Ao longo da costa da China, especialmente nas águas ao redor da ilha de Hainan, arqueólogos vêm desvendando um vasto conjunto de naufrágios que ajuda a recontar a história do comércio entre o Extremo Oriente e outros continentes. Esses achados reforçam a importância da chamada Rota Marítima da Seda e colocam luz sobre um capítulo menos explorado da história chinesa, frequentemente retratada como voltada ao interior, distante das grandes rotas oceânicas.
As embarcações recuperadas datam de dinastias como a Song, que governou entre os séculos 10 e 13, e a Ming, que se estendeu do século 14 ao 17. Entre os casos mais impressionantes está o navio conhecido como Huaguangjiao One, que teria naufragado por volta de 1162 enquanto transportava milhares de peças de porcelana e cerâmica destinadas ao comércio exterior.
A análise dessa carga aponta para uma produção em larga escala, sugerindo a existência de mercados globais e dinâmicos, muito além do tradicional comércio de luxo que costuma ser associado às antigas rotas da Ásia.
Tesouros da China
O estudo desses navios revela como a China atuou, durante séculos, como protagonista marítima. As embarcações descobertas apresentam tecnologias navais surpreendentes, como compartimentos estanques, cascos reforçados e sistemas avançados de navegação. No caso do Huaguangjiao One, foram identificados mais de dez compartimentos estanques e um casco típico das embarcações da província de Fujian, projetado para resistir até mesmo a pragas marinhas capazes de corroer madeira. Esses detalhes evidenciam uma engenharia robusta e sofisticada.
Os naufrágios também mostram que a circulação não era apenas de produtos de exportação, mas de uma rede bilateral muito mais complexa. Dois navios da dinastia Ming, por exemplo, oferecem um retrato dessa diversidade: um deles carregava porcelanas para mercados estrangeiros, enquanto o outro transportava toras de madeira, incluindo ébano, importado de outras regiões da Ásia.
Esse movimento indica que a China não apenas distribuía bens manufaturados pelo mundo, mas também absorvia matérias-primas valorizadas, ampliando seu repertório cultural e econômico.
Revisitando dinastias
Essas descobertas desafiam uma visão muito difundida de que, durante a dinastia Ming, especialmente sob o imperador Hongwu, a China teria se afastado completamente das rotas marítimas por causa das severas restrições à navegação. Os navios submersos sugerem que, mesmo diante de proibições formais, o comércio marítimo continuou ativo. É provável que muitas dessas transações ocorressem de maneira indireta ou sob jurisdições regionais menos rígidas, criando uma tensão histórica entre controle estatal e práticas comerciais.
Outra consequência importante desses achados é a reavaliação da própria Rota da Seda. Por muito tempo, a imagem popular se concentrou nas caravanas terrestres cruzando desertos e montanhas. Entretanto, os naufrágios mostram que o fluxo marítimo era muito mais volumoso e eficiente. Uma única embarcação poderia carregar mais do que várias caravanas juntas, além de cobrir distâncias maiores em menos tempo. Isso reposiciona o mar como um protagonista central da conexão entre Leste e Oeste.
Cerâmicas da dinastia ming encontradas no naufrágio – Museu do Mar do Sul da China (Hainan)
A tecnologia naval chinesa, revelada pelas escavações, reforça essa visão. O uso sistemático da bússola, do casco compartimentado e de estruturas internas que facilitavam o transporte seguro de mercadorias mostra um conhecimento que influenciaria inclusive o Ocidente séculos depois. Há registros, por exemplo, de engenheiros britânicos na Era Moderna estudando técnicas chinesas ao desenvolver novos padrões de construção naval.
Recuperação dos tesouros
No campo da preservação, museus como o China Museum of the South China Sea, inaugurado em 2018, assumiram um papel fundamental ao reunir artefatos provenientes de mais de quinze naufrágios. A instituição oferece ao público a possibilidade de acompanhar essa história através dos objetos recuperados, que funcionam como testemunhos diretos das trocas culturais e econômicas realizadas ao longo dos séculos. Em 2022, o uso de submersíveis avançados permitiu explorar dois navios Ming localizados a cerca de 1.500 metros de profundidade, mostrando como a arqueologia marinha segue avançando rapidamente.
Para quem observa a relação entre objetos, circulação e cultura, esses naufrágios funcionam quase como textos submersos. Cada peça recuperada indica caminhos, escolhas estéticas, tensões econômicas e relações de poder. São artefatos que ajudam a decifrar não apenas o comércio, mas o imaginário global da época. A porcelana, os jarros, as peças de mármore, todos eles operam como signos que cruzaram fronteiras, ganharam novos sentidos e se transformaram ao longo das rotas.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli
Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.