Poluição: Novo estudo desmonta sistema de ‘pagar para poluir’
Revisão de 25 anos aponta falhas estruturais em sistemas de compra de créditos climáticos para reduzir a poluição

Um estudo publicado na revista Annual Reviews aponta que os sistemas de compensação de poluição, também conhecidos como compra de créditos climáticos, não estão conseguindo reduzir o aquecimento global de forma eficaz. A pesquisa, baseada em mais de duas décadas de evidências, conclui que não se trata apenas de projetos isolados com problemas, mas de falhas profundas que atravessam toda a lógica desse mecanismo.
A ideia por trás das compensações de poluição é simples: empresas ou governos que emitem gases de efeito estufa podem pagar para financiar ações em outros lugares, como reflorestamento ou proteção de florestas, equilibrando no papel a quantidade de carbono liberada na atmosfera. Na teoria, isso permitiria que recursos chegassem a locais onde a redução de emissões fosse mais barata ou mais viável. Mas, na prática, segundo os pesquisadores, boa parte desses projetos não entrega o benefício prometido.
Poluição em alta
Entre os problemas mais comuns estão as chamadas reduções “de faz de conta”: projetos que receberiam apoio mesmo sem a compensação financeira. Nesse caso, não há impacto adicional para o planeta, apenas um registro artificial de benefício. Outro desafio é a falta de permanência.
Áreas reflorestadas, por exemplo, podem ser destruídas por incêndios ou desmatamento, anulando rapidamente o resultado positivo. Também existe o risco do “empurra-empurra”, quando proteger uma área leva a destruição de outra região vizinha, sem ganho ambiental líquido. Para piorar, ainda há casos de contagem dupla, quando tanto o país ou empresa que financia quanto o local que abriga o projeto reivindicam a mesma redução.
Essas quatro falhas — falta de adicionalidade, perda de permanência, deslocamento do problema e dupla contagem — minam a credibilidade do sistema. Basta que um projeto tropece em apenas uma dessas etapas para que o impacto real seja quase nulo, apesar de no papel parecer uma vitória climática.
Pesquisas anteriores já vinham chamando atenção para esse quadro. Um levantamento publicado na Nature Communications mostrou que menos de 16% das compensações avaliadas resultaram em reduções reais e mensuráveis de poluição. O novo estudo reforça esse diagnóstico e revela que os problemas não são exceção, mas sim regra.
Os autores destacam ainda razões estruturais que explicam o fracasso. A falta de rigor nos critérios de avaliação, a escassez de recursos para fiscalização, as disputas entre diferentes padrões internacionais e os interesses econômicos de setores inteiros dificultam que as regras sejam de fato cumpridas. Tentativas recentes de elevar a qualidade — como certificadoras independentes e novas normas globais — ainda não conseguiram resolver o problema de fundo.
Uma das conclusões mais contundentes do estudo é que a sociedade precisa parar de ver as compensações de poluição como solução central para a crise climática. Os pesquisadores defendem que se dê prioridade a ações diretas de redução das emissões, além de tecnologias que realmente removam gás carbônico da atmosfera e o armazenem com segurança. Eles também sugerem que empresas e governos que recorrem a esse tipo de prática sejam obrigados a admitir publicamente que ainda poluem e que precisam mudar suas operações de base, em vez de confiar apenas em medidas paliativas.
O estudo, no entanto, não descarta totalmente o uso desse mecanismo. Em algumas situações específicas, como projetos de energia limpa em comunidades pobres ou a captura de gases de aterros sanitários, as compensações podem funcionar de maneira mais efetiva. Mas, para isso, precisam atender a padrões de qualidade muito mais rígidos do que os praticados hoje.
A mensagem final é clara: enquanto a lógica das compensações de poluição continuar cheia de brechas, o planeta não poderá contar com esse recurso como principal aliado contra o aquecimento global. A solução depende de mais transparência, regras mais firmes, fiscalização real e, sobretudo, de ações que reduzam emissões na origem, em vez de apostar que um pagamento em outro lugar vai resolver o problema.