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A história do operário irlandês que buscou fama em um caixão

Documentário resgata a incrível e trágica jornada de Mick Meaney, o homem que tentou se tornar o maior artista funerário do mundo

Mike Meaney dentro do caixão - TG4

Em 1968, no coração da comunidade irlandesa de Londres, um operário pobre decidiu entrar para a história de uma forma tão ousada quanto macabra: deixando-se enterrar vivo. Mick Meaney, um robusto trabalhador de Tipperary, acreditava que permanecer mais tempo sob a terra do que qualquer outro artista funerário garantiria a ele fama, fortuna e um lugar permanente na memória do mundo.

A tradição dos chamados “artistas funerários” – pessoas que demonstravam resistência ficando enterradas vivas – havia surgido na Califórnia na década de 1920 e, nos anos 60, ganhado notoriedade nos EUA. O recorde não oficial pertencia ao texano Bill White, o “cadáver vivo”, que suportara 55 dias sob a terra para promover negócios locais. Determinado a superá-lo, Meaney, então com 33 anos, contou com a ajuda do empresário e ex-artista de circo Michael “Butty” Sugrue. Foi ele quem organizou um velório simbólico no pub Admiral Nelson, de onde o caixão – de 1,90 m de comprimento, 76 cm de largura e equipado com ar e alimentação por um tubo – seguiu em procissão até um canteiro de obras em Kilburn.

Como foi?

Enterrado no dia 21 de fevereiro, Meaney adotou uma rotina dentro do caixão: despertava às 7h, realizava exercícios limitados, lia jornais, conversava ao telefone e se mantinha mentalmente ativo. Celebridades irlandesas, como o boxeador Henry Cooper, chegaram a ligar para ele, em chamadas cobradas por Sugrue no pub que virou ponto de romaria.

O interesse, porém, diminuiu conforme o mundo voltava suas atenções para eventos históricos como a Guerra do Vietnã e o assassinato de Martin Luther King. Ainda assim, após 61 dias, Meaney foi desenterrado em 22 de abril diante de uma multidão e proclamado “campeão mundial” por Sugrue. Sorrindo atrás de óculos escuros, afirmou que poderia continuar por cem dias a mais.

A glória, no entanto, evaporou rapidamente. Prometidos patrocínios e uma turnê internacional nunca se concretizaram, e o Guinness não registrou o feito. Tim Hayes, um rival, contestou o recorde, e meses depois uma ex-freira, Emma Smith, bateu-o ao permanecer 101 dias enterrada. De volta à Irlanda, Meaney retomou a vida comum, trabalhando para o conselho do condado de Cork até sua morte, em 2003.

Agora, segundo o ‘The Guardian’, sua história renasce no documentário “Beo Faoin bhFód” (Enterrado Vivo), dirigido por Daire Collins e exibido pelo canal irlandês TG4. Em depoimento, sua filha Mary resume o legado do pai: “Ele poderia ter vivido uma vida comum, mas ansiava por algo extraordinário. Quebrar o recorde o fez sentir: ‘Eu sou alguém'”.