Aves arqueólogas? Sapato de 750 anos é descoberto em ninho de abutre na Espanha
Antigos abutres-barbudos da Espanha medieval roubaram vários artefatos humanos para construir seus ninhos, incluindo um sapato de grama de 750 anos

Uma equipe de pesquisadores realizou uma descoberta surpreendente em um ninho de abutre localizado em uma caverna em um penhasco no sul da Espanha, ao encontrar um calçado incomum — uma sandália feita de grama, datada do período medieval. A análise dos ninhos vizinhos revelou que várias gerações de abutres haviam utilizado diversos artefatos históricos, incluindo fragmentos de couro, tecido e cordas, para forrar seus lares.
Antoni Margalida, coautor do estudo e ecólogo no Instituto Pirenaico de Ecologia (CSIC) na Espanha, comentou sobre a importância dessa descoberta ao Live Science: “As boas condições das cavernas permitiram que os artefatos fossem preservados por séculos, sugerindo que esses ninhos são autênticos museus naturais“.
No estudo, publicado em 11 de setembro na revista Ecology, Margalida e seus colegas analisaram 12 ninhos bem preservados da espécie Gypaetus barbatus, o abutre-barbudo, que está extinto localmente no sul da Espanha há mais de 70 anos. Essa ave territorial, conhecida por se alimentar de ossos, reutiliza ninhos situados em penhascos ao longo das gerações, criando lares compostos por camadas de ossos, grama, galhos e materiais encontrados.
A maior parte dos itens encontrados nos doze ninhos analisados pelos pesquisadores eram ossos, incluindo cascos e conchas de ovos de outros animais. No entanto, cerca de 9% dos restos eram produtos feitos pelo homem, com destaque para um projétil de besta, 72 pedaços de couro, 129 fragmentos de tecido e 25 itens confeccionados com esparto (Macrochloa tenacissima), incluindo uma sandália intacta.
O esparto tem sido utilizado há milênios na fabricação de calçados, como as alpargatas atuais, que possuem solas flexíveis feitas desse material. Essas sandálias eram um calçado comum entre os camponeses na Espanha medieval. Após a datação por carbono da sandália encontrada, os pesquisadores determinaram que ela tinha aproximadamente 750 anos.
Margalida explicou que “os restos de origem humana provavelmente foram coletados pela espécia durante esse período”. O pesquisador também acrescentou que os abutres podem ter pegado as sandálias de camponeses desavisados do século 13, em vez de estarem invadindo sítios arqueológicos.
Outros achados
Além da sandália medieval, o mesmo ninho também continha um fragmento de couro ovino pintado com óxido de ferro vermelho. Embora a origem exata do couro permaneça incerta, a datação revelou que ele possui uma idade semelhante à da sandália.

Os ninhos dos abutres-de-cabeça-lisa representam um verdadeiro tesouro para arqueólogos, segundo afirmaram os pesquisadores no estudo. A localização desses ninhos em cavernas ibéricas e abrigos rochosos com temperaturas estáveis e baixa umidade contribui para a boa preservação dos restos orgânicos.
A equipe planeja dar continuidade às investigações nesses locais históricos. “Os próximos passos serão identificar todos os restos — biológicos e artificiais — e datar as diferentes camadas dos ninhos por estrato, a fim de determinar a que período eles pertencem”, concluiu Margalida.