Sue Tilley: A musa nua improvável do pintor britânico Lucian Freud

Uma das obras mais conhecidas do artista britânico Lucian Freud, 'Supervisora ​​de Benefícios Dormindo', representa Sue Tilley dormindo nua em um sofá

Sue Tilley e a obra 'Dormindo perto do tapete do leão', de Lucian Freud, ao fundo / Crédito: Getty Images

Nascido na Alemanha e naturalizado britânico, Lucian Freud foi um dos artistas mais notórios do último século. Embora seja também muito reconhecido pelo sobrenome Freud — não à toa, ele é neto do psicanalista Sigmund Freud —, ele ficou bastante reconhecido por pintar vários personagens nus de forma distorcida.

Uma das pinturas mais icônicas de Lucian Freud, ‘Supervisora ​​de Benefícios Dormindo‘ (1995), mostra uma mulher nua adormecida em um sofá. Seu corpo transmite vulnerabilidade e imponência, com curvas destacadas em tons quentes de marrom, rosa e branco. A cena sugere intimidade e naturalidade, como se o momento fosse um flagrante casual.

Na realidade, a modelo não estava dormindo. Freud conduzia sessões longas e repetidas, trabalhando com óleo em camadas que se acumulavam até ganhar espessura quase lamacenta. Ele buscava captar a sensação de alguém que simplesmente “ocupava o espaço” de sua tela, sem embelezamento artificial, mesmo que o resultado incomodasse o espectador.

A mulher retratada não era uma “deusa da fertilidade” como muitos já pensaram, mas Sue Tilley, supervisora em um Centro de Emprego do governo britânico nos anos 1990, que posou e trouxe para a tela sua presença marcante, transformando-se em musa improvável de um dos maiores pintores britânicos do século 20.

‘Supervisora ​​de Benefícios Dormindo’ / Crédito: Getty Images

Cena alternativa

Muito antes de posar para Freud, Tilley já levava uma vida intensa. Nos anos 1980, circulava pelo cenário clubber londrino, convivendo com figuras que desafiavam convenções. Era amiga íntima de Leigh Bowery, artista performático conhecido por criar personagens impactantes, entre o grotesco e o belo, que marcaram a cultura visual daquela década.

Tilley participava das noites mais emblemáticas da cidade, como Blitz e Kinky Gerlinky, além de Taboo, criado pelo próprio Bowery. Essas festas misturavam moda, música e performance em uma celebração anárquica, polisssexual e polissocial, segundo a BBC. Era um ambiente escandaloso e criativo, cuja energia vanguardista transbordou para além do underground e influenciou o que estava em alta.

Foi por meio dessa amizade com Bowery que Tilley conheceu Freud. Enquanto Bowery também posava para o pintor, ela aceitou o convite para se tornar modelo de uma série de retratos. A relação resultaria em quatro pinturas de grande impacto, que hoje são consideradas obras de referência na fase tardia da carreira do artista.

Os retratos

O primeiro deles, ‘Noite no Estúdio‘ (1993), mostra Tilley esparramada no chão, enquanto uma jovem ao fundo lê um livro, indiferente. A cena mescla banalidade doméstica e estranheza quase policial. Para Tilley, a experiência foi desconfortável, e ela ficou aliviada quando Freud comprou um sofá para as sessões seguintes.

Sue Tilley posando em frente às obras ‘Supervisora ​​de Benefícios Dormindo’ e ‘Noite no Estúdio’ / Crédito: Getty Images

Em ‘Supervisora ​​de Benefícios Descansando‘ (1994), a modelo aparece reclinada no sofá, com a cabeça jogada para trás, em uma pose que sugere exaustão ou intoxicação. Já ‘Supervisora de Benefícios Dormindo‘ (1995) tornou-se a mais célebre, fixando sua imagem em um retrato monumental que muitos críticos consideram o ápice do nu feminino na tradição europeia moderna.

A última obra da série, ‘Dormindo perto do Tapete do Leão‘ (1996), retrata Tilley ereta em uma cadeira, diante de um tapete decorado com leões. Para alguns, a composição sugere sua grandeza épica, comparável a figuras mitológicas. Para ela, porém, o quadro nunca agradou: dizia que a deixava com uma aparência horrível.

Se estou colocando alguém em um quadro, gosto de sentir que essa pessoa adormeceu ali ou que entrou por conta própria: dessa forma, ela não está ali para tornar o quadro agradável aos olhos ou mais agradável, mas está ocupando o espaço do meu quadro e eu a estou registrando”, disse Freud certa vez sobre seu processo artístico.

