Expedição a Guadalcanal: Os destroços de navios da Segunda Guerra Mundial
Mais de 80 anos após o confronto decisivo da Segunda Guerra Mundial, Bob Ballard revela novas imagens dos navios nas Ilhas Salomão

O caçador de naufrágios Bob Ballard relembra com emoção o solene senso de dever que sentiu há mais de 30 anos, quando explorou pela primeira vez o Estreito de Iron Bottom, uma faixa de água ao lado da ilha de Guadalcanal, nas Ilhas Salomão, no Pacífico Sul. Esse local foi o palco de alguns dos combates mais sangrentos da Segunda Guerra Mundial, quando as forças aliadas — principalmente americanas — enfrentaram a Marinha Imperial Japonesa em batalhas que duraram de agosto de 1942 a fevereiro de 1943.
A campanha de Guadalcanal marcou um ponto de virada na Guerra do Pacífico. A vitória americana, conquistada cerca de 14 meses após o ataque a Pearl Harbor, deu início à fase final do conflito, que culminaria na rendição japonesa em 1945. “Esta foi a primeira batalha que o Japão perdeu de forma significativa”, recorda Ballard, explorador da National Geographic. “Foi quando o Sol Nascente começou a se pôr”.
Dois anos após a vitória em Guadalcanal, o Japão se rendeu formalmente em 2 de setembro de 1945, a bordo do USS Missouri, após os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki.
Cemitério sob o mar
Antes do conflito, o estreito era conhecido como Estreito de Savo, em homenagem à ilha próxima. Depois da guerra, ganhou o nome sombrio de Iron Bottom Sound (“Fundo de Ferro”), por causa dos mais de cem navios de guerra que afundaram ali durante os combates.
Os sete confrontos navais e três grandes batalhas terrestres da campanha ceifaram mais de 27 mil vidas em ambos os lados. Os destroços repousam a cerca de 600 metros de profundidade — inacessíveis a mergulhadores humanos — e permanecem como um testemunho silencioso da brutalidade da guerra.
Em julho passado, Ballard e sua equipe, a bordo do navio de exploração E/V Nautilus, retornaram ao local com tecnologia subaquática avançada. Eles examinaram 13 naufrágios em Iron Bottom Sound, incluindo alguns nunca vistos desde que afundaram, como o destróier japonês Teruzuki e a proa do cruzador americano USS New Orleans.
As imagens foram transmitidas ao vivo do Nautilus para pesquisadores e para o público. Entre os espectadores, estavam familiares de marinheiros mortos. Um deles, Geoffrey Roecker, escreveu: “Meu tio-avô, o tenente-comandante Edmund Billings, estava na ponte de comando do USS Quincy quando ele foi atingido. Suas últimas palavras foram: ‘Tudo ficará bem, o navio afundará lutando’. E certamente afundou”.
Ajuda da tecnologia
O Nautilus é operado pelo Ocean Exploration Trust, fundado por Ballard, e a expedição foi financiada principalmente pela NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA). Além da equipe americana, participaram pesquisadores das Ilhas Salomão, da Austrália e do Japão.
Para localizar os destroços, os cientistas usaram uma embarcação de superfície não tripulada, chamada DriX, equipada com sonar de mapeamento de alta precisão. Quando o DriX identificava um alvo, os exploradores lançavam veículos subaquáticos operados remotamente — os ROVs Hércules e Atalanta — capazes de suportar a intensa pressão das profundezas.
Essas operações exigem precisão extrema. O Hércules ficava conectado ao Atalanta, que por sua vez estava ligado ao Nautilus na superfície, em uma configuração apelidada de “passear com o cachorro”. Essa técnica isolava o Hércules dos movimentos do navio, permitindo um controle estável e seguro durante as filmagens.
Novos olhares
Entre os naufrágios explorados, o Teruzuki, da Marinha Imperial Japonesa, foi encontrado pela primeira vez desde que afundou em 12 de dezembro de 1942, após ser atingido por torpedos americanos enquanto escoltava um comboio de suprimentos. O navio fazia parte do chamado “Expresso de Tóquio”, tática noturna usada pelos japoneses para reabastecer suas tropas em Guadalcanal.
“Nós controlávamos o ar, mas eles dominavam a noite”, explica Ballard. “Os japoneses eram extremamente capazes em combate noturno, especialmente com seus torpedos Long Lance”.
Outro achado marcante foi a proa do USS New Orleans, arrancada por um torpedo japonês durante a Batalha de Tassafaronga, em 30 de novembro de 1942. A explosão matou mais de 180 tripulantes, mas o navio conseguiu permanecer à tona e, incrivelmente, foi reparado e voltou à guerra meses depois.
“Esperei a vida inteira para que isso fosse encontrado”, escreveu um espectador identificado como @TBauer-s8b, parente de uma das vítimas.
A equipe também revisitou o cruzador pesado HMAS Canberra, afundado durante a Batalha da Ilha de Savo, em 9 de agosto de 1942 — uma das piores derrotas navais da história americana. O Canberra é o único navio aliado não americano perdido em Guadalcanal, e lutou ao lado dos cruzadores USS Astoria, USS Quincy e USS Vincennes. Mais de mil tripulantes aliados morreram naquela noite.
“Meu pai estava no Vincennes quando ele afundou. Ele nunca falou muito sobre isso, mas ficou na água por mais de três horas”, relatou outro espectador.
Ballard havia encontrado o Canberra pela primeira vez em 1992. Nesta nova expedição, ele contou com a colaboração do arqueólogo marítimo Mick de Ruyter, especialista em navios australianos.
Legado de Guadalcanal
O historiador militar Craig Symonds explica que os Aliados decidiram atacar Guadalcanal porque o Japão construía ali um aeródromo estratégico, que ameaçava as rotas entre o Havaí e a Austrália. “Aquele aeródromo precisava ser tomado, o que significava tomar Guadalcanal”, afirma.
Os combates foram intensos, mas os fuzileiros navais americanos conseguiram capturar o aeródromo, renomeado Campo Henderson, e mantiveram o controle até fevereiro de 1943, garantindo a vitória aliada.
O naufrágio do contratorpedeiro USS DeHaven, afundado em 1º de fevereiro de 1943, encerrou simbolicamente a campanha. Atacado por seis aviões japoneses, o navio abateu três antes de sucumbir às bombas inimigas. Cento e sessenta e sete tripulantes morreram.
Segundo o ‘National Geographic’, ao observar as imagens dos destroços, Ballard afirma sentir a mesma emoção de décadas atrás. “É impressionante estar lá embaixo, porque você está onde muitas pessoas morreram”.
Para ele, cada naufrágio em Iron Bottom Sound é um túmulo de guerra. As famílias que acompanharam as transmissões viram nas telas não apenas relíquias históricas, mas os últimos vestígios de seus entes queridos.
“O momento da descoberta é muito emocionante”, diz Ballard. “E agora, graças à telepresença, as famílias estão conosco nesse momento”.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli00