.
A reflexão de Francesca sobre o tratamento dado às crianças durante esse período é clara: “Havia ações sistemáticas contra crianças. Nós não éramos só efeito colateral dos nossos pais e mães, mas a apropriação, o ato de entregar a outras famílias para dar outra educação, era como se nos considerassem pequenos ou futuros terroristas”.
De acordo com o projeto Plan Cóndor — que compila dados sobre esta operação — das 805 vítimas documentadas até o momento, 55 eram crianças ou adolescentes. Dentre elas, cerca de 48% eram uruguaias. Francesca Lessa, pesquisadora na University College London e autora de ‘The Condor Trials’, explica que isso ocorre porque muitos uruguaios conseguiram buscar refúgio em países vizinhos enquanto as repressões na Argentina e no Chile ocorreram imediatamente.
Operação Condor
A criação oficial da Operação Condor é datada de 28 de novembro de 1975 — dia em que representantes militares assinaram uma ata em Santiago do Chile estabelecendo um sistema colaborativo para repressão política. Além dos chilenos, outros países como Argentina, Bolívia e Paraguai também participaram desse pacto inicial.
No Brasil foram registradas 33 vítimas segundo os dados disponíveis; embora não tenha assinado oficialmente a ata fundadora da operação, o país teve um papel relevante ao introduzir práticas repressivas desde o final da década de 1960 após o AI-5 (Ato Institucional nº 5).
Lessa ressalta que casos de colaboração já existiam desde pelo menos 1969 quando o jornalista brasileiro Jorge Miranda Jordão foi sequestrado sob solicitação do regime militar brasileiro no Uruguai. Apesar do término oficial da operação em 1978, as consequências continuaram até 1981 com perseguições realizadas em treze países latino-americanos e quatro europeus.
A pressão pública foi essencial para diferenciar o desfecho do caso dos uruguaios em comparação a muitos outros casos trágicos dessa época. Um telefonema anônimo à redação da revista Veja levou o jornalista Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo JB Scalco a flagrar Lilián sendo abordada por agentes militares cinco dias após sua separação dos filhos — fato que gerou ampla cobertura midiática e mobilização pela libertação dela e das crianças.
Importância de recordar
Lilián enfatiza a importância da memória coletiva ao afirmar: “Chegamos até aqui porque, antes que a Francesca [Cassariego] pudesse se expressar com esse trabalho, houve uma mobilização coletiva e social pela verdade. Por isso fazemos memória e falamos sobre o que aconteceu. Não se trata de contar as torturas que cometeram, como fizeram, mas falar das formas de poder de antes e de agora”.
No final de dezembro de 2022 — exatamente 44 anos após seu sequestro — Francesca recebeu a notícia da premiação para realizar sua exposição justamente quando surgiram novas informações sobre a prisão dos ex-militares envolvidos na história dela. A exposição permanece aberta ao público em Porto Alegre até março deste ano.
A artista expressa sua visão sobre justiça: “Tarda a justiça. Isso deveria ter acontecido antes, foram mais de 40 anos de impunidade total. É importante que se chegue à verdade. Como damos garantias de que nunca mais aconteça? Com justiça. Se amanhã alguém quiser tentar um novo golpe de Estado, sabe que vai haver consequências”.