“A tarefa do artista é deixar o ser humano desconfortável, e ainda assim somos atraídos para uma grande obra de arte por uma química involuntária, como um cão que sente o cheiro; o cão não é livre, não pode fazer de outra forma, ele sente o cheiro e o instinto faz o resto”.

Sucesso artístico

As pinturas de Tilley logo se tornaram objetos de desejo no mercado de arte. Em 2008, ‘Supervisora de Benefícios Dormindo’ foi vendida por Roman Abramovich por £ 17 milhões (mais de R$ 124 milhões, na cotação atual), valor recorde para um artista vivo na época. Sete anos depois, ‘Supervisora ​​de Benefícios Descansando’ foi arrematada por £ 35 milhões (R$ 256 milhões), confirmando Freud como referência mundial do retrato.

Essas obras, contudo, pertencem a coleções privadas, inacessíveis ao público. ‘Dormindo perto do Tapete do Leão’ foi exibida temporariamente em 2018 na mostra ‘All Too Human’, na Tate Britain, emprestada por um bilionário colecionador. Já ‘Supervisora ​​de Benefícios Descansando’ foi descrita pela Christie’s como a obra-prima definitiva do pintor, comparável a mestres como Rembrandt e Rubens.

Nenhum desses lucros milionários chegou a Tilley. Ela recebia apenas uma diária modesta por posar. Tilley inclusive contou ao The Guardian que Freud teria escolhido seu corpo por ser “bom custo-benefício”, já que ela tinha “muita carne”. Ainda assim, ela gostava da convivência, descrevendo o artista como divertido, volúvel e cheio de fofocas.

Fim da amizade

Apesar do afeto, a amizade entre Tilley e Freud terminou de forma abrupta. Freud, conhecido por seu temperamento imprevisível, se ofendeu com um comentário feito por Tilley e cortou relações. Ela guardou poucas lembranças materiais: algumas gravuras, depois vendidas por necessidade, e nenhuma palavra de agradecimento quando seus retratos alcançaram valores astronômicos em leilões.

Ainda assim, Tilley reconhece a complexidade do artista. Para ela, Freud podia ser generoso ou rabugento, manipulador ou engraçado. Sua intensidade criava tanto desconforto quanto fascínio, refletindo-se em obras que buscavam capturar a essência humana sem adornos. Como dizia, a tarefa do artista era deixar o ser humano desconfortável — e ainda assim atraí-lo.

Hoje, uma cópia barata do retrato de Leigh Bowery feito por Freud enfeita a parede do apartamento de Tilley. Ela também é autora do livro ‘Leigh Bowery: The Life and Times of an Icon’ (‘Leigh Bowery: A vida e os tempos de um ícone’, em tradução literal), de 1997, biografia definitiva do amigo, que registra com detalhes a cena cultural londrina dos anos 1980.

De volta à arte

Após se aposentar do serviço público, Tilley mudou-se para East Sussex, em uma cidade litorânea tranquila. Apesar do ritmo calmo, sua casa continua a receber artistas, jornalistas e curiosos interessados em Freud, Bowery e nela mesma. Suas paredes estão cobertas por obras, muitas de amigos, mas a maioria de sua própria autoria.

Sue Tilley e ‘Supervisora ​​de Benefícios Dormindo’ / Crédito: Getty Images

Tilley havia aprendido a desenhar ainda jovem, mas abandonou a prática por décadas. A retomou recentemente e, em 2015, apresentou uma grande exposição individual em Londres. Surpreendida pelo convite, dedicou-se a preencher a galeria com retratos de amigos e objetos do cotidiano, tratados com traço cartunesco e humor despretensioso.

Seu trabalho ganhou projeção internacional em 2018, quando colaborou com a coleção masculina da Fendi. Bolsas e roupas receberam suas estampas de luminárias, cascas de banana, xícaras e abridores de garrafa, sob o conceito de “escapismo corporativo”. Hoje, uma pintura de Tilley pode custar mais de £ 35 mil, segundo a BBC.

Mais recentemente, Tilley apresentou um autorretrato nu pintado em um prato para leilão beneficente. A imagem remete a ‘Supervisora ​​de Benefícios Descansando’, mas a mostra desperta, ereta e de olhos bem abertos. Intitulada ‘O Supervisor de Benefícios Acordou’, a obra simboliza, para ela, sua reinvenção como criadora. Hoje com 68 aos, Sue Tilley segue em sua própria carreira, sem abandonar as memórias do trabalho com Freud.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.