Soldados americanos em trincheira durante a Guerra do Vietnã - Getty Images
Em 1975, no auge da guerra do Vietnã, a Operação Babylift mobilizou esforços para levar milhares de bebês e crianças órfãs ou vulneráveis para fora do país devastado pelo conflito. A missão, carregada de emoção e controvérsia, permaneceu cercada de lacunas documentais.
Conforme relata o Smithsonian Magazine, meio século depois, uma adotada chamada Devaki Murch descobriu em um porão de freira no Colorado uma remessa de papéis que estavam escondidos há décadas — documentos que poderiam mudar o entendimento oficial sobre como a operação foi conduzida e quais registros realmente existiram.
Murch visitava a irmã Mary Nelle Gage, uma freira envolvida nas adoções durante a Babylift, para tratar da preservação da memória histórica. Durante a visita, ela percebeu caixas empilhadas no porão contendo registros antigos: listas de orfanatos, inventários de crianças, manifestos de voos de evacuação, correspondências, fotografias e outros papéis que haviam sido mantidos em segredo ou esquecidos com o tempo.
Muitos dos documentos eram frágeis, fragmentados e desorganizados, mas continham nomes, datas, destinos e até notas sobre quem embarcou e quem sobreviveu.
Operação no Vietnã
Entre as descobertas estava uma lista manuscrita datada de 2 de abril de 1975 com o nome de crianças consideradas aptas para viajar, bem como um documento posterior apontando quem havia morrido no acidente de avião ocorrido durante um dos voos da evacuação. Havia ainda uma “lista de substituição” que atribuía novas crianças a famílias dos adotados que não sobreviveram.
Esse acervo recuperado por Murch veio à tona depois que ela publicou um livro sobre a Babylift, despertando interesse de outros adotados que ansiavam por pistas sobre suas origens.
Uma dessas pessoas era Aryn Lockhart, outra sobrevivente da operação. Lockhart sempre acreditou ter estado no voo que caiu em 4 de abril de 1975 — episódio que matou dezenas de crianças e adultos. Muitas versões oficiais afirmavam que ela estava naquele avião, mas nos documentos encontrados por Murch seu nome não aparecia nos manifestos dos voos de resgate posteriores, gerando dúvidas profundas.
Registro de chegada de bebês da operação – Domínio público
Lockhart já suspeitava de lacunas no relato oficial: em sua família adotiva sempre contaram que ela sofreu trauma no ouvido compatível com descompressão, uma pista médica relacionada a acidentes aéreos. Também lhe disseram que a freira que a entregou havia falecido no mesmo voo de evacuação.
Agora, confrontada com os papéis recém-descobertos, Lockhart se vê dividida: aceitar seu passado como uma “área cinzenta” ou insistir numa busca que pode nunca ter resposta definitiva.
A recuperação desses documentos abre caminho para uma nova classificação da Babylift: até agora, muitos registros haviam sido destruídos ou mantidos ocultos, possivelmente para proteger envolvidos ou encobrir irregularidades. Os arquivos da operação foram alegadamente queimados ou perdidos após a evacuação, o que impedia reconstruir com precisão o que ocorreu.
Agora, ao reordenar listas, compará-las, digitalizá-las e disponibilizá-las em um banco de dados para todos os adotados, Murch espera tornar pública uma história fragmentada — e dar a eles uma base documental mais sólida para reivindicar identidade e verdade.
Embora o trabalho esteja longe de ser terminado, as implicações são profundas. Muitos adotados cresceram sem saber seus nomes verdadeiros, data de nascimento ou cidade natal. Para eles, encontrar esses dados é mais que curiosidade: é recuperar a própria origem.
Ao mesmo tempo, essas evidências recém-exumadas podem influenciar debates legais, ações de reparação ou reconhecimento de responsabilidades entre entidades religiosas, agências governamentais e organizações que atuaram no resgate.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli
Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.