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As doenças relacionadas ao ataque de 11 de setembro

Cânceres e doenças emergem entre sobreviventes e socorristas do atentado, revelando a tragédia silenciosa que persiste

Torres gêmeas após o atentado de 11 de setembro - Getty Images

Vinte e dois anos após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, as consequências da tragédia continuam a se manifestar sob a forma de doenças. Informações recentes do World Trade Center Health Program, divulgadas em junho de 2025, revelam que aproximadamente 48,5 mil indivíduos foram diagnosticados com câncer relacionado aos eventos daquele dia fatídico. Este número abrange tanto os sobreviventes civis quanto as equipes de resgate que trabalharam nos escombros.

É importante ressaltar que as vítimas não se restringem apenas às pessoas que estavam dentro dos edifícios; bombeiros, policiais, voluntários e moradores da área circunvizinha também foram expostos à nuvem tóxica resultante do colapso das torres. Essa nuvem continha uma mistura perigosa de cimento, amianto, fumaça e materiais combustíveis, o que levou a uma exposição sem precedentes a diversas substâncias químicas nocivas.

O oncologista Stephen Stefani, associado à Oncoclínicas e à Americas Health Foundation, destaca que essa combinação de agentes químicos deixou marcas no organismo humano que se manifestaram anos depois do ocorrido.

“O corpo humano experimenta múltiplas duplicações celulares ao longo da vida e, durante esse processo, podem ocorrer erros. Normalmente, o organismo tem mecanismos para corrigir ou eliminar essas falhas. No entanto, quando exposto a substâncias como amianto, benzeno, sílica e chumbo, esses mecanismos defensivos são comprometidos. O resultado é uma reprodução celular desorganizada, que pode levar a mutações incontroláveis e aumentar a probabilidade do surgimento de tumores”, explica Stefani.

Diagnósticos

Dos diagnósticos mencionados, cerca de 24,6 mil são referentes a profissionais envolvidos nas operações de resgate – incluindo bombeiros e policiais – enquanto 23,9 mil casos correspondem a sobreviventes civis. Atualmente, 65% dos inscritos no programa de saúde apresentaram pelo menos uma condição reconhecida como consequência direta dos ataques de setembro.

Stefani resume a situação afirmando: “Existem mais vítimas do 11 de setembro após os eventos do que no próprio dia do ataque”.

Entre os tipos mais frequentes de câncer diagnosticados estão:

  • Câncer de pele não melanoma – 15,5 mil casos
  • Câncer de próstata – 10,9 mil casos
  • Câncer de mama feminino – 4 mil casos
  • Melanoma – 3,2 mil casos
  • Linfoma – 2,1 mil casos
  • Câncer da tireoide – 2,1 mil casos
  • Câncer de pulmão e brônquios – 1,6 mil casos

Segundo o G1, somente no último ano foram identificados 9,4 mil novos diagnósticos reconhecidos pelo programa.

Riscos

Estudos indicam que os riscos enfrentados por socorristas e voluntários expostos ao Ground Zero são significativamente maiores em comparação com a população em geral. Uma meta-análise publicada no Journal of the National Cancer Institute (JNCI) em 2022 revelou um aumento de 19% nos casos de câncer de próstata e um alarmante crescimento de 81% nos diagnósticos relacionados ao câncer da tireoide entre esses grupos. Adicionalmente, houve elevações em melanoma e leucemias.

Outro estudo divulgado no JNCI Cancer Spectrum (2020) demonstrou que profissionais e voluntários têm uma probabilidade 41% maior de desenvolver leucemia em comparação com residentes da mesma região que não tiveram contato direto com as partículas resultantes da tragédia.

O oncologista também chama atenção para o aparecimento inesperado de tumores menos comuns. “É digno de nota o surgimento do mesotelioma associado ao amianto e outros tipos raros de cânceres como os tecidos moles e os do timo. Isso evidencia como uma exposição significativa a agentes mutagênicos pode afetar não apenas os pulmões mas também diversos tecidos corporais”, afirma Stefani.

Cuidados

Pesquisas com modelos animais corroboram essas observações. Estudos realizados em camundongos expostos ao pó do World Trade Center mostraram um aumento significativo na inflamação e na ativação de genes relacionados à multiplicação celular descontrolada – criando um ambiente propício para o desenvolvimento tumoral, especialmente na presença de mutações pré-existentes.

O James Zadroga 9/11 Health and Compensation Act, aprovado em 2011, assegura a continuidade do programa de saúde até o ano de 2090. Este programa oferece atendimento gratuito aos afetados e financia pesquisas contínuas para compreender melhor os efeitos duradouros dos ataques sobre a saúde dos sobreviventes.

“Essa situação não se limita a um trauma coletivo imediato; trata-se também de uma tragédia silenciosa que persiste na vida daqueles que sobreviveram ou que foram prestar ajuda”, conclui Stefani.

Além dos diagnósticos oncológicos mencionados anteriormente, o relatório do WTC Health Program revela números alarmantes em outras áreas: aproximadamente 41 mil pessoas foram diagnosticadas com rinossinusite crônica; cerca de 38 mil indivíduos sofrem com refluxo gastroesofágico (DRGE); aproximadamente 22,5 mil apresentam asma; e cerca de 17 mil receberam diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).