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Os impressionantes feitos das filhas de Marie Curie, vencedora de dois prêmios Nobel

Assim como sua mãe, Irène e Eve Curie trilharam caminhos extraordinários; uma delas, inclusive, chegou a ganhar um prêmio Nobel

Marie Curie com as filhas em 1908 e 1921 - Crédito: Getty Images

Marie Curie certamente é um dos nomes mais notáveis da história da ciência. Ela foi a primeira mulher a receber um Prêmio Nobel e permanece, até os dias de hoje, sendo a única pessoa a conquistá-lo em duas áreas distintas do conhecimento. Sua trajetória é lembrada como a de uma pioneira que desafiou barreiras sociais e acadêmicas para revelar ao mundo os segredos da radioatividade. O que muitos não sabem, porém, é que suas duas filhas também trilharam caminhos extraordinários e se tornaram mulheres notáveis em suas próprias áreas.

Em 1906, a vida da cientista sofreu um abalo devastador. Seu marido e parceiro de pesquisas, Pierre Curie, morreu atropelado por uma carruagem em Paris. Desolada, Marie escreveu em seu diário: “Acabou tudo, Pierre está dormindo seu último sono embaixo da terra; é o fim de tudo, de tudo, de tudo.” Ela perdera não apenas o grande amor e colaborador intelectual, mas também o pai de suas duas meninas: Irène, então com oito anos, e Eve, que estava prestes a completar dois.

Conforme destacou o portal BBC, a tragédia obrigou Marie a buscar apoio em parentes próximos. O avô paterno teve papel fundamental na infância das netas, mas, mesmo diante do luto e das exigências de sua carreira científica, a mãe permaneceu intensamente presente na formação das filhas. Incomodada com o nível de ensino oferecido pelas escolas parisienses, criou um modelo alternativo: reuniu alguns dos mais brilhantes intelectuais de seu tempo, que se revezavam em dar aulas de física, matemática, literatura e línguas às crianças.

Esse ambiente singular de aprendizado estimulou a curiosidade e o talento das meninas. Irène, em especial, destacou-se desde cedo pela habilidade com números e pela vocação para a investigação científica — sinais claros de que seguiria os passos da mãe.

A filha cientista

Irène ainda era adolescente quando, no contexto da Primeira Guerra Mundial, trabalhou ao lado da mãe nos hospitais de campanha, instalando e operando máquinas móveis de raio-X que ajudaram a salvar milhares de soldados feridos. Essa experiência marcaria seu destino, tanto que, de volta à vida acadêmica, a jovem mergulhou nos estudos de radioatividade. Logo, ela se tornaria peça-chave no Instituto do Rádio, mais tarde batizado de Instituto Curie. Foi lá que conheceu o químico Frédéric Joliot, que era fascinado pelos feitos de Marie e Pierre. Os dois se apaixonaram e, em 1926, se casaram, unindo seus sobrenomes: Joliot-Curie.

A parceria científica e pessoal se mostrou frutífera e, em 1935, receberam juntos o Prêmio Nobel de Química pelo trabalho que sintetizou novos elementos radioativos. A breve biografia de Irène no site do Prêmio Nobel também destaca que “em 1938, sua pesquisa sobre a ação dos nêutrons sobre elementos pesados ​​foi um passo importante na descoberta da fissão do urânio (…).” Vale ressaltar, porém, que ela e o marido, fiéis à ética científica, esconderam informações durante a ocupação nazista para evitar que Hitler se apropriasse delas.

Irene tornou-se professora na Faculdade de Ciências de Paris em 1937 e diretora do Instituto de Rádio em 1946. Além disso, participou da construção da primeira pilha atômica francesa em 1948.

Assim como a mãe, ela conciliava ciência e engajamento social. Foi pacifista e defensora do acesso aberto ao conhecimento. Apesar de descrita por colegas como reservada e até “fria”, conquistava respeito unânime por sua inteligência. Faleceu m 1956, aos 58 anos, vítima de leucemia — a mesma doença que levou Marie Curie. Muito provavelmente, a causa teria sido os anos de exposição à radiação.

Marie Curie com as filhas Irene (esquerda) e Eve (direita) – Crédito: Getty Images

Eve, a biógrafa

Enquanto Irène se dedicava à ciência, Eve trilhou um caminho completamente distinto. Dotada de sensibilidade artística, estudou piano e chegou a se apresentar em concertos. Mas foi na escrita que encontrou sua verdadeira vocação. Bela, elegante e carismática, era considerada uma das mulheres mais bonitas de Paris nas décadas de 1920 e 1930, frequentando ambientes que misturavam intelectuais, políticos e artistas.

Tornou-se crítica de música e cinema, e mais tarde se aventurou como correspondente de guerra. Durante a Segunda Guerra Mundial, percorreu diversas frentes de batalha. Esteve também no Irã, no Iraque, na Índia, na China, na antiga Birmânia (atual Mianmar) e no norte da África, registrando impressões que resultaram no livro “Jornada Entre Guerreiros”, publicado em 1943.

No entanto, seu maior feito literário foi a biografia da mãe: “Madame Curie”, lançada em 1937. A obra não só eternizou a trajetória da cientista como se tornou best-seller internacional, traduzido em diversas línguas e adaptado para o cinema em Hollywood. Embora tenha omitido episódios delicados da vida amorosa de Marie, o livro firmou a imagem da cientista como símbolo de perseverança e genialidade.

Sua proximidade com líderes da França Livre e seu engajamento contra o nazismo, vale mencionar, projetaram sua voz além do jornalismo. Além disso, tornou-se, no início da década de 1950, consultora especial da secretaria-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Diplomacia e direitos humanos

Eve também se envolveu na diplomacia e na defesa dos direitos humanos. Casada com Henry Labouisse, diplomata americano e diretor-executivo da Unicef entre 1965 e 1979, tornou-se uma espécie de embaixadora itinerante da organização. Visitou dezenas de países em desenvolvimento, promovendo campanhas de saúde, educação e proteção à infância. Ganhou, por isso, o apelido de “primeira-dama da Unicef”.

Mesmo sem filhos biológicos, cultivou forte vínculo com sua enteada, Anne L. Peretz. Viveu até os 102 anos, falecendo em 2007. Nos últimos anos, confidenciou sentir certa culpa por ser a única mulher de sua família a não ter sucumbido à radiação.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.