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Estudo da USP detecta Césio-137 no Rio Ribeira, no interior do estado de São Paulo

Césio-137 encontrado recentemente no Rio Ribeira seria resultado dos testes nucleares da Guerra Fria, de acordo com pesquisadores

Imagem ilustrativa - Crédito: Getty Images

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) realizaram um estudo que revela a presença de césio-137 em sedimentos da planície fluvial do Rio Ribeira de Iguape, localizada no interior do estado de São Paulo. Este radionuclídeo, resultante dos testes nucleares realizados entre as décadas de 1950 e 1980, representa um dos vestígios da influência humana sobre o meio ambiente, caracterizando o que muitos especialistas já chamam de Antropoceno, embora sua oficialização como uma nova era geológica ainda esteja em debate.

A pesquisa foi conduzida pelo geógrafo Breno Schmidtke Rodrigues, que apresentou sua dissertação de mestrado sob a orientação da professora Cleide Rodrigues e coorientação do professor Rubens Cesar Lopes Figueira. Rodrigues destaca que o césio-137, disseminado globalmente devido aos testes nucleares, não possui relação com o acidente radiológico ocorrido em Goiânia em 1987 e aparece em concentrações consideradas seguras para a saúde humana.

De acordo com o pesquisador, “o césio-137 foi disseminado globalmente a partir de testes atmosféricos de bombas nucleares realizados entre as décadas de 1950 e 1980”. Esse período é notório na história ambiental como a “Grande Aceleração”, momento em que as atividades humanas começaram a ter um impacto mais intenso sobre a Terra.

Segundo o portal de notícias G1, embora o uso do césio-137 seja uma referência importante, Rodrigues enfatiza que isso não implica que o Antropoceno tenha sido formalmente reconhecido como uma nova unidade do tempo geológico. “Atualmente, o Antropoceno é considerado por alguns pesquisadores como um evento geológico e utilizado como categoria analítica por outros”, explica.

Coletando amostras

A pesquisa envolveu a coleta de amostras em quatro locais distintos ao longo da planície fluvial do Ribeira: no canal principal, em áreas alagáveis, numa bacia de decantação e em um meandro abandonado. Os resultados laboratoriais indicaram a presença de césio-137 em todas as amostras, sendo que as maiores concentrações foram detectadas nas áreas onde os sedimentos se acumulam mais lentamente.

O estudo também revelou um pico significativo na deposição de césio-137 entre 1963 e 1964, coincidente com os picos globais de precipitação radioativa provenientes dos testes nucleares da Guerra Fria.

Sem riscos à saúde

Em relação aos riscos à saúde pública e ao meio ambiente, o pesquisador assegura que os níveis encontrados são residuais e não representam qualquer ameaça. A dinâmica natural do rio, incluindo processos de erosão e deposição, influencia onde esses elementos se acumulam, o que pode oferecer novas informações sobre o comportamento de outros contaminantes presentes nos ecossistemas aquáticos.

Do ponto de vista ambiental, o estudo ressalta que as marcas deixadas pela ação humana perduram mesmo em regiões consideradas intactas. Para Rodrigues, essas evidências não apenas documentam o impacto humano, mas também servem como um alerta sobre a necessidade urgente de proteger e gerir adequadamente os recursos hídricos. “Os traços de Cs-137 em si não oferecem risco, mas podem ser um alerta para pensarmos na conservação desses sistemas, que no Brasil são uma das principais fontes de água para abastecimento público”, conclui.

A equipe da USP planeja publicar os resultados em revistas científicas especializadas e expandir a pesquisa para outros rios no estado.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.