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A vida secreta das mulheres da Yakuza, segundo fotógrafa

Fotógrafa francesa mergulhou no universo da Yakuza a fim de revelar histórias femininas silenciadas por sua estrutura patriarcal

Imagem ilustrativa - Crédito: Getty Images

A fotógrafa Chloé Jafé decidiu mergulhar no universo oculto da Yakuza, a máfia japonesa, para revelar as histórias das mulheres envolvidas no crime organizado, que quase nunca chegam à superfície. Invisíveis ou silenciadas, as companheiras dos membros da organização permanecem afastadas das atividades criminosas diretas, mas vivem em comunidades fechadas, regidas por rígidos códigos de silêncio e lealdade. Dessa investigação nasceu a série “Eu entrego minha vida”, dedicada a explorar o papel das esposas e parceiras desses homens.

Segundo Chloé, embora o termo “Yakuza” se refira exclusivamente a integrantes masculinos, as mulheres também exercem funções dentro da estrutura — ainda que restritas a um espaço limitado, voltado sobretudo ao apoio emocional e financeiro.

A Yakuza é considerada o maior sindicato do crime do mundo, com cerca de 80 mil membros, distribuídos entre grupos como Yamaguchi-gumi, Sumiyoshi-kai e Inagawa-kai. Apesar de sua natureza criminosa, os detalhes sobre os grupos são de conhecimento das autoridades do país e a própria Agência Nacional de Polícia do Japão publica relatórios anuais com dados oficiais sobre filiados e ramificações. No entanto, a vida íntima dos integrantes, sobretudo das mulheres, permanece envolta em mistério — e foi justamente esse território ainda obscuro que Chloé decidiu iluminar com seu trabalho.

O oyabun e sua esposa recebem cumprimentos no dia de Ano Novo – Crédito: Divulgação/Chloé Jafé

Infiltrada

Para se aproximar, a fotógrafa teve de se infiltrar na subcultura da máfia japonesa. Segundo informações do portal Medium, ela trabalhou como acompanhante em um hostess club de Tóquio, um dos muitos estabelecimentos controlados pela Yakuza. Embora algumas hostesses sejam esposas ou amantes de membros, a maioria não tem ligação direta com o crime, o que tornava difícil identificar quem pertencia de fato ao círculo fechado. Mais tarde, percebeu que só conseguiria acessar as esposas dos chefes com a permissão dos próprios homens.

O acaso, porém, a surpreendeu. Durante um festival, aceitou um drinque oferecido por um homem que mais tarde descobriu ser um dos chefes da Yakuza. Ele a apresentou à esposa e a outras mulheres do grupo, permitindo que ela finalmente registrasse suas histórias. Foi nesse momento que a francesa percebeu de forma nítida a estrutura patriarcal: os homens ocupavam o centro do poder, enquanto às mulheres cabia o papel de esposas ou amantes. Ainda assim, encontrou nuances inesperadas, como a presença de guarda-costas femininas responsáveis por proteger as esposas de chefes poderosos.

Outro aspecto que chamou sua atenção foram as irezumi, tatuagens tradicionais japonesas que frequentemente cobrem grandes áreas do corpo. Produzidas manualmente com agulha e cabo de madeira, essas tatuagens podem levar anos para serem concluídas. De acordo com Chloé, elas representam resistência, paciência e a forma como essas mulheres lidam com a dor ao longo do tempo. Embora ocultem os desenhos em público, carregam-nos com orgulho, como uma identidade secreta.

Yumi, uma das guarda-costas do chefe; à direita, Anna, outra das mulheres da Yakuza retratadas por Jafé – Crédito: Divulgação/Chloé Jafé

Significado das tatuagens

Buscando compreender mais a fundo esse universo, Chloé convidou as mulheres a escreverem cartas sobre o significado de suas tatuagens. Uma das respostas mais marcantes veio de Yuko, filha de um Yakuza, que relatou: “Eu tenho tatuagens porque queria impedir que os caras se aproximassem de mim. Eu quero viver uma vida independente. Eu tinha 38 anos e, pelo resto da minha vida, decidi viver de forma independente, e minha tatuagem nas costas é meu orgulho e algo que me guarda e me protege.”

Para a fotógrafa, ficou claro que sentimentos como orgulho e amor moldavam a vida dessas mulheres. Muitas não tinham qualquer ligação anterior com o crime: simplesmente se apaixonaram por homens que eram membros da Yakuza. Uma vez inseridas nesse universo, porém, adotavam o compromisso de entregar suas vidas à organização — razão pela qual a série fotográfica recebeu o título “Eu entrego minha vida”.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.