Mapa de assassinatos desafia ideia de violência na Idade Média
Estudo mostra que homicídios entre 1296 e 1398 seguiam padrões concentrados em áreas específicas de Londres, York e Oxford

Um novo projeto de pesquisa está transformando a forma como entendemos a violência na Idade Média. Conhecido como Mapa de Assassinatos Medievais, o estudo analisou 355 inquéritos de legistas realizados em Londres, York e Oxford entre 1296 e 1398, revelando que os homicídios não ocorriam de forma aleatória, como muitas vezes se imagina, mas se concentravam em pontos críticos das cidades — mercados, pontes, ruas movimentadas e rotas cerimoniais.
Os registros mostram que domingos e noites, sobretudo após o toque de recolher, eram os momentos mais perigosos, quando reuniões sociais, jogos e consumo de álcool frequentemente terminavam em brigas fatais. Em Oxford, a situação era ainda mais alarmante: a taxa de homicídios era três a quatro vezes maior do que em Londres ou York, impulsionada pelo faccionalismo entre estudantes universitários armados, que se envolviam em disputas violentas com moradores e rivais acadêmicos, muitas vezes sem temer punições devido a privilégios clericais.
Dinâmicas
Cada cidade, porém, apresentava suas próprias dinâmicas. Em Londres, a região de Westcheap concentrava conflitos entre guildas e ataques públicos de retaliação, enquanto a orla do Tâmisa via disputas entre marinheiros e comerciantes.
Em York, locais estratégicos como Micklegate e a Ponte Ouse eram palco de confrontos, e Stonegate, rota cerimonial para a Catedral, misturava riqueza, cerimônia e perigo. Já em Oxford, as tensões universitárias e as brigas alimentadas por bebidas alcoólicas explicavam os picos de violência.
Um dos achados mais surpreendentes do estudo é que os assassinatos medievais não estavam ligados principalmente à pobreza. Ao contrário, áreas mais ricas registravam mais casos fatais do que distritos pobres, já que esses espaços públicos ofereciam maior visibilidade e plateia — ideais para disputas de honra ou demonstrações de poder.
Padrões
Segundo os pesquisadores, o projeto demonstra que a lógica urbana da violência medieval ecoa padrões encontrados em cidades modernas, ainda que marcada por um forte componente de honra pública e identidade coletiva. O estudo também sugere que o declínio dos homicídios ao longo dos séculos pode estar ligado não apenas à mudança de mentalidade, mas também à melhoria do policiamento, da governança urbana, da regulação dos mercados e das restrições ao porte de armas.
Segundo o ‘Archaeology News’, ao reunir e mapear séculos de registros históricos, o Mapa de Assassinatos Medievais não apenas ilumina a geografia da violência no passado, mas também lança luz sobre conexões duradouras entre espaço urbano, sociedade e crime.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli