Vítor Soares / Curiosidades

Imperatriz Matilda: a mulher esquecida que quase foi a primeira rainha da Inglaterra

Filha de Henrique I, Matilda teve uma trajetória notória na realeza e quase se tornou a primeira rainha da Inglaterra por direito; confira!

Antiga representação da Imperatriz Matilda / Crédito: Domínio Público

Hoje, a monarquia britânica tem como grande figura central o rei Charles III, que ascendeu ao trono como rei após a morte de sua mãe, a rainha Elizabeth II, em 2022. Ela, por sua vez, certamente entra para a história com um dos reinados mais longos que a Europa já viu, durando 70 anos — o que chama ainda mais atenção, considerando o fato de que ela é uma mulher.

Porém, Elizabeth II está longe de ser a primeira rainha que a Inglaterra já viu. Outras rainhas notáveis que valem menção são a rainha Vitória — cujo reinado durou de 1837 até 1901, no que foi a Era Vitoriana — e, com ainda mais destaque, Maria I — também conhecida como Maria Tudor, ou “Maria Sangrenta” —, que reinou entre 1553 e 1558 e foi a primeira mulher a governar a Inglaterra por direito próprio.

No entanto, uma figura quase esquecida da história britânica, quase sendo coroada como a primeira rainha 400 anos antes de Maria Tudor, foi a Imperatriz Matilda. No início do século 12, ela era a única herdeira do trono britânico; mas, mesmo sendo apoiada pelo pai, Henrique I, não conseguiu alcançar o feito histórico inédito por um simples fator: ela era uma mulher. Conheça mais sobre sua história!

Imperatriz Matilda

Nascida no dia 7 de fevereiro de 1102, filha do rei Henrique I, Matilda era a primogênita do rei, mas que, devido às regras de sua época, não seria a herdeira imediata do trono, pois esse título era destinado ao filho homem mais velho do monarca. Porém, com apenas oito anos, ela foi enviada para a Alemanha para se casar com Henrique V da Alemanha, então Sacro Imperador Romano.

Por mais que ser separada dos pais tão jovem possa parecer extremamente duro, Matilda encarou seu destino com bastante coragem, e se adaptou à corte alemã, aprendendo a sobreviver longe de sua poderosa família. “Este é o meu destino. É isso que vou fazer”, teria dito ela na época.

Essa incrível determinação, por sua vez, impressionou seu marido, que, após a coroar imperatriz do Sacro Império Romano-Germânico em 1114, passou a tratar não apenas como esposa — cujo papel seria limitado apenas a lhe gerar herdeiros —, mas também como conselheira política e verdadeira companheira.

Segundo o National Geographic, ele confiava nela ao ponto de, em 1118, nomeá-la como sua regente; e, quando Henrique V precisou se ausentar para lutar em uma série de guerras estrangeiras, ele declarou Matilda como competente o suficiente para assumir o controle da Itália.

Destino dividido

No entanto, a década de 1120 foi marcada por uma série de tragédias em torno de Matilda. Especificamente, em 1120, ocorreu o naufrágio do Navio Branco no Canal da Mancha, que acabou vitimando o irmão de Matilda e sucessor do trono britânico, Guilherme Adelino; e cinco anos depois, em 1125, o marido de Matilda, Henrique V, morreu devido a uma doença. E a junção desses fatores colocou o destino da imperatriz em dúvida.

Ela retornou à Inglaterra, agora como uma jovem viúva sem filhos e ex-imperatriz. No entanto, seus anos no exterior e as habilidades que aprimorou na corte estrangeira acabaram intrigando seu pai, quando ela voltou para casa.

Antiga representação da Imperatriz Matilda / Crédito: Getty Images

É dito que, após o naufrágio do Navio Branco, “o rei nunca mais sorriu”, tendo em vista que sua linhagem ficou ameaçada. Ele tentou desesperadamente gerar outro herdeiro homem, mas não teve sucesso, e por isso começou a lidar com a possibilidade de perder toda a sua dinastia.

Porém, quando observou Matilda em sua corte, encontrou alguma esperança na filha. Em 1127, ele reuniu a nobreza para anunciar uma mudança inédita no plano de sucessão, determinando que Matilda e qualquer um de seus herdeiros homens dariam continuidade à sua linhagem. Henrique I também negociou um novo casamento para a filha, dessa vez com Godofredo de Anjou, que controlava a Normandia, no norte da França — uma região que o monarca britânico desejava a muito governar.

Em seus últimos anos de vida, Henrique I insistiu que seus nobres jurassem fidelidade à Matilda, até que ele morreu em 1135. No entanto, essa lealdade se mostrou surpreendentemente frágil, e logo após a morte do monarca, teve início uma corrida desenfreada entre a nobreza inglesa para destroná-la e reivindicar a coroa.

Inglaterra dividida

Por mais que tivesse apoio explícito do pai e da linhagem real que o respaldava, Matilda ainda enfrentou o receio de muitos nobres ingleses — mas que, enquanto Henrique I ainda estava vivo, não tinham coragem de expressar essas preocupações.

Alguns desses nobres diziam que Matilda era “estrangeira demais” para ser aceita como rainha da Inglaterra; outros, a consideravam muito desconhecida pelo público, visto que passou grande parte de sua vida no exterior. Havia ainda aqueles que acreditavam que seu novo marido, Godofredo, teria suas próprias ambições para o trono. Mas, no fim, toda a raiz dessas críticas estava no fato de Matilda ser mulher, de acordo com Catherine Hanley, historiadora medieval e autora de ‘Matilda: Imperatriz, Rainha e Guerreira’.

Se Henrique I tivesse deixado o trono para um filho adulto capaz, inteligente, educado e com experiência internacional e política, você acha que alguém teria questionado isso?”, afirma Hanley. “O fato de estarem questionando se deve inteiramente ao fato de Matilda ser mulher”.

Assim, por mais que tivesse uma experiência bastante considerável e elogiável como imperatriz do Sacro Império Romano-Germânico, Matilda ainda precisava enfrentar nobres ambiciosos, intrigas palacianas e o sexismo de seu tempo.

Em 1135, grávida de seu terceiro filho, ela não pôde viajar da França a tempo para sua coroação, e seu primo, Estêvão de Blois, aproveitou a oportunidade para usurpar o trono — mesmo tendo sido um dos homens que lhe juraram lealdade quando Henrique I ainda era vivo. E essa traição serviu como estopim para um período bastante turbulento e brutal da história britânica, uma guerra civil de 15 anos que ficou conhecida como “a Anarquia“.

Antigas representação da imperatriz Matilda e de Estêvão de Blois / Crédito: Domínio Público

A Anarquia

Sem uma experiência militar e honrarias comparadas às de Estêvão, Matilda iniciou a Anarquia com uma grande desvantagem. Ainda assim, para sua sorte, ela conseguiu um aliado valioso para si: seu meio-irmão ilegítimo, Roberto, Conde de Gloucester, que não tinha qualquer pretensão ao trono. Ele apoiou Matilda com seu poderio militar e fornecendo sua própria fortaleza, no sudoeste da Inglaterra, o que foi crucial para que ela se mantivesse firme durante a Anarquia.

Enquanto Roberto liderava as campanhas militares, Matilda não esteve parada, se concentrando em trabalhar na administração da guerra, arrecadando fundos, mobilizando apoio e negociando acordos com outros nobres poderosos.

Mas, mais uma vez, o sexismo foi uma barreira. Fontes da época frequentemente descreviam-na como uma mulher “arrogante”, tendo em vista que, naquele período, esperava-se que as mulheres fossem dóceis e submissas. Por isso, vários desses nobres — exceto por Robert — sequer permaneceram leais, no fim das contas.

Foi só em 1141 que a guerra teve uma virada, e as forças de Matilda conseguiram derrotar as de Estêvão na Batalha de Lincoln. Estêvão foi preso, e Matilda assumiu o título de “Senhora dos Ingleses” ou “Senhora da Inglaterra e da Normandia”, até que, finalmente, pudesse chegar a Londres para garantir sua coroação.

No entanto, enquanto muitos governantes decidiriam por manter Estêvão preso, ou até mesmo o executar, Matilda foi mais piedosa: em troca do retorno seguro de Roberto, que havia sido capturado, ela decidiu libertar Estêvão — que, imediatamente, pegou novamente em armas contra a futura rainha.

Dessa forma, a coroação de Matilda precisou ser adiada mais uma vez, o que desencadeou uma série de distúrbios civis violentos em Londres. Isso forçou a imperatriz e suas tropas a recuarem, e prolongou a Anarquia por mais 10 anos, com batalhas sangrentas e brutais.

Matilda foi presa em duas ocasiões, mas conseguiu fugir engenhosamente em ambas as ocasiões. Na primeira delas, ela escapou de sua cela na torre da prisão durante o cerco de Oxford, e atravessou um rio congelado a pé, vestida com uma capa branca para se camuflar na neve; já na outra ocasião, quando foi mantida presa em Wiltshire, ela teria se disfarçado de cadáver e se escondido em uma pira funerária, antes de ser resgatada por Roberto.

Ilustração representando a fuga de Matilda do Castelo de Oxford / Crédito: Domínio Público

Fim do conflito

Durante a guerra, Roberto morreu em 1147, e o filho de Matilda, Henrique II, assumiu seu lugar na batalha. Mesmo após tanto tempo, Estêvão não conseguiu tomar o controle da fortaleza de Matilda e, em 1153, os dois finalmente concordaram com uma paz provisória, estabelecendo o Tratado de Westminster.

O que foi estabelecido foi que Estêvão poderia seguir no trono, contanto que nomeasse Henrique II como seu herdeiro. A proposta foi aceita, e Estêvão morreu apenas um ano depois, permitindo que, finalmente, o filho de Matilda assumisse o trono que, originalmente, foi prometido para sua mãe.

Matilda então viveu o restante de sua vida na Normandia, até morrer de causas naturais em 1167, aos 65 anos. O epitáfio de seu túmulo diz: “Grande por nascimento, maior por casamento, a maior em sua descendência: aqui jaz Matilda, filha, esposa e mãe de Henrique”.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.