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Museu de Londres identifica soldado negro de Waterloo em pintura de 1821

Pintura de 1821 representando um homem negro que foi soldado da Batalha de Waterloo teve seu modelo finalmente desvendado

Pintura retratando o soldado Thomas James / Crédito: Divulgação/National Army Museum

O Museu Nacional do Exército, localizado em Londres, está prestes a lançar uma exposição que homenageia a valiosa contribuição dos soldados negros durante as Guerras Napoleônicas, com um foco especial na figura de Thomas James, um músico de exército reconhecido por sua bravura.

Thomas James lutou nas Guerras Napoleônicas e se destaca como um dos apenas nove soldados negros a receber a Medalha de Waterloo, o primeiro prêmio militar britânico concedido a combatentes independentemente de seu posto. Apesar disso, sua história permaneceu em grande parte ignorada por séculos.

Porém, uma recente pesquisa do museu revelou que James pode ser o modelo de uma pintura datada de 1821, atribuída ao artista Thomas Phillips, conhecido por retratar figuras proeminentes da época georgiana, como o Duque de Wellington e Lord Byron. O retrato foi apresentado ao público recentemente na galeria ‘Exército em Casa’, em Chelsea, onde ficará exposto permanentemente.

A curadora de arte do museu, Anna Lavelle, enfatiza a importância de reconhecer a presença de soldados negros na Batalha de Waterloo, afirmando que “existe essa ideia errada de que não havia soldados negros em Waterloo”. Ela destaca ao The Guardian: “Isso não é culpa do público – não faz parte do discurso histórico. E, no entanto, Thomas James é apenas um entre muitos”.

Retratos de Thomas James e Thomas Phillips / Crédito: Divulgação/National Army Museum / Domínio Público

Trajetória honrosa

Lavelle argumenta que a trajetória de James merece ser celebrada. “Ele estava disposto a se machucar e arriscar a vida por outras pessoas em seu regimento”, observa. James, que se alistou no 18º Regimento de Dragões Ligeiros em 1809 após uma infância marcada pela escravidão em Montserrat, nas Índias Ocidentais, era um percussionista analfabeto que se descrevia como “um servo” ao se juntar ao exército.

O músico recebeu a Medalha de Waterloo após ser ferido em combate contra soldados prussianos desertores que tentavam roubar os pertences dos oficiais. “Havia cerca de 20 soldados cuidando da bagagem dos oficiais, mas James foi o único que se constatou ter sido gravemente ferido”, relata Lavelle. “Ele obviamente lutou bravamente – uma defesa corajosa – o que, acredito, diz muito sobre seu caráter e seu espírito de camaradagem”.

Acho que ele foi, acima de tudo, corajoso e honrado”, acrescenta Lavelle.

O retrato revela James vestido com um uniforme branco brilhante e segurando címbalos, o que sugere um papel destacado e expressivo na banda militar. Lavelle explica que os músicos militares eram conhecidos por suas performances vibrantes e acrobáticas. “Os músicos giravam os címbalos sob as pernas, jogavam-nos para o ar, os pegavam e os batiam ruidosamente uns contra os outros… devia ser uma performance bastante teatral e enérgica, que exigia muita habilidade”, conta Lavelle.

Já na Inglaterra georgiana, as opções para homens negros eram limitadas, e os que não desejavam ser criados, muitas vezes se alistavam no exército como músicos militares. “Os soldados negros usavam o mesmo uniforme e recebiam os mesmos salários e pensões que seus colegas brancos – e na hierarquia do exército, um soldado negro e um soldado branco da mesma patente tinham que se tratar igualmente”.

O museu adquiriu o retrato por £ 30 mil (mais de R$ 210 mil, na cotação atual) no ano passado sem saber inicialmente a identidade do modelo ou do artista. Lavelle explica que ela utilizou registros de medalhas e características da pintura para identificar Thomas James como o provável sujeito. Segundo ela, é provável que oficiais tenham encomendado o retrato como uma forma de reconhecimento pela coragem demonstrada por James.

A curadora destaca que retratos individuais de soldados negros britânicos dessa época são extremamente raros, com apenas dois outros conhecidos até hoje. “Tínhamos apenas um palpite de que era especial. Este retrato teria sido caro – não é algo que James, ou qualquer outro soldado raso do exército, pudesse pagar por ele mesmo”, afirma Lavelle.

Este é um retrato que pode nos ajudar a contar a história dos músicos negros em geral e o importante papel que desempenharam na história”, complementa a curadora.

No retrato, James é representado usando um anel e adotando uma pose relaxada enquanto olha diretamente para o espectador: “Na pintura, ele transmite uma confiança tranquila – um soldado digno e com um verdadeiro senso de orgulho”.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.