Piloto se torna a 1ª brasileira comandante do Airbus A380
Após 28 anos de desafios e resistência, Karina Buchalla conquista posto inédito na Emirates e celebra trajetória marcada por resiliência

“Nunca desistam dos sonhos”. A frase, dita com firmeza por Karina Buchalla Lutkus, de 46 anos, resume a jornada que a levou a um marco histórico: tornar-se a primeira brasileira a comandar um Airbus A380 da Emirates, o maior avião comercial do mundo. O feito foi confirmado em 27 de outubro deste ano, coroando quase três décadas de dedicação, obstáculos e persistência.
Filha de piloto, Karina decidiu cedo que seguiria os passos do pai. Ainda adolescente, enfrentou dúvidas, preconceitos e tentativas de fazê-la desistir. No entanto, ela manteve o foco. “É um misto de realização, felicidade e vitória”, contou ao g1, ao relembrar a emoção do voo de checagem que confirmou sua promoção.
Começo
O início da carreira foi em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Aos 16 anos, ela declarou ao pai — então comandante da Varig — que queria ser piloto. Preocupado com o preconceito que ela poderia enfrentar, ele a levou ao aeroclube para um voo de instrução. Pediu ao instrutor para realizar manobras radicais, numa tentativa de testá-la. Mas o efeito foi o oposto. “A cada manobra, eu gostava mais”, lembra.
Com aprovação dos pais, Karina iniciou a formação. Porém, o caminho foi árduo. Ela ouviu colegas dizendo que “pilotar não era coisa de mulher” e chegou a ser impedida de voar durante o curso. Mesmo assim, persistiu. Trabalhou em aerotáxi sem salário, apenas para acumular horas de voo. Mudou-se para Cuiabá. Voltou para São Paulo. E nunca abandonou o objetivo.
Em 2001, passou em todas as etapas de seleção da Varig. Mas o atentado de 11 de setembro cancelou a contratação. No ano seguinte, entrou na TAM. Treinou, vestiu o uniforme e estava pronta para seu primeiro voo — até ser demitida um dia antes, após dois acidentes da companhia. Só em 2004 retornou à empresa, onde construiu uma sólida trajetória, operando Fokker 100, Airbus 320 e Airbus 330, e sendo promovida a comandante.
Realização
O sonho de voar em uma grande companhia internacional, porém, falou mais alto. Após a morte do pai, Karina decidiu buscar a vaga na Emirates. Lá, o processo para se tornar comandante começa no primeiro dia. Envolve simuladores, testes teóricos, entrevistas e rigorosos treinamentos. Após acumular horas e cumprir todos os requisitos, ela se tornou elegível ao upgrade.
Segundo o G1, foram três meses de curso, instrução em rota e, por fim, o cheque final. “Quando finalizei o último voo, o examinador me deu parabéns. Naquela hora, eu tive certeza. Foi o momento mais emocionante da minha carreira”.
Hoje, Karina vive em Dubai com o marido — piloto aposentado — e os dois filhos pequenos. Divide a rotina entre longos voos, equilíbrio familiar e uma qualidade de vida que ela descreve como “excelente”. Em viagens de 15 ou 16 horas, opera com equipes de quatro pilotos, revezando descanso em áreas reservadas.
Pilotar um A380, diz ela, é uma experiência incomparável. “É incrível comandar uma aeronave desse porte, com tanta tecnologia e segurança. É muito gratificante”.