Notícias / Arqueologia

Achado arqueológico revela vestígios raros de subúrbios medievais em Glasgow

Descobertas feitas a mais de 4 metros de profundidade, em Glasgow, incluem cerâmicas e estruturas de madeira preservadas

Postes de madeira raros e bem preservados - Guard Archaeology

Uma das cidades mais antigas do Reino Unido acaba de revelar um novo capítulo de sua história. Arqueólogos da Guard Archaeology anunciaram a descoberta de vestígios raros e bem preservados de subúrbios medievais no centro de Glasgow, durante escavações no bairro de Spoutmouth, na região de Gallowgate.

A surpreendente descoberta foi feita 4,5 metros abaixo do nível atual da rua, em um local que estava inativo como estacionamento e será transformado em um empreendimento de habitação social. Os artefatos datam aproximadamente dos séculos 13 e 14 d.C., período em que Glasgow começava a se expandir como burgo medieval.

Entre os itens encontrados, estão 63 postes de madeira verticais, dispostos em três linhas que delineiam grandes áreas lineares. As estruturas incluem cercas de vime, além de fragmentos de cerâmica medieval, ossos de animais e outros materiais orgânicos.

“Esta é uma sobrevivência notável da arqueologia orgânica em uma área que passou por tantos ciclos de construção e reconstrução ao longo dos séculos”, afirmou Thomas Muir, líder da equipe de escavação. “É um pequeno pedaço da Glasgow medieval que, de alguma forma, sobreviveu ao tempo”.

A explicação para a preservação excepcional dos materiais está na própria geologia do terreno. Por estarem em um nível muito profundo e constantemente alagado, os restos de madeira ficaram protegidos da decomposição pelo oxigênio, que é necessário para o apodrecimento.

Expansão medieval

Segundo o arqueólogo e especialista em cerâmica medieval Bob Will, os fragmentos de cerâmica encontrados são típicos do período em que Glasgow consolidava seu status como centro urbano. “A maior parte da cerâmica é uma mistura de fragmentos dos séculos 13 e 14. A cerca de vime parece ter feito parte de uma expansão muito antiga do burgo em direção ao leste”, explicou Will.

A maior parte da cerâmica data dos séculos 13 e 14 – Guard Archaeology

O local das escavações está próximo da antiga linha do Molendinar Burn, um importante curso d’água que correu a céu aberto até ser canalizado no século 19. Foi às suas margens que St Mungo, o santo padroeiro de Glasgow, fundou sua igreja no final do século 6. Séculos depois, a catedral da cidade foi construída nas proximidades, estabelecendo o núcleo urbano que cresceria ao longo da Idade Média.

Em 1175 d.C., o rei William, o Leão, concedeu oficialmente a Glasgow o status de burgo real, o que garantiu à cidade privilégios legais e comerciais em troca de tributos ao tesouro real da Escócia. A descoberta arqueológica em Spoutmouth oferece uma visão rara desse período formativo.

A escavação foi realizada como parte das exigências do planejamento urbano, já que o terreno está localizado nos limites da Glasgow medieval. O local abrigará um projeto de R$ 66 milhões, com 34 unidades de habitação social e duas unidades comerciais, promovido pelo Wheatley Group e financiado em parte pelo governo escocês, com uma doação de R$ 40 milhões.

Antes do início da construção, os arqueólogos devem concluir a escavação até novembro. Os postes de madeira e cerâmicas serão removidos, analisados e, posteriormente, entregues a museus para preservação e exibição pública. A construção do novo empreendimento está prevista para começar logo após o fim das escavações, com conclusão estimada para o verão de 2027.

Celebrações

A descoberta se torna ainda mais simbólica porque ocorre no ano em que Glasgow celebra os 850 anos desde que recebeu o status de burgo real. Para Thomas Muir, a coincidência é mais do que um acaso histórico: “Não é todo dia que encontramos vestígios físicos de um período tão significativo. Esta é uma janela aberta para o passado da cidade”.

Segundo a ‘Archaeology Magazine’, o achado reforça a importância das escavações preventivas em áreas urbanas com potencial histórico e destaca o quanto ainda pode estar escondido sob as cidades modernas. Em meio às construções contemporâneas, Glasgow continua revelando suas raízes profundas.


*Sob supervisão de Fabio Previdelli