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Descoberta de vala comum revela assassinatos ilegais no Sinai

Cemitério em massa no Sinai revela violação brutal dos direitos humanos e o sofrimento de famílias em busca de justiça

Deserto do Sinai - Getty Images

Uma nova investigação realizada pela Sinai Foundation for Human Rights (SFHR) revelou a existência de um cemitério em massa na província do Sinai, Egito, onde centenas de corpos podem estar enterrados. A descoberta ocorreu em uma área próxima a um posto militar e revela a profundidade das violações dos direitos humanos na região.

O local foi identificado durante uma pesquisa que buscava informações sobre desaparecimentos e execuções extrajudiciais de civis, resultado de um conflito que já dura uma década entre as forças de segurança egípcias e militantes alinhados ao Estado Islâmico. Segundo Ahmed Salem, diretor executivo da SFHR, as evidências encontradas oferecem uma visão rara e documentada sobre as violações cometidas no Norte do Sinai.

“Esta descoberta não apenas destaca a magnitude das violências perpetradas pelo exército egípcio durante o conflito, mas também revela um padrão sistemático de assassinatos ilegais e o sepultamento secreto de vítimas, realizados com total impunidade”, afirmou Salem.

Embora o governo egípcio negue ter realizado deslocamentos forçados na região, estima-se que mais de 150 mil residentes indígenas tenham sido deslocados, sem que haja reconhecimento oficial de quaisquer vítimas civis durante a guerra contra o Estado Islâmico.

Identificação

A SFHR identificou o cemitério em massa localizado ao sul da cidade de al-Arish, em uma área marcada pela presença militar intensa. Os pesquisadores observaram que o local estava a apenas 350 metros de uma estrada, mas oculto devido ao forte bloqueio militar imposto durante os períodos mais críticos do conflito entre 2013 e 2022.

Em visitas realizadas em dezembro de 2023 e janeiro de 2024, a equipe da SFHR encontrou duas covas; uma delas inacessível devido à proximidade com as forças armadas, mas com restos visíveis na superfície. Imagens compartilhadas mostram que os corpos estavam expostos, possivelmente devido a inundações anteriores. Outros corpos foram encontrados a uma profundidade de cerca de 30 centímetros.

A análise realizada pela Forensic Architecture, instituição vinculada à Goldsmiths, University of London, confirmou a presença de pelo menos 36 crânios no local. Os pesquisadores da SFHR estimam que existam mais de 300 corpos enterrados ali, embora não tenham conseguido documentar todos devido a limitações temporais.

A Forensic Architecture corroborou a hipótese do uso do local como cemitério em massa ao identificar evidências de desmatamento e marcas no solo ao longo do tempo. Um membro da equipe da SFHR descreveu a cena como “horripilante”, expressando sua incredulidade ao se deparar com tantos restos humanos expostos.

Vítimas

Segundo o ‘The Guardian’, os corpos estavam enterrados de maneira desrespeitosa, sem seguir os costumes locais. Muitos ainda vestiam as roupas que usavam quando foram mortos; alguns apresentavam sinais de terem sido vendados. A ausência de uniformes ou equipamentos militares nos túmulos levanta questões sobre as identidades das vítimas.

Informantes da SFHR relataram que as vítimas enterradas pertenciam tanto a indivíduos mortos logo após a detenção quanto àqueles que estavam presos há anos. Embora alguns fossem suspeitos de colaborar com militantes, muitos não tinham ligação comprovada com atividades terroristas e foram executados sem um devido processo legal.

Um testemunho adicional indicou que um massacre ocorreu na mesma localidade, onde soldados alegaram ter matado terroristas após posicionarem armas ao lado dos corpos das vítimas. Este tipo de relato reforça as alegações sobre ações sistemáticas contra civis na região.

Uma mulher cuja família foi afetada por detenções durante uma operação militar em 2016 revelou que ainda busca informações sobre seus entes queridos. Ela expressou sua angústia por não ter notícias deles após nove anos e vive com medo constante das repercussões por buscar respostas.

“É difícil ver meu filho crescer sem saber nada sobre seu pai além de uma foto”, lamentou ela. “Esses nove anos foram repletos de lágrimas e incertezas”. A situação ilustra não apenas o sofrimento individual mas também um panorama mais amplo das consequências trágicas do conflito no Sinai.