Matérias / História

‘Na Natureza Selvagem’: A história real de Chris McCandless e sua jornada fatal

A história do jovem que abandonou tudo para viver na natureza selvagem e cuja morte segue cercada de debates, hipóteses e revelações

Chris McCandless - Divulgação

Em 1992, Chris McCandless, um jovem inteligente e atlético criado em um subúrbio abastado de Washington, D.C., decidiu romper com tudo o que conhecia. Após se formar com honras pela Universidade Emory, ele doou suas economias, queimou o dinheiro que restava, abandonou o carro e partiu para uma jornada sem destino fixo.

Rebatizando-se como “Alexander Supertramp”, viajou pelo Arizona, México, Califórnia e Dakota do Sul antes de seguir rumo ao seu grande desafio: viver da terra no interior selvagem do Alasca.

Em abril de 1992, McCandless entrou na floresta com apenas um saco de arroz de 4,5 kg, um rifle calibre .22 e uma câmera. O cenário que escolheu era hostil até mesmo para caçadores experientes: rios imprevisíveis, terreno acidentado e isolamento total.

Quatro meses depois, ele estava morto. Seu corpo foi encontrado em setembro, dentro de um ônibus abandonado usado como abrigo por viajantes. Um bilhete desesperado preso à porta deixava claro seu estado: fraco demais para sair e em busca de ajuda.

A autópsia revelou que McCandless pesava apenas 30 quilos, sem gordura corporal, e a causa oficial da morte foi registrada como inanição.

Polêmica

A tragédia de McCandless logo atraiu atenção mundial. O jornalista e escritor Jon Krakauer publicou um artigo na revista Outside em 1993 e, depois, o best-seller “Na Natureza Selvagem”, onde explorou a vida e as motivações do jovem.

No livro, Krakauer apresentou uma hipótese: McCandless teria se intoxicado ao comer sementes da planta Hedysarum alpinum, a chamada batata-doce do Alasca. Para o autor, uma toxina presente nessas sementes teria enfraquecido o jovem até torná-lo incapaz de caçar ou se mover, precipitando sua morte.

A teoria dividiu opiniões. Admiradores viam McCandless como símbolo de rejeição ao materialismo; críticos o chamavam de arrogante e despreparado. Para muitos alasquianos, sua história foi romantizada e transformada em celebridade sem mérito.

Anos depois, o debate ganhou fôlego com a investigação de Ronald Hamilton, escritor que encontrou paralelos entre a morte de McCandless e casos de envenenamento por leguminosas em um campo de concentração na Segunda Guerra Mundial.

Hamilton levantou a hipótese de que o jovem sofrera de latirismo, uma condição causada pela ingestão do aminoácido tóxico ODAP, presente em sementes de Hedysarum alpinum. Essa substância provoca paralisia irreversível, especialmente em jovens subnutridos e fisicamente exaustos — exatamente o perfil de McCandless no verão de 1992.

Testes laboratoriais recentes confirmaram que as sementes de batata-doce do Alasca contêm níveis significativos de ODAP, suficientes para causar os sintomas descritos nos diários do jovem: fraqueza extrema e incapacidade de andar.

Legado

Segundo o ‘The New Yorker’, a história de Chris McCandless continua a inspirar e dividir opiniões. Para uns, ele representa a busca pela autenticidade e pela vida fora do sistema; para outros, é um exemplo de imprudência que terminou em tragédia evitável.

Seja qual for a interpretação, os estudos recentes sugerem que não foi apenas a fome, mas sim uma toxina invisível que o paralisou e o levou à morte. Se tivesse essa informação em mãos, talvez McCandless tivesse sobrevivido ao verão de 1992.

Hoje, aos olhos da ciência, sua morte pode ser entendida menos como arrogância juvenil e mais como o preço da ignorância diante de uma natureza implacável.

Em 2007, sua história inspirou o filme ‘Na Natureza Selvagem’, estrelado por Emile Hirsch. O longa entrou no catálogo da Netflix na última semana.


*Sob supervisão de Fabio Previdelli